Archive for outubro, 2012

Amor de festim

Derramei a taça de vinho na colcha. Vestígio vermelho, misturado com suor e porra. Coitada da camareira. Será que temos que pagar uma grana extra? Nem escutou o que eu falei. Ela não se importou, levantou e tomou aquela ducha pra tirar minha saliva do seu corpo. Geografia totalmente estudada. Em cada poro um gosto colorido. Sabores fortes de libido. E a gente nem é assim feito um para o outro. Nos pertencemos apenas algumas horas dentro desse quarto de motel tosco.

Nossos laços não passam de junção de cadarços. Hoje ela vai pagar a conta, pois pra mim fim do mês é foda. No quinto dia útil, quem sabe. Agora vamos embora que já está amanhecendo. Deixo você na esquina, mais tarde a gente se encontra no trabalho, entre um gole ou outro na cafeína. Bateu a porta ao descer. Em mim às vezes bate até um ciúme. Os gracejos dos homens na rua ficam inaudíveis, enquanto ela mantém seu passo a passo com cabelo molhado, mais avermelhado com o toque do sol.

Eu não sei até onde vamos. Um dia o tesão acaba e eu sofrerei com o seu abandono. Um dia a minha vontade passa e lhe renuncio trocando por outra mentira. Vai lá saber?  A verdade é que não se traça o caminho que começa por um atalho. Eu gosto mesmo é de ver sua calcinha enfiada no rabo. Deixa essa coisa de pele fluir e nunca argumente sobre onde é que vamos dormir. Porque eu nunca lhe deixo fechar os olhos. Agora já era, você pertence a tudo que já passou. Então pra quê traçar aonde se deseja ir? Já já tudo vira passado e você sente que, se não for uma louca aventura, pode ser que seja amor de festim.

Bruno Cazonatti

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outubro 23, 2012 at 2:52 pm 1 comentário

Posfácio

Depois de tanto tempo, ele a viu. Fugiu do contato visual, pois era algo que não correspondia mais às expectativas. Até agradeceu ao seu santo por ter conseguido desapegar daquele encosto. E a tática do afastamento funcionou, claro. Era como se ele visse um poste ou uma garrafa de rum, sem líquido. Sempre soube que o tempo é o verdadeiro Deus. Cura e ajuda a entender os erros, principalmente os acertos. E tudo que antes lhe inebriava o ego e arrepiava os pentelhos da nuca, hoje não passa de algo insignificante, tal um antiácido sabor de qualquer fruta.

Moram na mesma cidade, têm os mesmos gostos, frequentam alguns lugares comuns, mas nunca mais se cruzaram, exceto agora, quando terão dois dias compatíveis por conta do acaso. Nada que uma esnobada não resolva. Mas ele jura que não darão nenhum esbarrão ou trocarão sequer uma palavra chavão. As pessoas que são conhecidas, aqueles amigos em comum, vão se encarregar de apagar os vestígios. Ninguém fala mais do que o necessário e o pertinente.

A indiferença é tão fulminante quanto à atração. E o mais legal é que ele não se recorda os motivos daquele envolvimento. Jura nem conseguir se lembrar de alguma explicação adequada e convincente para o fim. De certo não tem mesmo lógica, pois era como sair de um tubo de oxigênio que lhe tornava totalmente dependente dos gestos e das atitudes, para voltar a respirar ar puro.

Por isso, ele comemora e sabe que hoje é livre daquele minúsculo carinho que nutria por ela. Entretanto, e ao mesmo tempo, está ciente que estará amordaçado eternamente na incompreensão de algo que não passou de uma paranoia sem amor. Para isso, estas linhas lhe servirão apenas como posfácio.

Bruno Cazonatti

outubro 2, 2012 at 8:50 pm 1 comentário


O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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