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Está bom ou falta Sal

falta sal

Ela nunca guarda as cartas de amor que recebe. Deteste esse papel de protagonista endeusada em linhas repletas de rimas e palavras doces. Na verdade, ela prefere se guardar para as cartas de amor. Aquelas com texto legível e palavras coloridas com cheiro de amoras. Difícil é encontrar esse aroma em dias de pouco sentimento, pois a maioria dos príncipes encantados só pensa em copular. Mãos bobas que preferem seios e coxas, longe de palavras bonitas em letras de fôrma.

Às vezes é bom agradecer por existir limites, pois nunca se sabe onde vai dar o infinito. Ela, que também nunca soube o tamanho do céu, tem plena certeza de que até as estrelas deixam de brilhar quando é hora do sol. Penumbra é dar voltas na mesma frase, sem palavras novas que remetam à falta de luz. E tem os atalhos, como aquele da cigarra. Ora, todo mundo sabe que quando ela canta, um dia quente amanhã virá. Nem é preciso bola de cristal.

Não dá para ser feliz sem ter alguém que nos cause soluços. Ela sabe disso. Sente a falta daquela queimação no peito e ansiedade na véspera de um encontro. Mas, há cautela. Não dá para ser frágil a vida toda. Ah, se ela soubesse o que os homens cochicham entre si… Todos bobos e safados. É da natureza, fazer o quê? Mas, quando eles amam de verdade, é tão discreto tal prato de canja quente em dia frio. Não espalham e não sussurram se está bom ou falta sal. Nem deixam derramar uma gota!

Mas há um problema: ela não gosta de letra ilegível. Mesmo que haja coragem e vontade, é preciso treinar os traços em caderno de caligrafia. Tudo bem que não é para ser tão exigente afinal, qualquer um faz poesia com as palavras erradas que se tornam certas para quem as lê. Imagina ser cega e não poder ler nas entrelinhas. Ela precisa ser menos exigente e entender que a solidão é uma saudade com endereço escrito à mão em um envelope sem destinatário.

agosto 17, 2009 at 8:27 pm 3 comentários


O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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