Archive for setembro, 2008

Ruídos

asfalto

Existem sons que enfeitam o silêncio com timbres desnecessários. Bang! Um tiro. Somos condenados a ouvir a melodia de um cotidiano estúpido. Barulho com trilha sonora de gritos sem sussurros de consciência. Primeiro o raio, depois a trovoada. Instinto. Burburinhos nervosos camuflados com reflexo incandescente da lâmpada sem gênio. Sonhos que não vão se realizar após a freada brusca e o zunido. Motor de carro berrando, motorista descontrolado xingando. Colisão de estilhaços no asfalto enfeitando o cenário selvagem.

Discussão. Todos que assistem terão o que contar amanhã, assim que a mão do fulano puxar a pistola. Ninguém se abala, cicrano cai na vala quando a bala encontra o alvo de costas. Covardia engatilhada com o choro de vela e as lágrimas de raiva, tudo contrastando com o sangue esparramado em violência. Vermelho. Ser defunto não é raro quando a saída para o réu é encontrada no o aval do advogado. ‘Desculpe doutor, mas eu confesso ao senhor que foi em legítima defesa’. No jornal popular a notícia corriqueira aborda mais um caso boçal. Justiça! Um grito. O choro da viúva com a criança no colo é orquestrado por mais uma estatística. Do saco preto ao rabecão. Capela e caixão são meros detalhes de um espetáculo que rende o noticiário-enredo ao preço de cinqüenta centavos.

Pára-choque amassado é desculpa para a morte, pois o destino não traz sorte aos que agem com a palavra. Discussão de trânsito não serve como navalha, pois o trabuco na mão é o colete a prova de vida que não se abala. E a água deixa de ser benta, guia de exu ou reza pura não são escudos contra a ignorância violenta, estúpida. Não adianta sabonete líquido para lavar a carne que, em breve, vai virar pó. O banho refresca o corpo, mas não limpa a alma. O ralo entope com os pêlos e nunca escoa os resquícios de quem carrega o erro. Estampido do revólver soa mais forte quando a cabeça encontra o travesseiro. Imagens do sinal vermelho sem pé no freio. Antes da fuga, o gatilho-consolo para mostrar quem está certo, sem receio.

Pão que não se reparte sempre cai com o lado da manteiga virado para baixo. Dedo na garganta para curar a embriaguês tola de uma noite pálida. A madrugada revela as baratas e os ratos circulando pelo mundo que não se dedetiza apenas com afeto. Morte lenta, câncer sem cura e gol em impedimento. Tudo que não vale uma oração de alento. Remédio para a pressão que não sara a consciência, que pesa em vão.

A mulher perde o ente querido e recorre ao tribunal de rua sem lei. Quem é agora o inimigo? Regra do cão vadio. Paga o capacho do morro, que desce as vielas ao encontro do moço e vinga a dor da viúva sofrida. Forra fria, degustada em prato quente. Resgate da honra como moeda de troca paga com sangue, a justiça da moda. Nada que minimize a dor, mas tudo que justifica um consolo em curto prazo. Já não vivemos em ocasião de entender aquilo que se compreende com o tempo. Mas, nem tudo a linguagem pode falar. São sons que enfeitam o silêncio com timbres desnecessários. Tudo bem urbanizado com pitadas de um novo rito popular. Burburinhos nervosos camuflados com reflexo incandescente da lâmpada sem gênio. Ninguém tem mais direito a fazer três pedidos.

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setembro 24, 2008 at 8:42 pm 15 comentários

Geometrias Psicodélicas e Frases Soltas Sem Timbre

dunas

Nas dunas por onde deixei pegadas, alguns grãos de areias grudaram em mim, muito além da pele. Nem sempre dá para ver o pôr do sol, mas as constelações estão muito mais perto dos olhos. Dá para vê-las melhor quando anoitece. A ventania no topo não incomoda tanto. O problema é outro. O sopro por saber que não consigo enxergar estrelas quando o dia está claro.

As cores mudam com a rotação da Terra, e o mar, esfomeado que só, deve ter engolido o astro-rei. As ondas que trazem a espuma branca até a margem é o sinal da saliva. A maresia alivia tensões desnecessárias do dia corrido. E a lua, responsável pelo agito da maré, faz tudo por ciúme ou solidão. São tantos tons entre auroras e noites, que a mistura das cores deslumbra a retina e traz lembranças de tudo que é fútil e necessário. Sonhos de homem com a pureza do Pequeno Príncipe. Mas, eu não gostaria de ter um planeta-asteróide só para mim. Basta o meu coração melancólico. A solidão do universo me transformaria em extraterrestre insólito.

Talvez a minha larica seja apenas um período da estação seca. Sempre perco as folhas no curso das estradas por onde ando. Ganho novas sementes em forma de gestos que já havia esquecido. E tudo vai indo lindo, entre uma brisa e um mergulho no fundo do oceano das minhas mais pueris aspirações. Só paro para fotografar, com minhas pupilas, o horizonte que vai além da geografia ensinada nos livros da escola. O que mais alimenta minha caraminhola é a frieza em não saber mais aonde eu possuo raízes. A que lugar eu pertenço? São tantos caminhos que me levam para longe de casa e tantas estradas que me levam para longe do lar. Minha coragem de arriscar novas trilhas se renova. Se eu parar no acostamento é só para mijar. A escuridão da estrada pode desviar minha atenção para ver os faróis dos carros ligeiros. Não. Eu prefiro me perder pela constelação zodiacal.

Eu só queria uma das Três Marias para me fazer companhia. Vejo tanta coisa nova. Areias que brilham por conta de alguns tapas e um sopro de novos ares. Meteoros de sabedoria limitada, porém singela para ensinar que existem versões distintas de uma mesma verdade. Idéias e trajetos pelo céu de um infinito exato, onde não sei mais onde é o final de toda fuga. Geometrias psicodélicas e frases soltas sem timbre. Um ser minúsculo no meio de um universo cansado de tantos asteróides perdidos. Mundo grande de gente pequena que vive em apartamento confortável sem vista para a eternidade. Sorte a minha, que faço do firmamento o meu teto, pois o mundo é o meu barraco e esta duna minha laje batida. Deixo o sopro da vida ser o meu cobertor.

setembro 12, 2008 at 8:39 pm 26 comentários


O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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Às vezes balbucio algo no Twitter:

  • Aos trancos e barrancos, isso aqui é @Flamengo! 2 weeks ago
  • O @Flamengo não jogou NADA o ano inteiro. Não tem poder de decisão algum. Mas vamos lá nos iludir com o "ano mágico 2018". 2 weeks ago
  • Vamos torcer pros caras honrarem o polpudo salário em dia e classificar nessa competição pra, ao menos, termos um prêmio de consolação 2 weeks ago
  • Parece que as pessoas se contentam com a porra de um Carioca e acha que o resto vem na sorte, vem no "deixa a vida me levar"... 2 weeks ago
  • Quase não tenho usado o Twitter, porque me torno repetitivo e parece que os meses, os anos, não passam. Tudo a mesma coisa. 2 weeks ago