Posfácio

outubro 2, 2012 at 8:50 pm 1 comentário

Depois de tanto tempo, ele a viu. Fugiu do contato visual, pois era algo que não correspondia mais às expectativas. Até agradeceu ao seu santo por ter conseguido desapegar daquele encosto. E a tática do afastamento funcionou, claro. Era como se ele visse um poste ou uma garrafa de rum, sem líquido. Sempre soube que o tempo é o verdadeiro Deus. Cura e ajuda a entender os erros, principalmente os acertos. E tudo que antes lhe inebriava o ego e arrepiava os pentelhos da nuca, hoje não passa de algo insignificante, tal um antiácido sabor de qualquer fruta.

Moram na mesma cidade, têm os mesmos gostos, frequentam alguns lugares comuns, mas nunca mais se cruzaram, exceto agora, quando terão dois dias compatíveis por conta do acaso. Nada que uma esnobada não resolva. Mas ele jura que não darão nenhum esbarrão ou trocarão sequer uma palavra chavão. As pessoas que são conhecidas, aqueles amigos em comum, vão se encarregar de apagar os vestígios. Ninguém fala mais do que o necessário e o pertinente.

A indiferença é tão fulminante quanto à atração. E o mais legal é que ele não se recorda os motivos daquele envolvimento. Jura nem conseguir se lembrar de alguma explicação adequada e convincente para o fim. De certo não tem mesmo lógica, pois era como sair de um tubo de oxigênio que lhe tornava totalmente dependente dos gestos e das atitudes, para voltar a respirar ar puro.

Por isso, ele comemora e sabe que hoje é livre daquele minúsculo carinho que nutria por ela. Entretanto, e ao mesmo tempo, está ciente que estará amordaçado eternamente na incompreensão de algo que não passou de uma paranoia sem amor. Para isso, estas linhas lhe servirão apenas como posfácio.

Bruno Cazonatti

Entry filed under: Ácidos.

Cais Amor de festim

1 Comentário Add your own

  • 1. Daniel Andrade  |  outubro 23, 2012 às 11:57 am

    Ótimo, Bruninho. Já estava com saudades de ler esses seus textos tão bons e criativos.
    Abraços!

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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