Archive for fevereiro, 2009

Sujo e Vulgar

Sujo e Vulgar

Tateava os livros na estante por puro ócio. Já havia lido todas as letras e se lembrado de quase todas as histórias. O problema era o marasmo. Com a televisão pifada, nada mais poderia sugar a sua atenção. Pelo menos naqueles primeiros minutos vagos. Também estava sem rádio. Logo agora que precisava de novas melodias além dos ruídos da sua respiração forte. As janelas só cospem buzinas e empurram os ecos da rua. Na geladeira, só água filtrada guardada numa garrafa de pinga. Também não tinha pudim. Nem sempre é doce o sabor na língua. A tarde passava vagarosa, aproximando o anoitecer de suas horas não dormidas. Um traço de cocaína aspirado com uma mísera nota sem o valor real. Nada que valha a sensação estúpida de ser o tal. Servia para dar coragem, salientar as vontades sem causar alarde.

Trabalho demais para ganhar cada vez menos. Mas, a grana ainda dá para pagar o aluguel, as contas e a farinha. Sempre sobrava trocado para as vadias. É por isso que nunca quis compromisso, pois era preciso novos ventres para reacender a libido. Novas pernas e orgasmos. Imaginar as virilhas raspadas já lhe causava espasmo. Nem titubeou. Pegou o celular e ligou para a cafetina. Ainda tinha fome e algum dinheiro em cima da escrivaninha. Bulimia. Pediu duas e queria desconto com uma das ‘primas’. Era cliente antigo, mas não ganhava um bônus. Nem tomava banho, pois sempre estava sujo e vulgar. Insano. Queria pêlos, grelos e gozos. Deleite. Duas piranhas e alguns instantes de êxtase.

As risadas na porta vieram acompanhadas da campainha. Rosto de menina. Uma parecia ter menos de dezoito. E daí? Só pensava em começar logo o coito. Todo mundo tem o direito de foder. Pagando não é preciso muito poder. A loira pediu para usar o banheiro enquanto a baixinha queria finalizar o serviço de modo ligeiro. Teria outro cliente, nada além do corriqueiro. Despidos. Uma de quatro e a outra tirando o vestido. Todas as safadezas permitidas nos próximos sessenta minutos de prazeres fingidos. Línguas, peles, pau e bocetas. Duas contra um é fetiche de menino. Lambidas, mordidas, cheiros e frestas. Homem de tara saciada por duas vagabundas sapecas.

Trabalho bem feito. As moças se foram, após guardarem o dinheiro entre os seios. Sozinho, novamente, daria brecha para os anseios. Matou sua fome, porém tinha sede. Na estante não tinha mais rum. Nem sempre os relacionamentos são repletos de senso comum. Brindou à vida com a água filtrada na garrafa de pinga. Relação perfeita é o saciar da pica. Sem ninguém para amar, ou sentir ódio. Sexo, mesmo pago, é o ópio. Não fazer nada é a pior coisa que alguém pode fazer. Por isso, ajoelhou e balbuciou uma prece a Eros. Grato pelas mulheres do mundo, as que dão o verdadeiro prazer.

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fevereiro 27, 2009 at 6:53 pm 7 comentários

Medo do Amor

paixão

Não deixo o amor invadir. Ele aporrinha, desconjunta e traz dor. Repúdio. Um escarro no meio do asfalto. Me puno por arriscar o atravessar de ruas. Não perco tempo de cruzar pontes, correr por atalhos. Salto de pensamento que traz a imagem de tudo o que deveria ser dito. Não arrisco. Sou medroso. Mas, nem a água é domada, pois corre rio abaixo, desce nuvem e inunda. Devasta. Prefiro paixão. É bem melhor e vem com brinde: o ardor. Desde o sexo ao chá de cadeiras. De todas essas horas matreiras, sem tempo para segurar a ânsia de ver quem se quer logo, agora.

Outro dia bateu saudade, confesso. Acho que eram quase três da manhã. Eu quero tanta coisa rapidamente, antes mesmo de um raiar do sol. Café com pão também está bom. O som da madrugada é mais alto, dá até para escutar os meus ecos. São tantos ‘eus’ dentro da minha cabeça, que fica difícil saber qual a próxima máscara que devo usar. É, isso também depende da folia, pois quando eu escorrego o meu olhar para outro tom, posso ouvir novas melodias.

Quando é que o amor começa? Ele termina? Jamais encontrei um prazo de validade. Na verdade este sentimento não acaba, apenas abandona. Só dou conta desta teoria cretina, quando olho os traços do tempo no reflexo da retina. Dias de dedicação a tudo que seria justo, porém sem ser correto. Decerto, alguém vai me obrigar a seguir normas. Aposta?

Parece que o mundo sempre me pede uma prova, só pra saber se estou feliz. Evidentemente que isso é coisa de Deus, afinal, nem ateu duvida do sentimento casto, que deram o nome de amor. E, atrelado a esta traquinagem divina, está a felicidade. Tem gente que acha que é coisa para mais tarde. Por isso que eu prefiro a paixão. Assim como as chuvas de verão, que chegam sem avisar e as suas gotas inundam o coração.

Eu tomo cuidado para não haver enchente. Pois, quando me torno náufrago, a paixão se transforma em amor. Perigo! Sem placa de aviso ou colete de salva vidas. O amor é invisível e espera sempre que eu esteja desatento para dominar. Por isso, me puno por arriscar o atravessar de ruas. Ainda mais alagadas. Tudo por saber que o amor é um bueiro aberto, escondido em água turva, no meio de uma paixão profunda.

fevereiro 5, 2009 at 7:17 pm 10 comentários


O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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