Archive for novembro, 2009

Raso Profundo

Raso Profundo

Não mais engomado, sem escarro. Escárnio matinal. Pronto ao pós-despertar na saleta, babado e bêbado. Dor de cabeça infernal. Nem deu tempo de chegar ao quarto. Estirei-me por aqui mesmo. Pelo menos não há vômito e bilhetes de despedida. Caí no canto mais sujo, empoeirado. Canto sem voz. Sem teia de aranha ou afago no seio de qualquer puta paga. A sós, eu e a enxaqueca. A urina me ajuda a acordar mais depressa, antes que a vergonha seja impressa em amarelo na minha calça jeans surrada.

Banheiro com bidê faz parte da moda retrô. A parada perfeita para se banhar qualquer pudor com um chuveirinho safado. Os chiados de trânsito lá fora se misturam com as estacas em minha cabeça. Não há melodia em meus ouvidos e minha língua pede por cafeína forte. Chove lá fora, aqui dentro só a velha instabilidade. Quatro vezes quatro, dezesseis. Guimba de cigarro de erva e, pro resto de kaya, não tem seda. Foda é saber ceder, porém o vício é onde o desejo está.

Não vou pensar agora em xoxota. A falta de grana me afasta do prostíbulo mais fuleiro. Nem a vizinha solteirona, aquela de meia idade que já ficou para a titia, quer me dar brecha. Azar o dela eu ter a sorte que me não faz subir o pau pra qualquer uma. Porra, minha educação lírica foi pras cucuias ou pra sei lá onde fica esta merda. Homem é assim mesmo, cheio de impropério para falar e ejacular. Não gostou toma o caminho da roça, só não bate a porta que esta dor de cabeça ta acabando comigo.

Eu to um lixo, cara. Nem faço mais a barba e deixei de comer beterraba. Trash food e rock ´n roll não vão sustentar meu corpo em pé, eu sei. Mas, uma desgraça por vez, vai. Eu já cansei de procurar estrelas no teto enquanto minhas unhas crescem em silêncio. A ausência de som é perigosa. Ah, que bom o barulhinho do mijo santo, reciclado álcool que afoga a alma e lava o pecado. Mas, antes de eu dar a descarga, vejo um reflexo na água amarela da privada. É revelador. O raso muitas vezes é profundo e me faz refletir aflito. Enfim, é a ressaca. Vomito tudo o que eu não sou.

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novembro 30, 2009 at 7:49 pm 4 comentários

Azucrinação do Caralho

Eu sei que ficar imóvel não é girar com o mundo. Mudo as palavras para que não ecoem em tom errado. Escoam em opaco. Sem contraste, ditas por um traste em foto sem foco ou flash. Um clique pode ser tanto da câmera, quanto do mouse, ou do revólver que não sei o calibre. Bala na agulha do palheiro. Tocando o puteiro. Alguns pontos sem nós e o estado solitário que não me ajuda a conjugar verbos para as pessoas no plural. Ainda há alguns bilhetes de adeus no funeral.

Inerte no sofá, sob efeito do álcool e das notícias da TV, tudo soa assim clichê. O espetáculo da tragédia ajuda na fatura mídia. Fartura violência. Tudo sem ressaca observando o cotidiano da sacada. Foda-se, não foi comigo. Vende-se cenas repetidas da queda do helicóptero. Azucrinação do caralho. E o que faço com meu chefe me fodendo? Abato-o? Papo bravo, carregado e cheio de fagulhas. É claro que a esperança sempre aparece com aquele cheiro de terra molhada. O problema é que nem sempre chove.

Mente aberta, sem barreiras. As ideias marcam territórios ilusórios. Já não basta apenas viver. É preciso sobreviver além de percepções, sentimentos e escolhas. É preciso fugir das traçantes e não virara estatística. Alguma nuance de sangue com manchete de bala perdida. Eu sei que é uma merda, mas todo mundo acaba se acostumando em viver com o medo. Tudo rima com morte. Por sorte, ainda rumo para algum lugar ao norte, apenas para tentar rimar palavras tolas.

Um tiro que nos desperta do estado de entorpecimento. Sirenes. Gritos que brotam em meio ao silêncio, que cortam o descanso e desnorteia a realidade. Toda esta estupidez cotidiana carregada de maldade. Que bom é ainda poder despertar e ainda vasculhar motivos para sorrir, dançar e gozar. Basta trancar bem a porta e as janelas e tapar os ouvidos. Também dá para encontrar refúgio trocando de canal. Basta viver de utopias e assistir às reprises do desenho do pica pau.

novembro 5, 2009 at 7:50 pm 4 comentários


O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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