O Resto do Mundo

setembro 16, 2009 at 2:32 pm 1 comentário

restodomundo

Talvez até fosse artista, menos mal para o mendigo na busca pela caridade criativa. Estendendo a mão para sanar os males em vão. Se o cara passa e finge não ver, como é que se garante um quadro pintado sob a fome e aguardente? Barba grande, sujo imundo. Tudo lusco fusco sem grão ou migalhas de benção. Cara cinza, partes pretas em pus. Pés descalços neste asfalto vida. Pobre de espírito.

Usava suas ideias para sobreviver. Estátuas de metal, material nobre feito com as latinhas em cobre. Figuras difusas de uma mente libertina. Salientando os pontos mais fracos da ordinária melancolia. Sem tinta, apenas com as cores da central. Submundo da cidade silenciosa após mais um dia de rotina. Tudo assim meio jogado aos farrapos, cobrindo a vergonha com jornal velho e papeis amassados. Pelo menos sana o frio. Proteção divina em forma de papelão, um guarda chuva essencial para os pingos mais gélidos. Qualquer calçada da rua com marquise serve como abrigo.

Os transeuntes vão e vem. Coitado, virou paisagem comum da grande metrópole, quase um ser imperceptível. Antes usasse gravata italiana cara e terno de linho, um executivo manipulado pelo poder capital. Menos mal. Apenas as crianças o reparam, pois a ingenuidade não compreende o descaso social e o acostumar de retinas. Todos bem habituados. De certo causava repúdio e ,nas madrugadas, até medo. Principalmente nas moças, com medo de estupro. O asco é o salário do pedinte.

O prejulgamento que é foda. Tudo bem que até o viralatas o largou e hoje a cachaça é a sua única amiga. Mas, jamais perguntaram de onde ele veio ou como surgiu. Porque nascer nesta condição não significa permanecer imóvel ali para sempre. E é nestas horas que o peito arde e o coração aperta. No fundo dos restos que ainda lhe sobrava, uma foto amarelada e maltratada pelo tempo. Um rosto feminino com dedicatória no verso, quase ilegível. Nunca o indagaram sobre a sua paixão. E, covarde, não morreria por tal sentimento. Até ele, um imundo mortal, também deixou de acreditar no poder que tem o amor. Agora só lhe sobra o resto do mundo.

Entry filed under: Ácidos.

Conjugar o Viver Capaz, rapaz.

1 Comentário Add your own

  • 1. Ana Maia  |  setembro 16, 2009 às 3:43 pm

    Que visão maravilhosa do submundo. Adorei! Estarei por aqui sempre

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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