Archive for maio, 2009

Sentimentos Defuntos

abajur

A insegurança é o inquilino dentro da cabeça. Neurose. Um abajur ligado para a escuridão não tomar conta do quarto. Medo. Pode até ser que o cobertor me proteja de algo maléfico, mas é um artifício da segurança subliminar. Um copo d’água na cabeceira absorve toda a energia do ambiente. Estou nu.

A janela fechada atenua o barulho da rua. Sirenes, gargalhadas do bar e todo aquele ruído anoitecido. Eu podia ser mais um no meio do crepúsculo, mas tenho medo. Pavor das mentes alheias, das mulheres putas e puras, misturadas entre boates, pubs, botecos e esquinas. Todas elas roubam. Ladras! Abrem sorrisos e pernas para me ganhar. A última me levou o coração e agora, só vivo de sentimentos defuntos.

Sujo. Eu sou imundo mesmo. Só consigo me guiar pelas histórias ruins, onde fui coadjuvante. As boas, de protagonista, raramente me dão referência. É aquele clichê que reza o aprender com aquilo que deu errado. Bom mesmo é ser inexperiente, quando se ousa e não há o receio de tentar. Babaca. Eu sou um idiota por saber que, se colocar meu dedo na tomada novamente, levo choque.

Só consigo imaginar a dor. Não dá para resgatar a astúcia, o pioneirismo. Inexiste sentimentos de recém-nascido, suspiros joviais, tipo adolescente estúpido, mas corajoso. “Isso nunca vai acontecer comigo” era um lema, mas hoje já sei até que consequência não leva mais trema. Ficou tudo tão igual, sem graça e com cheiro de naftalina. O peito lateja com uns lampejos de memória.

Imagens amareladas remetendo a pessoas que se foram, sem festa de despedida. Dá até pra fazer um brechó na cabeça com tanta quinquilharia. Perfumes, sabores e músicas que me levam de volta aos momentos de dor e glória. Saudades múltiplas. Não dá para esquecer tudo. Se pelo menos só os momentos bons ficassem… Mas sempre que eu folhear os álbuns de fotografia, vou encontrar tudo de novo. Então, uso o cobertor para me proteger e deixo o abajur ligado, para que ainda reste um ponto de luz, em meio a tanta escuridão.

maio 22, 2009 at 2:37 pm 8 comentários


O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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