Espectador Oblíquo

março 31, 2009 at 2:22 pm 7 comentários

Espectador Oblíquo

Eu só me lembro das cores. Remetia medo. O vermelho-sangue estampando o asfalto, aquarela de um corpo sem alma, com um furo na testa. Dezenas se aglomeraram para ver a cena. O espetáculo da tragédia. Dava pauta, prosa e palpites diversos. Tinha gente anotando o número do prédio, bem em frente onde o corpo estava. Era para o jogo do bicho, ou a sorte na Mega Sena. Um cadáver na cena sem apostas.

O guarda acendeu um cigarro e afastou o povo. Alguns metros marcados com fita amarela. Só faltava o giz para contornar a última posição do defunto. Sirenes. Um pequeno relâmpago anunciava a chuva. O bradar da trovoada veio junto com os primeiros pingos. Ninguém havia escutado o estampido. Foi assalto, ou vingança? Não se sabe a sentença. Só restou a carne morta com bala na cabeça.

O morto estendido no chão a um passo, a um olhar dos que trafegam pela rua. E são comentários dos que sentem repúdio, murmurinhos de quem sente pena. É um corpo qualquer, um indivíduo a mais à distância da multidão. O saco preto minimiza a imagem, mas a garoa virou dilúvio e as gotas da chuva carregam o sangue para o bueiro. Escoando todo tipo de sentimento. A dor dos parentes, o espanto dos transeuntes e o cansaço dos policiais, por mais uma estatística. Uma obra prima da sarjeta, em tela real.

Já tem rabecão e um cara carregando máquina fotográfica afastando os bombeiros. Queria registrar a posição, coisa de perícia. Gesto mórbido naquela calçada-caixão. As horas correm, a cena fica comum. Os olhos se acostumam com a violência. Sou mais um espectador oblíquo. Aos poucos pego meu rumo e volto ao cotidiano. Sem velar corpo, sem participar de enterro. Não me recordo sequer o rosto do morto. A tragédia é mais uma imagem na memória, mas a gente só se lembra das cores.

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Sujo e Vulgar Sem Sal e Sentimento

7 Comentários Add your own

  • 1. Leidi  |  abril 1, 2009 às 6:46 pm

    Parabéns Bruno é um lindo poema da verdadeira e cruel realidade.

    Responder
  • 2. Daniel  |  abril 3, 2009 às 3:47 pm

    Muito bom. Do início ao fim. Parabéns moleque!!!

    Responder
  • 3. Carol Montone  |  abril 5, 2009 às 9:00 pm

    que triste….belo…
    as vezes é melhor fechar os olhos e imaginar a vida
    beijoss

    Responder
  • 4. Gabi  |  abril 9, 2009 às 6:20 pm

    Muito bom Bruno!!!
    Saudades daquela época dos blogs!! Beijos!!

    Responder
  • 5. Ane  |  abril 22, 2009 às 12:20 am

    Muito bom…
    triste, porém real..

    =)

    beijos e beijos

    Responder
  • 6. http://mega-sena.resultado-caixa.com.br  |  abril 28, 2009 às 8:00 pm

    Caramba, muito legal esse blog!

    Vou adicionar nos meus favoritos do iGoogle 😀

    Abraços,

    Miguel

    Responder
  • 7. Sônia  |  abril 29, 2009 às 6:14 pm

    Acostumar com a violência, esse é o perigo!

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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