Amor não é para ocupar o tempo

outubro 1, 2014 at 7:01 pm Deixe um comentário

Amor não é para ocupar o tempoPuta. Ela sempre foi, porém menos por querer e mais pela necessidade. Uma quenga. Cobrava caro, era o justo. Todo aquele um metro e setenta e oito que merecem mesmo serem descritos por extenso. Peitão que vazavam por um decote safado. Aliás, me recordo bem dos mamilos. Marrons, o que de fato denunciava sua falsa loirisse. E as coxas? Grossas e bronzeadas, mas não tão grandes quanto a bunda, empinada, e de fazer qualquer lua cheia, minguar. Uma delícia que valia quase os 30% do salário do mais moribundo trabalhador, sedento por míseros sessenta minutos de prazer sem sentimento. O duro era isso, o tal sentimento. Impossível não se apaixonar. Pois ela estava mais para uma Roxanne, do The Police, que para uma Dirty Women, do Black Sabbath.

O mais complicado é que ela sabia exatamente como jogar. E quando murmurava aquele “eu te amo”, você era capaz de se achar o mais maravilhoso dos clientes. Logo eu, que não acredito mais no amor, virava crente ortodoxo e fervoroso defensor desta coisa do coração. Nossa… e quando ela sussurrava isso em meu ouvido, me sentia o pica das galáxias! Melhor até que um personagem sagaz de qualquer conto de Nelson Rodrigues. E era linda, como era linda aquela mulher! Perfumada, batom forte nos lábios, hidratante importado na pele. Doce. E ainda por cima, muito aconchegante. Sabia emprestar seu ombro para escutar os meus lamentos, incorporando aquela psicóloga gostosa que todo mundo gostaria de foder.

O pagamento era em cash. Sempre cobrava em dinheiro. Era exigente, claro. Valia a pena cada centavo. Também valia a pena ver seu sorriso ao me olhar, babando, enquanto ela se despia sem vergonha. O que me deixava mais triste era a mentira, pois ela sempre afirmava que aquela era a sua primeira experiência. Talvez, assim, ela quisesse me fazer sentir especial. Nunca me chamava pelo nome, apenas por adjetivos. Eu também nunca soube a sua verdadeira graça, pois ela sempre usava a alcunha das protagonistas de novelas das oito. E isso me fazia apaixonar.

E ainda me fez promessa. Jurou largar aquela vida na hora em que encontrasse o homem que seria o seu melhor um dia. Assim como ela é todo dia a melhor para seus tantos outros. E quando encontrasse esse homem, lhe seria sempre fiel. Desmoronei. Porque ela me alugava o seu corpo, mas jamais me venderia a sua alma. E me disse também que, mês que vem, não tem espaço para mim em sua agenda. Sutilmente ensinou-me que o amor não é para ocupar o tempo, mas sim, desocupar. E foi aí que me dei conta de que a puta na verdade, era eu. Vadio!

Bruno Cazonatti

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Fundamental para continuar a caminhada com felicidade O fundo do poço como aconchego

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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Às vezes balbucio algo no Twitter:

  • Aos trancos e barrancos, isso aqui é @Flamengo! 2 weeks ago
  • O @Flamengo não jogou NADA o ano inteiro. Não tem poder de decisão algum. Mas vamos lá nos iludir com o "ano mágico 2018". 2 weeks ago
  • Vamos torcer pros caras honrarem o polpudo salário em dia e classificar nessa competição pra, ao menos, termos um prêmio de consolação 2 weeks ago
  • Parece que as pessoas se contentam com a porra de um Carioca e acha que o resto vem na sorte, vem no "deixa a vida me levar"... 2 weeks ago
  • Quase não tenho usado o Twitter, porque me torno repetitivo e parece que os meses, os anos, não passam. Tudo a mesma coisa. 2 weeks ago

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