As Íris do Soberano Céu

outubro 10, 2008 at 2:33 pm 10 comentários

iris

A oração ainda serve como cobertor. Uma proteção subvertida em remissão de pecados com rezas gratas e gestos do acaso. Sinal da cruz. Não sei qual é a estrofe do cântico, por isso deixo a prece livre em pensamentos que sobem aos céus mais brandos e ternos. Toda sensação que alivia a consciência faz eco no peito. Porém, nem sempre os olhos lacrimejam e a bonança é verdadeira. Dízimos de canalhice pueril.

A tristeza não vai embora quando a vela acaba de queimar. Tudo não passa de um ritual para atenuar a sensação do mau. O crucifixo é um relicário banhado em ouro, tal tesouro simbólico de religião mesquinha. Mas, enfeita. Da nuca ao peito, o adorno da falsa devoção. Eu sempre tiro do pescoço quando encontro retiro entre as pernas de uma santa meretriz. Meus joelhos não estão com as marcas do arrependimento. Eu sempre contei com a sorte, mas prefiro ver o sol nascer ao norte para ter a certeza que o meu santo é forte.

Dia de Nossa Senhora De Algo ou São Alguma Coisa, só me serve para fortalecer os ritos pobres e para emendar o dia em algum feriado bom. Não sou de crença falsa, nem ateu que profere o nome dos deuses em vão. Não preciso de mantra para saber quem eu quero imaculada. Talvez eu não obtenha uma graça, mas quando meus pés estão na areia da praia, espero a onda do mar me dar sua benção casta.

Peço proteção para qualquer tipo de energia que me ouça. Nem sempre posso ser escutado, mas a cada curva, pedra e desvio que encontro em meu caminho, recebo a clemência de alguma pujança divina. Não sei se mereço, pois os pecados transbordam a cada mandamento quebrado. Assim não adianta encontrar rima a cada Ave Maria. E quando eu sussurro uma pequena penitência olhando nas íris do soberano céu, recebo o indulto por entre as nuvens celestiais.

Eu sei que sou um moribundo aguardando o Altíssimo me puxar a orelha. Também espero que o Espírito Santo compreenda minhas angústias e desesperos, escolhendo todas as desgraças que eu ainda hei de vivenciar com bastante critério e rigor. De repente, este é um dos caminhos para se encontrar a paz, pois já percorro as trilhas de guerra deixadas pela batalha travada entre os meus erros e juízos. Prejuízo seria deixar de rezar o Pai Nosso, porque esta oração ainda me serve como cobertor.

Entry filed under: Ácidos.

Ruídos Longe das Migalhas de Alguns

10 Comentários Add your own

  • 1. Bruno Cazonatti  |  outubro 10, 2008 às 3:01 pm

    Amg@s leitores,

    Eu estou viajando muito, mas sempre derramo minhas letras aqui.
    Peço desculpas e espero que compreendam a demora em postar novas palavras ácidas.
    Nem sempre posso escrever para vocês, responder e-mails, ou até deixar um “oi”. Mas, estou sempre lendo todos os blogs e admirando cada escrita.

    Um grande abraço
    Bruno Cazonatti

    Responder
  • 2. Iara  |  outubro 10, 2008 às 7:15 pm

    Caríssimo Bruno,
    é sempre um prazer ler tuas palavras sempre tão carregadas de doçura, ousadia e sensibilidade.
    A espera é um banco de praça vazio. Não importa a ausência física. A presença é constante quando verdadeira.

    Beijos poéticos!

    Responder
  • 3. Ale Danyluk  |  outubro 10, 2008 às 7:49 pm

    Bruno,

    Sua ausência se torna invisível quando suas palavras se fazem presente.
    Claro que eu sinto falta … mas entendo sua correria pois ela se assemelha a minha vida e á de outros, tenho certeza.
    Quanto ao cobertor, saiba que muitos de seus textos fazem o papel de verdadeiras orações. tenho fé em ti também, já nesse monte de crendiçes e amuletos….dúvidas mil.
    prefiro acreditar em quem tem nome, residência, cara, foto e intenções…
    Beijo e bom fds.
    Ale

    Responder
  • 4. Pataca  |  outubro 11, 2008 às 6:20 am

    Amém!

    Responder
  • 5. Késia Maximiano  |  outubro 13, 2008 às 3:18 am

    Sabe q tb é o meu cobertor?
    Saudades de ti
    bjs

    Responder
  • 6. Fina Flor  |  outubro 13, 2008 às 4:30 am

    religiões, não me meto. orações, adoro.

    beijos, querido e boa semana

    MM.

    Responder
  • 7. João Paulo  |  outubro 14, 2008 às 1:25 am

    Já participei de rituais religiosos, hoje prefiro orações individuais, no meu silêncio, na minha paz. Acho que o mundo acadêmico me abriu os olhos para as falsidades e hipocrisias sem perder o respeito por algumas orações, principlamente àquelas feitas no mais íntimo dos silêncios.

    Voltei, querido bruno! E é sensacional lê-lo.

    abraço,

    Responder
  • 8. Cris  |  outubro 16, 2008 às 7:16 pm

    Gosto desse seu jeito de se auto definir, Bruno. E concordo com a coisa de acreditar no que nos vem de encontro ao que queremos, sem dizer que a fé é a única coisa completamente indiscutível. Beijo grande!

    Responder
  • 9. Ane  |  outubro 21, 2008 às 11:49 am

    Orações e boas energias são sempre bem-vindas!
    Fique com as melhores para ti… E não esqueça de sempre dividir…

    beijos, querido!

    Responder
  • 10. Adriana  |  outubro 22, 2008 às 1:47 pm

    Adorei sue blog!!!

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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