Ruídos

setembro 24, 2008 at 8:42 pm 15 comentários

asfalto

Existem sons que enfeitam o silêncio com timbres desnecessários. Bang! Um tiro. Somos condenados a ouvir a melodia de um cotidiano estúpido. Barulho com trilha sonora de gritos sem sussurros de consciência. Primeiro o raio, depois a trovoada. Instinto. Burburinhos nervosos camuflados com reflexo incandescente da lâmpada sem gênio. Sonhos que não vão se realizar após a freada brusca e o zunido. Motor de carro berrando, motorista descontrolado xingando. Colisão de estilhaços no asfalto enfeitando o cenário selvagem.

Discussão. Todos que assistem terão o que contar amanhã, assim que a mão do fulano puxar a pistola. Ninguém se abala, cicrano cai na vala quando a bala encontra o alvo de costas. Covardia engatilhada com o choro de vela e as lágrimas de raiva, tudo contrastando com o sangue esparramado em violência. Vermelho. Ser defunto não é raro quando a saída para o réu é encontrada no o aval do advogado. ‘Desculpe doutor, mas eu confesso ao senhor que foi em legítima defesa’. No jornal popular a notícia corriqueira aborda mais um caso boçal. Justiça! Um grito. O choro da viúva com a criança no colo é orquestrado por mais uma estatística. Do saco preto ao rabecão. Capela e caixão são meros detalhes de um espetáculo que rende o noticiário-enredo ao preço de cinqüenta centavos.

Pára-choque amassado é desculpa para a morte, pois o destino não traz sorte aos que agem com a palavra. Discussão de trânsito não serve como navalha, pois o trabuco na mão é o colete a prova de vida que não se abala. E a água deixa de ser benta, guia de exu ou reza pura não são escudos contra a ignorância violenta, estúpida. Não adianta sabonete líquido para lavar a carne que, em breve, vai virar pó. O banho refresca o corpo, mas não limpa a alma. O ralo entope com os pêlos e nunca escoa os resquícios de quem carrega o erro. Estampido do revólver soa mais forte quando a cabeça encontra o travesseiro. Imagens do sinal vermelho sem pé no freio. Antes da fuga, o gatilho-consolo para mostrar quem está certo, sem receio.

Pão que não se reparte sempre cai com o lado da manteiga virado para baixo. Dedo na garganta para curar a embriaguês tola de uma noite pálida. A madrugada revela as baratas e os ratos circulando pelo mundo que não se dedetiza apenas com afeto. Morte lenta, câncer sem cura e gol em impedimento. Tudo que não vale uma oração de alento. Remédio para a pressão que não sara a consciência, que pesa em vão.

A mulher perde o ente querido e recorre ao tribunal de rua sem lei. Quem é agora o inimigo? Regra do cão vadio. Paga o capacho do morro, que desce as vielas ao encontro do moço e vinga a dor da viúva sofrida. Forra fria, degustada em prato quente. Resgate da honra como moeda de troca paga com sangue, a justiça da moda. Nada que minimize a dor, mas tudo que justifica um consolo em curto prazo. Já não vivemos em ocasião de entender aquilo que se compreende com o tempo. Mas, nem tudo a linguagem pode falar. São sons que enfeitam o silêncio com timbres desnecessários. Tudo bem urbanizado com pitadas de um novo rito popular. Burburinhos nervosos camuflados com reflexo incandescente da lâmpada sem gênio. Ninguém tem mais direito a fazer três pedidos.

Entry filed under: Ácidos.

Geometrias Psicodélicas e Frases Soltas Sem Timbre As Íris do Soberano Céu

15 Comentários Add your own

  • 1. Pataca  |  setembro 24, 2008 às 11:42 pm

    Olha, som desnecessário mesmo é a bandinha do quartel (sim, eu moro ao lado de um quartel) todo dia ensaiar as 6 da matina. Extremamente desnecessário…
    Abraço!

