Sujo e Vulgar

fevereiro 27, 2009 at 6:53 pm 7 comentários

Sujo e Vulgar

Tateava os livros na estante por puro ócio. Já havia lido todas as letras e se lembrado de quase todas as histórias. O problema era o marasmo. Com a televisão pifada, nada mais poderia sugar a sua atenção. Pelo menos naqueles primeiros minutos vagos. Também estava sem rádio. Logo agora que precisava de novas melodias além dos ruídos da sua respiração forte. As janelas só cospem buzinas e empurram os ecos da rua. Na geladeira, só água filtrada guardada numa garrafa de pinga. Também não tinha pudim. Nem sempre é doce o sabor na língua. A tarde passava vagarosa, aproximando o anoitecer de suas horas não dormidas. Um traço de cocaína aspirado com uma mísera nota sem o valor real. Nada que valha a sensação estúpida de ser o tal. Servia para dar coragem, salientar as vontades sem causar alarde.

Trabalho demais para ganhar cada vez menos. Mas, a grana ainda dá para pagar o aluguel, as contas e a farinha. Sempre sobrava trocado para as vadias. É por isso que nunca quis compromisso, pois era preciso novos ventres para reacender a libido. Novas pernas e orgasmos. Imaginar as virilhas raspadas já lhe causava espasmo. Nem titubeou. Pegou o celular e ligou para a cafetina. Ainda tinha fome e algum dinheiro em cima da escrivaninha. Bulimia. Pediu duas e queria desconto com uma das ‘primas’. Era cliente antigo, mas não ganhava um bônus. Nem tomava banho, pois sempre estava sujo e vulgar. Insano. Queria pêlos, grelos e gozos. Deleite. Duas piranhas e alguns instantes de êxtase.

As risadas na porta vieram acompanhadas da campainha. Rosto de menina. Uma parecia ter menos de dezoito. E daí? Só pensava em começar logo o coito. Todo mundo tem o direito de foder. Pagando não é preciso muito poder. A loira pediu para usar o banheiro enquanto a baixinha queria finalizar o serviço de modo ligeiro. Teria outro cliente, nada além do corriqueiro. Despidos. Uma de quatro e a outra tirando o vestido. Todas as safadezas permitidas nos próximos sessenta minutos de prazeres fingidos. Línguas, peles, pau e bocetas. Duas contra um é fetiche de menino. Lambidas, mordidas, cheiros e frestas. Homem de tara saciada por duas vagabundas sapecas.

Trabalho bem feito. As moças se foram, após guardarem o dinheiro entre os seios. Sozinho, novamente, daria brecha para os anseios. Matou sua fome, porém tinha sede. Na estante não tinha mais rum. Nem sempre os relacionamentos são repletos de senso comum. Brindou à vida com a água filtrada na garrafa de pinga. Relação perfeita é o saciar da pica. Sem ninguém para amar, ou sentir ódio. Sexo, mesmo pago, é o ópio. Não fazer nada é a pior coisa que alguém pode fazer. Por isso, ajoelhou e balbuciou uma prece a Eros. Grato pelas mulheres do mundo, as que dão o verdadeiro prazer.

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Medo do Amor Espectador Oblíquo

7 Comentários Add your own

  • 1. E. Cruz  |  fevereiro 27, 2009 às 7:10 pm

    “Objetividade”, é a alma do negócio sujo.Pagar, gozar e estar livre… Nada melhor que uma leitura dessa qualidade pra reacender o saudosismo de carnavais passados…
    Época que a vida era mais real e menos ficcional.
    Para os que se regozijão com a perversão literária ou a real, aí está um belo manancial de prazer desse “puto” escritor!!!
    Ahhhhhh…que gostoso delícia!!!

    Responder
  • 2. Luis Augusto Nobre  |  fevereiro 27, 2009 às 7:11 pm

    Efemérides de um cara sem anseios.

    Responder
  • 3. Christiani Rodrigues  |  março 5, 2009 às 2:12 am

    Cê taí, é? Bom te ver…ou melhor ler…

    Responder
  • 4. Alê Quites  |  março 26, 2009 às 1:15 pm

    Tem um selo no meu blog para você.
    Beijos

    Responder
  • 5. Pataca  |  março 26, 2009 às 6:11 pm

    Ótimo! Putas pagas!

    Responder
  • 6. Ane  |  março 31, 2009 às 12:28 pm

    enquanto isso basta, tá valendo…

    😉

    beijos!

    Responder
  • 7. Sônia  |  abril 29, 2009 às 6:13 pm

    Puxa…sujo e vulgar mesmo!rs

    Responder

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Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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