O fundo do poço como aconchego

outubro 22, 2014 at 6:09 pm Deixe um comentário

Fundo do poço como aconchegoEntão é isso. Somos feitos do que sobrou. Resto de sonhos estilhaçados, com os nossos reflexos num pedaço obtuso de vidro quebrado. Resquícios de escolhas que nos levaram a esquecer do que já foi exatamente perfeito. Perfeito nos defeitos, nas formas e na sintonia. Nos medos. De arriscar, de desatar amarras, de se entregar. Mas deixamos as coisas boas lá no fundo da gaveta, quase esquecidas, tudo para acelerar a cicatrização das feridas. Perdemos apenas as coisas que realmente nunca foram nossas e, se hoje mantemos as que não nos pertencem mais, sinal que verdadeiramente fracassamos no projeto de felicidade. Tudo em nome do comodismo!

Sobrou coragem para dar um basta e o fundo do poço como aconchego. A sagrada fossa que nos ensina. Amém. E mesmo que a fé seja falha, faço o sinal da cruz na frente de cada igreja que passo. Pois fui do céu ao inferno na mesma velocidade que corre a areia na ampulheta, daquelas de plástico mesmo, tipo as dos jogos de infância. Mas o mundo real é mais dolorido e nem sempre temos outra oportunidade de rodar a roleta. Uma cartada errada e o jogo acaba, criança. Segunda chance, só no videogame. E na marra a gente aprende, antes que outro cartucho queime. Daí a resposta chega quando nos rendemos e sabemos que este é o sinal derradeiro da desistência, pois a paz só vem no equilíbrio.

Traz outra cerveja, pois o tempo desaba, trovejando forte e imponente. Embriaguemos a alma enquanto tudo se inunda lá fora. Aqui dentro, apesar de o peito já não arder, o coração galopa a cada gota de lágrima da chuva. Mas não esquenta, pois já já o sol retorna, renasce radiante, como quem chega para desarmar essa nossa cara fechada com seu sorriso amarelo de raios ultravioletas. Gargalha agora, tenta. Esse é o som perfeito que camufla tudo o que desmorona em silêncio. Perfeito como éramos, com nosso brilho apagado no momento em que tivemos medo de sermos esquecidos. E agora só me lembro de que somos tudo que restou. Feitos de tudo o que sobrou. E então, é isso.

Bruno Cazonatti

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Amor não é para ocupar o tempo Bang!

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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Às vezes balbucio algo no Twitter:

  • Aos trancos e barrancos, isso aqui é @Flamengo! 2 weeks ago
  • O @Flamengo não jogou NADA o ano inteiro. Não tem poder de decisão algum. Mas vamos lá nos iludir com o "ano mágico 2018". 2 weeks ago
  • Vamos torcer pros caras honrarem o polpudo salário em dia e classificar nessa competição pra, ao menos, termos um prêmio de consolação 2 weeks ago
  • Parece que as pessoas se contentam com a porra de um Carioca e acha que o resto vem na sorte, vem no "deixa a vida me levar"... 2 weeks ago
  • Quase não tenho usado o Twitter, porque me torno repetitivo e parece que os meses, os anos, não passam. Tudo a mesma coisa. 2 weeks ago

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