    Responder
  • 2. Jazz-mim  |  setembro 25, 2008 às 1:19 pm

    hummm, revolta viva essa!
    gostei do seu blog! derreti…
    bjos

    Responder
  • 3. Ale Danyluk  |  setembro 26, 2008 às 4:40 am

    Bruno,
    Cada palavra sua sim é que é uma estilhaçada bala…. Além de chegar em todos os cantos é de uma precisão ímpar.
    É tudo verdade, mesmo que triste na maioria das vezes, mas não podemos esconder mais essa realidade. Porém é fato e deve ser frizado que a ausência dos três pedidos se dá devido á ausência do gênio.
    O mesmo trocou a lâmpada mágica por um certo blog….
    Seria o ÄCIDO POËTICO ????
    Genial mais uma vez.
    Se cuida.
    Beijo
    ALE

    Responder
  • 4. Loba  |  setembro 26, 2008 às 10:40 am

    Perfeito! Texto denso, bem estruturado. Poesia ácida e bonita!
    Li outros. Seu estilo é desses de dar inveja!
    Beijocas

    Responder
  • 5. elisabetecunha2008  |  setembro 26, 2008 às 7:40 pm

    EXCELENTE COMO SEMPRE AMIGO!

    Responder
  • 6. Menina da Imprensa  |  setembro 27, 2008 às 2:49 am

    O moço que não mira, mas atira a palavra certa! Um suspiro…
    Nem faria questão de três pedidos, um exato, completo já me seria suficiente…
    Vim agradecer os dois beijos, aqueles, um em cada bochecha, mas deixo um só, na pontinha do nariz. Se quiser outro, tudo bem, mas vai ter que buscar rsrsrs
    O ácido está cada dia mais poético. A tinta acerta o peito em cheio! Parabéns moço!
    Kisses

    Responder
  • 7. Késia Maximiano  |  setembro 29, 2008 às 2:39 am

    Triste realidade essa nossa hein!!!
    Melodias tristes em meio a uma valsa de palavras…

    Voltei pra o blog… E to voltando aos poucos nos dos meus amigos pra me inteirar das novidades… Posso saber como anda a vida?
    Bjão

    Responder
  • 8. Tay  |  outubro 2, 2008 às 10:35 pm

    Tua escrita é diferente. É boa de ler e não esconde a realidade das coisas. Sem camuflagens, sem adoçamentos. Ácido poético. Uma boa dose de realidade não faz mal a ninguém, na verdade, é mais do que necessária. Sem direito a pedidos… castigo ou necessidade? Até mais.

    Responder
  • 9. Flávia Fuini  |  outubro 3, 2008 às 3:20 pm

    Reativei meu blog!
    Aaadorei este texto…vc escreve como ninguém!
    beijo!

    Responder
  • 10. Ane  |  outubro 5, 2008 às 1:14 pm

    Poxa…
    Extremamente foda…. Terrivelmente belo…

    beijos! =)

    Responder
  • 11. luana  |  outubro 5, 2008 às 11:23 pm

    relax 🙂 passe pela lua qd puder 😉

    sim, texto rapido..agil..tem q correr pra acompanhar o ritmo..(? )
    realidade cruel, sons desconexos..ácido, como a vida pode ser.. e, normalmente, é!
    :/

    boa semana! ;*

    Responder
  • 12. Átila Siqueira.  |  outubro 6, 2008 às 6:13 am

    Oi, gostei muito do seu blog, depois quero voltar com mais calma para te visitar. Me visite também no meu blog: atilasiqueira.blogspot.com

    Um grande abraço,
    Átila Siqueira.

    Responder
  • 13. elisabetecunha2008  |  outubro 9, 2008 às 1:10 pm

    Meu lindo. não some!

    Responder
  • 14. Luis Augusto  |  outubro 17, 2008 às 2:22 am

    Cara, muito massa isso. Se consegue viajar legal nessa historia, ouvindo os sons e sentindo os cheiros. Quero escrever assim quando crescer.

    Responder
  • 15. Flavia  |  janeiro 26, 2011 às 1:37 am

    Parabéns! Muito bom o texto.

    Achei seu blog após postar as palavras “saco preto” e “rabecão” no google. Aqui achei as duas numa frase só. Não, não sou mórbida mas é que estou realizando uma pesquisa para a minha dissertação de mestrado em Antropologia sobre os procedimentos de identificação de cadáveres no IML-RJ.

    Gostaria de saber se me autoriza usar partes do seu texto, com a devida referência, em meu trabalho.

    Conquistou uma leitora. Até.

    Flavia.

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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