Raso Profundo

novembro 30, 2009 at 7:49 pm 4 comentários

Raso Profundo

Não mais engomado, sem escarro. Escárnio matinal. Pronto ao pós-despertar na saleta, babado e bêbado. Dor de cabeça infernal. Nem deu tempo de chegar ao quarto. Estirei-me por aqui mesmo. Pelo menos não há vômito e bilhetes de despedida. Caí no canto mais sujo, empoeirado. Canto sem voz. Sem teia de aranha ou afago no seio de qualquer puta paga. A sós, eu e a enxaqueca. A urina me ajuda a acordar mais depressa, antes que a vergonha seja impressa em amarelo na minha calça jeans surrada.

Banheiro com bidê faz parte da moda retrô. A parada perfeita para se banhar qualquer pudor com um chuveirinho safado. Os chiados de trânsito lá fora se misturam com as estacas em minha cabeça. Não há melodia em meus ouvidos e minha língua pede por cafeína forte. Chove lá fora, aqui dentro só a velha instabilidade. Quatro vezes quatro, dezesseis. Guimba de cigarro de erva e, pro resto de kaya, não tem seda. Foda é saber ceder, porém o vício é onde o desejo está.

Não vou pensar agora em xoxota. A falta de grana me afasta do prostíbulo mais fuleiro. Nem a vizinha solteirona, aquela de meia idade que já ficou para a titia, quer me dar brecha. Azar o dela eu ter a sorte que me não faz subir o pau pra qualquer uma. Porra, minha educação lírica foi pras cucuias ou pra sei lá onde fica esta merda. Homem é assim mesmo, cheio de impropério para falar e ejacular. Não gostou toma o caminho da roça, só não bate a porta que esta dor de cabeça ta acabando comigo.

Eu to um lixo, cara. Nem faço mais a barba e deixei de comer beterraba. Trash food e rock ´n roll não vão sustentar meu corpo em pé, eu sei. Mas, uma desgraça por vez, vai. Eu já cansei de procurar estrelas no teto enquanto minhas unhas crescem em silêncio. A ausência de som é perigosa. Ah, que bom o barulhinho do mijo santo, reciclado álcool que afoga a alma e lava o pecado. Mas, antes de eu dar a descarga, vejo um reflexo na água amarela da privada. É revelador. O raso muitas vezes é profundo e me faz refletir aflito. Enfim, é a ressaca. Vomito tudo o que eu não sou.

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Azucrinação do Caralho Pra Tu

4 Comentários Add your own

  • 1. Charlotte  |  dezembro 19, 2009 às 7:24 pm

    Olá… que bom que vc continua a escrever! Eu dei uma sumida de mais de um ano, mas estou de volta… E vc, volta logo?
    Bjs

    Responder
  • 2. keila lima  |  dezembro 23, 2009 às 1:53 pm

    Simplesmente ADOREI seus textos!!

    Responder
  • 3. naty  |  dezembro 26, 2009 às 5:05 pm

    Os fogos anunciam a chegada de um ano novo !
    É hora de refazer vossos sonhos ainda não realizados
    e acreditarem que irão concretizá-los.
    Soltar em olhares solidários e carinhosos para os vossos amigos.
    Aprenderem com os erros do ano que está a findar e brindar ao novo ano bem vindo com um sorriso.
    Correrem ao encontro daquele amor ainda não perdido
    ou surpreenderem mais uma vez o amor já conquistado.
    Desejamos a todos vocês um ano repleto de luz, amor, saúde e prosperidade.
    Feliz Ano Novo!

    Responder
  • 4. João Paulo  |  janeiro 10, 2010 às 6:28 pm

    Fez-me lembrar do querido Augusto dos Anjos, poeta ímpar que sagazmente expressa seus sentimentos, angústias…
    valeu mesmo pelo texto.

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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