Sofá

agosto 20, 2014 at 8:42 pm Deixe um comentário

SofáAcordei tarde, com o bafo de anteontem. Dormi ali mesmo, no meu sofá encardido. Dane-se a coluna. Me olhei no espelho e constatei que já não valho mais do que aquela gosma branca, que desce e sobe pelo canto da boca enquanto falo sozinho dormindo. Sinto-me inútil ao bocejar novamente. Durmo, não sonho. Este gosto amargo na língua, essa ressaca forte explodindo na cabeça… mas que merda! Queria um café, mas só tem cerveja quente. Um gole do resto na lata, um trago na ponta do fumo. Pronto, o melhor café da manhã dos moribundos, degustado em frente à TV, zapeando os canais da minha mente em preto e branco.

Num piscar de olhos, perdi tudo. Desacreditei no amor e na fé. Desperdicei pedidos em oração e escrevi poesias inúteis. Cansei de fazer promessas, resolvi viver me enganando, com essa barba falha por fazer e recomeçando as velhas coisas que jamais vou terminar. Das que empurro com a barriga enquanto procuro perguntas sem respostas, saca? Acabei por reencontrar sentimentos que já não têm mais perspectivas de que vão durar. Preciso respirar! O vidro quebrado da janela é o único que deixa o ar entrar. O sol não, pois deixo a cortina sempre fechada. Não me importo mais se é dia ou se tem lua no céu. Tanto faz.

O problema é a maldição de me recordar sempre do que preciso esquecer, me deixando esquecer de tudo o que realmente preciso me lembrar. Aquela coisa de querer ter você sem precisar justificar ou dizer nada. Puta coisa simples, cara! Estar com você me basta. Ah, e também basta colocar novas cores na parede, trocar a lâmpada queimada do quarto e comprar um sofá novo. Um sofá que precisa de você sentada nele, rindo de mim enquanto finjo ser cult assistindo filme nerd. Um sofá que precisa ser a extensão do meu corpo pra você se aconchegar. Pra ficar ali, esperando você voltar. Um sofá só nosso, sem o ácaro causador dessa alergia que tenho de tentar ser feliz.

Bruno Cazonatti

Entry filed under: Ácidos.

Pra quem ficou para o vento Porque cada passo que damos é para frente

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
----------------------------

Os textos deste blog estão protegidos pela lei nº. 9.610 de 19-02-1998.
Não copie sem permissão.
[Ácido Poético® - Todos os direitos reservados]

http://www.twitter.com/cazonatti

ø Textos Protegidos por Direito Autoral ø

Creative Commons License
Ácido Poético by Bruno Cazonatti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.
Based on a work at Ácido Poético ®.
Permissions beyond the scope of this license may be available by: cazonatti@gmail.com

Às vezes balbucio algo no Twitter:


%d blogueiros gostam disto: