Geometrias Psicodélicas e Frases Soltas Sem Timbre

setembro 12, 2008 at 8:39 pm 26 comentários

dunas

Nas dunas por onde deixei pegadas, alguns grãos de areias grudaram em mim, muito além da pele. Nem sempre dá para ver o pôr do sol, mas as constelações estão muito mais perto dos olhos. Dá para vê-las melhor quando anoitece. A ventania no topo não incomoda tanto. O problema é outro. O sopro por saber que não consigo enxergar estrelas quando o dia está claro.

As cores mudam com a rotação da Terra, e o mar, esfomeado que só, deve ter engolido o astro-rei. As ondas que trazem a espuma branca até a margem é o sinal da saliva. A maresia alivia tensões desnecessárias do dia corrido. E a lua, responsável pelo agito da maré, faz tudo por ciúme ou solidão. São tantos tons entre auroras e noites, que a mistura das cores deslumbra a retina e traz lembranças de tudo que é fútil e necessário. Sonhos de homem com a pureza do Pequeno Príncipe. Mas, eu não gostaria de ter um planeta-asteróide só para mim. Basta o meu coração melancólico. A solidão do universo me transformaria em extraterrestre insólito.

Talvez a minha larica seja apenas um período da estação seca. Sempre perco as folhas no curso das estradas por onde ando. Ganho novas sementes em forma de gestos que já havia esquecido. E tudo vai indo lindo, entre uma brisa e um mergulho no fundo do oceano das minhas mais pueris aspirações. Só paro para fotografar, com minhas pupilas, o horizonte que vai além da geografia ensinada nos livros da escola. O que mais alimenta minha caraminhola é a frieza em não saber mais aonde eu possuo raízes. A que lugar eu pertenço? São tantos caminhos que me levam para longe de casa e tantas estradas que me levam para longe do lar. Minha coragem de arriscar novas trilhas se renova. Se eu parar no acostamento é só para mijar. A escuridão da estrada pode desviar minha atenção para ver os faróis dos carros ligeiros. Não. Eu prefiro me perder pela constelação zodiacal.

Eu só queria uma das Três Marias para me fazer companhia. Vejo tanta coisa nova. Areias que brilham por conta de alguns tapas e um sopro de novos ares. Meteoros de sabedoria limitada, porém singela para ensinar que existem versões distintas de uma mesma verdade. Idéias e trajetos pelo céu de um infinito exato, onde não sei mais onde é o final de toda fuga. Geometrias psicodélicas e frases soltas sem timbre. Um ser minúsculo no meio de um universo cansado de tantos asteróides perdidos. Mundo grande de gente pequena que vive em apartamento confortável sem vista para a eternidade. Sorte a minha, que faço do firmamento o meu teto, pois o mundo é o meu barraco e esta duna minha laje batida. Deixo o sopro da vida ser o meu cobertor.

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Aprendi a Não Jogar Nada na Lixeira Ruídos

26 Comentários Add your own

  • 1. Ale Danyluk  |  setembro 12, 2008 às 11:41 pm

    Seus textos são arrepiantes ! muito bons. parabéns.
    Pena que só te descobri agora e por acaso….Mas nunca é tarde….Ainda bem.
    Te linkei …ok ???
    Voltarei sempre
    Ale

    Responder
  • 2. Ana Carolina  |  setembro 15, 2008 às 8:08 pm

    Nossa, profundo esse texto… Eu que não sou lacônica, dessa vez foi assim que eu fiquei… rsrs
    Realmente, sem palavras…
    *
    Beijos!

    Responder
  • 3. Fina Flor  |  setembro 16, 2008 às 6:51 am

    Oi, Bruno, tudo bem?

    há tempos não passo por aqui, nem visito os amigos como gosto, mas não posso me queixar!

    estou num momento de muito trabalho e trabalhar é sempre um alívio para a alma.

    passo, hoje, para dizer que tem uma novidade no canteiro e que gostaria de compartilhar com os velhos amigos do Fina Flor!!!

    se puder, passe por lá.

    beijos e boa semana,

    MM.

    Responder
  • 4. Angelica  |  setembro 18, 2008 às 6:51 pm

    Hummmm, profundo!!! Me fez pensar… Amei a parte do apartamento confortável sem vista para a eternidade! Brilhante! Beijos

    Responder
  • 5. Tamara  |  setembro 18, 2008 às 7:55 pm

    Hummmm….
    È sempre muito gostoso vir saborear teus escritos….
    Eu tb nao queria ter um planeta so pra mim…como o pequeno principe…
    Mas adoraria sentir que a lua pudesse beijar meu umbigo e meus pés pudessem exatamente agora…pisar numa areia.

    Bjos e obrigada pela visita!

    Responder
  • 6. Sonia Regly  |  setembro 18, 2008 às 10:31 pm

    Bruno,
    Gosto dos seus textos, da sinceridade de como escreve. Obrigadaaaaaaaa pela linda visitinha, volte sempre, ok??? Beijinhos.
    **TÊM SELINHO DE PRESENTE pra vc!!!!!

    Responder
  • 7. Sonia Regly  |  setembro 19, 2008 às 1:59 am

    Têm um lindo selinho de presente para vc!!!!

    Responder
  • 8. Ale Danyluk  |  setembro 19, 2008 às 4:21 am

    BRUUUUUUUUUUUUUUNO,

    Nos seus olhos moram sonhos,
    São eles todos coloridos,
    Imaginam uma vida
    Vivem d’uma saudade,
    recriam um amanhã sem precisar existir,
    O preto e branco dos seus passos desenham a rua,
    Vai desaparecendo os semblantes,
    Fica a luz…
    Vai a sombra
    O caminho já não tem importância
    O acaso é que foi seguido
    E seguindo vamos todos…
    Essa vida é mesmo nossa…

    Desculpa pelas bagunças todas…..
    A ausência e o abandono não se resumem á esse espaço…
    Porque daqui é difícil a gente conseguir sair
    Lindas palavras.
    Amei moço !
    beijos e sonhos
    Ale

    Responder
  • 9. aguas da vida  |  setembro 19, 2008 às 9:39 am

    Obrigada pelo carinho e visita .
    Um excelente final de semana.
    Big Kiss

    Responder
  • 10. Luciana  |  setembro 19, 2008 às 12:35 pm

    Querido,
    Apesar de não perceber as estrelas em dias claros elas nunca deixam de estar lá. Isso é o mais fascinante.
    Quanto à correria do dia-a-dia e um dia com 30 horas é meu sonho de consumo…rs

    Um abraço

    Responder
  • 11. Iara  |  setembro 19, 2008 às 1:01 pm

    Querido Bruno,
    suas palavras são sempre orquestradas com o lirismo mais refinado.
    Que bom estarmos em contato novamente!

    Um beijo afetuoso.

    Iara

    Responder
  • 12. Alê Quites  |  setembro 19, 2008 às 2:08 pm

    Bruno, meu caro!
    Não tem como sentir raiva de você, mas saudades, sempre.
    Cara, você é muitooooo bom com as palavras. Salve!
    Volto logo!
    Deixo beijos e luz

    Responder
  • 13. Pataca  |  setembro 19, 2008 às 6:33 pm

    Feito!
    Abraço!

    Responder
  • 14. elisabetecunha2008  |  setembro 20, 2008 às 1:12 pm

    Bruno

    Sumiu???

    Olha, só o título do seu texto já é pura poesia!

    Maravilhoso!

    VOCÊ AJUSTOU MEU LINK NOVO?

    elisabetecunha2008.wordpress.com

    Responder
  • 15. João Paulo  |  setembro 20, 2008 às 2:21 pm

    Brunão,

    Marcas são assim… às vezes, boas, às vezes ruins…

    As marcas para ti devem ser as boas, pois marca em outros caminhos a beleza e a bondade de uma pessoa que respeita o próximo.

    valeu!

    Responder
  • 16. Rayanne  |  setembro 23, 2008 às 5:50 pm

    “Nesta cidade do Rio
    De dois milhões de habitantes
    Estou sozinho no quarto
    Estou sozinho na América.

    Estarei mesmo sozinho?
    Ainda há pouco um ruído
    Anunciou vida a meu lado.
    Certo não é vida humana,
    Mas é vida. E sinto a Bruxa
    Presa na zona de luz.

    De dois milhões de habitantes!
    E nem precisava tanto…
    Precisava de um amigo,
    Desses calados, distantes,
    Que lêem verso de Horácio
    Mas secretamente influem
    Na vida, no amor, na carne.
    Estou só, não tenho amigo,
    E a essa hora tardia
    Como procurar amigo?

    E nem precisava tanto.
    Precisava de mulher
    Que entrasse nesse minuto,
    Recebesse esse carinho
    Salvasse do aniquilamento
    Um minuto e um carinho loucos
    Que tenho para oferecer. ”
    (Trecho de ‘A Bruxa’ de Carlos Drummond de Andrade)

    Inquietações….

    A gêmea,
    A a matiz, cor oposta,
    o fuso.
    Ser humano in quieto
    que não quer ser ím par.

    E eu te digo, Bruno, que há tantos universos perturbados dentro dos apartamentos confortáveis, tantas almas ímpares e desconfortáveis, e essa solidão bruxa, inabalável, saboreando nossos traços….

    Não perder a clareza do horizonte, talvez, e manter abertos os poros, ajudem a caminhar com rumo, sem desistir, sem esquecer de apreciar a jornada, que talvez seja a melhor parte da busca… e acreditar, porque é preciso que exista.

    É PRECISO, PRECISO, É FUNDAMENTAL….

    **Estrelas que andam tão confusas**

    Responder
  • 17. Marcelo  |  setembro 24, 2008 às 12:38 am

    Eu prefiro não ter raízes e nem pertecer á lugar nenhum.
    Mas preciso sempre pertencer á alguém…É isso que me mantém em pé e certo de que nenhum dos meus sonhos foram em vão.

    Abraços

    Responder
  • 18. Késia Maximiano  |  setembro 24, 2008 às 3:47 pm

    Depois do enorme mar de sumiço, a maré me trouxe de volta…
    E vc? Continua feito de resto de estrelas? Consigo enxergar teu brilho de longe.. Acho q tem o brilho da lua..

    Super beijo

    Responder
  • 19. henrique  |  setembro 24, 2008 às 7:32 pm

    nosssssssssssssssssssssaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa q povo loco
    q q vcs tomam
    cha de cogumelo

    Responder
  • 20. Lara  |  setembro 28, 2008 às 11:26 pm

    áh,muito massa. —
    “Feliz é o destino da inocente vestal! Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida. Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças! Toda prece é ouvida, toda graça se alcança.”

    Responder
  • 21. Lara judith  |  setembro 28, 2008 às 11:27 pm

    (: áh,muito massa. — àh pode crê

    “Feliz é o destino da inocente vestal! Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida. Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças! Toda prece é ouvida, toda graça se alcança.”

    Responder
  • 22. livia  |  maio 16, 2009 às 1:45 am

    nosssa amiigoo..mtoo boom memso.! adoorei seu texto.!

    Responder
  • 23. wordpress  |  junho 17, 2009 às 7:45 pm

    Muito boom *-*

    Responder
  • 24. Cristie  |  outubro 7, 2014 às 9:12 pm

    Cristie

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    Responder
  • 25. Micheline  |  julho 11, 2015 às 2:59 am

    Micheline

    Geometrias Psicodélicas e Frases Soltas Sem Timbre | « ▲ Á¢idø Pøéticø ▲ »

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  • 26. Flavia  |  novembro 2, 2015 às 2:53 am

    Flavia

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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