Archive for outubro, 2014

Bang!

BangComo um tiro. A memória que arde no peito tipo uma bala. Queima. Com olhos comprimidos, me pego com os dentes mordendo o lábio inferior. Finjo não sentir o que o tempo cicatrizou. Sangue. Bombeado rápido nas veias, acelerando o palpitar do coração. Pressão sobe, mãos gelam. Dor. No peito, não na consciência. Como quem paga uma puta e não pede troco. Sano a dívida do jogo, mas a vida cobra caro e não parcela os juros. Prometo. Nunca mais arriscar quando sei que o erro é certo. Troco a música no ipod pro som me levar pra longe. Vivo. Personagem sofrido em música feita para outros amores. Uma selfie postada sem filtro com legenda salpicada de mensagem subliminar. Sorriso em polaroide fingindo felicidade. Aquele check-in em rede social para dizer onde estou. Aonde vou? Rodo em círculos no caminho que escolhi. Escolho por me prender dentro do lugar em que todos querem sair. Pra me entorpecer e me esquecer da bala que arde em meu peito. Memória. Para arrancá-la de mim no estampido. Como um tiro.

Bruno Cazonatti

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outubro 28, 2014 at 8:21 pm 1 comentário

O fundo do poço como aconchego

Fundo do poço como aconchegoEntão é isso. Somos feitos do que sobrou. Resto de sonhos estilhaçados, com os nossos reflexos num pedaço obtuso de vidro quebrado. Resquícios de escolhas que nos levaram a esquecer do que já foi exatamente perfeito. Perfeito nos defeitos, nas formas e na sintonia. Nos medos. De arriscar, de desatar amarras, de se entregar. Mas deixamos as coisas boas lá no fundo da gaveta, quase esquecidas, tudo para acelerar a cicatrização das feridas. Perdemos apenas as coisas que realmente nunca foram nossas e, se hoje mantemos as que não nos pertencem mais, sinal que verdadeiramente fracassamos no projeto de felicidade. Tudo em nome do comodismo!

Sobrou coragem para dar um basta e o fundo do poço como aconchego. A sagrada fossa que nos ensina. Amém. E mesmo que a fé seja falha, faço o sinal da cruz na frente de cada igreja que passo. Pois fui do céu ao inferno na mesma velocidade que corre a areia na ampulheta, daquelas de plástico mesmo, tipo as dos jogos de infância. Mas o mundo real é mais dolorido e nem sempre temos outra oportunidade de rodar a roleta. Uma cartada errada e o jogo acaba, criança. Segunda chance, só no videogame. E na marra a gente aprende, antes que outro cartucho queime. Daí a resposta chega quando nos rendemos e sabemos que este é o sinal derradeiro da desistência, pois a paz só vem no equilíbrio.

Traz outra cerveja, pois o tempo desaba, trovejando forte e imponente. Embriaguemos a alma enquanto tudo se inunda lá fora. Aqui dentro, apesar de o peito já não arder, o coração galopa a cada gota de lágrima da chuva. Mas não esquenta, pois já já o sol retorna, renasce radiante, como quem chega para desarmar essa nossa cara fechada com seu sorriso amarelo de raios ultravioletas. Gargalha agora, tenta. Esse é o som perfeito que camufla tudo o que desmorona em silêncio. Perfeito como éramos, com nosso brilho apagado no momento em que tivemos medo de sermos esquecidos. E agora só me lembro de que somos tudo que restou. Feitos de tudo o que sobrou. E então, é isso.

Bruno Cazonatti

outubro 22, 2014 at 6:09 pm Deixe um comentário

Amor não é para ocupar o tempo

Amor não é para ocupar o tempoPuta. Ela sempre foi, porém menos por querer e mais pela necessidade. Uma quenga. Cobrava caro, era o justo. Todo aquele um metro e setenta e oito que merecem mesmo serem descritos por extenso. Peitão que vazavam por um decote safado. Aliás, me recordo bem dos mamilos. Marrons, o que de fato denunciava sua falsa loirisse. E as coxas? Grossas e bronzeadas, mas não tão grandes quanto a bunda, empinada, e de fazer qualquer lua cheia, minguar. Uma delícia que valia quase os 30% do salário do mais moribundo trabalhador, sedento por míseros sessenta minutos de prazer sem sentimento. O duro era isso, o tal sentimento. Impossível não se apaixonar. Pois ela estava mais para uma Roxanne, do The Police, que para uma Dirty Women, do Black Sabbath.

O mais complicado é que ela sabia exatamente como jogar. E quando murmurava aquele “eu te amo”, você era capaz de se achar o mais maravilhoso dos clientes. Logo eu, que não acredito mais no amor, virava crente ortodoxo e fervoroso defensor desta coisa do coração. Nossa… e quando ela sussurrava isso em meu ouvido, me sentia o pica das galáxias! Melhor até que um personagem sagaz de qualquer conto de Nelson Rodrigues. E era linda, como era linda aquela mulher! Perfumada, batom forte nos lábios, hidratante importado na pele. Doce. E ainda por cima, muito aconchegante. Sabia emprestar seu ombro para escutar os meus lamentos, incorporando aquela psicóloga gostosa que todo mundo gostaria de foder.

O pagamento era em cash. Sempre cobrava em dinheiro. Era exigente, claro. Valia a pena cada centavo. Também valia a pena ver seu sorriso ao me olhar, babando, enquanto ela se despia sem vergonha. O que me deixava mais triste era a mentira, pois ela sempre afirmava que aquela era a sua primeira experiência. Talvez, assim, ela quisesse me fazer sentir especial. Nunca me chamava pelo nome, apenas por adjetivos. Eu também nunca soube a sua verdadeira graça, pois ela sempre usava a alcunha das protagonistas de novelas das oito. E isso me fazia apaixonar.

E ainda me fez promessa. Jurou largar aquela vida na hora em que encontrasse o homem que seria o seu melhor um dia. Assim como ela é todo dia a melhor para seus tantos outros. E quando encontrasse esse homem, lhe seria sempre fiel. Desmoronei. Porque ela me alugava o seu corpo, mas jamais me venderia a sua alma. E me disse também que, mês que vem, não tem espaço para mim em sua agenda. Sutilmente ensinou-me que o amor não é para ocupar o tempo, mas sim, desocupar. E foi aí que me dei conta de que a puta na verdade, era eu. Vadio!

Bruno Cazonatti

outubro 1, 2014 at 7:01 pm Deixe um comentário


O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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Às vezes balbucio algo no Twitter:

  • Aos trancos e barrancos, isso aqui é @Flamengo! 2 weeks ago
  • O @Flamengo não jogou NADA o ano inteiro. Não tem poder de decisão algum. Mas vamos lá nos iludir com o "ano mágico 2018". 2 weeks ago
  • Vamos torcer pros caras honrarem o polpudo salário em dia e classificar nessa competição pra, ao menos, termos um prêmio de consolação 2 weeks ago
  • Parece que as pessoas se contentam com a porra de um Carioca e acha que o resto vem na sorte, vem no "deixa a vida me levar"... 2 weeks ago
  • Quase não tenho usado o Twitter, porque me torno repetitivo e parece que os meses, os anos, não passam. Tudo a mesma coisa. 2 weeks ago