Aprendi a Não Jogar Nada na Lixeira

agosto 27, 2008 at 6:23 pm 11 comentários

pratel

Eu não guardo meus sentimentos em caixas de papelão. Elas são frágeis. Às vezes os deixo escondidos na estante, entre os vinis empoeirados e as memórias congeladas em álbuns de fotografias. Vontades misturadas com saudades ocultas, para que ninguém mais possa encontrar. Somente eu quem devo procurar as emoções em cômodos incômodos. Não posso confiar nem na minha sombra, pois até ela me abandona quando as luzes se apagam.

Tem um problema. Ás vezes me esqueço dos sonhos. Engraçado, muitos são substituídos por novos anseios sem sequer terem sido concretizados. Assim fica difícil, pois tenho que arrumar outro lugar para guardar todas as aspirações joviais. Não que elas se realizem, pois hoje tudo é tão mercadológico. Tanta coisa impulsionada por cobiça passageira, propaganda fútil e ofertas imperdíveis. Tudo substituível. Mas, o sonho não pode ser mais um produto produzido pelo cotidiano. Isso me dá pavor! Por isso eu jogo todos os meus medos dentro da privada. Alguns insistem em não descer com a descarga. É um saco reencontrá-los boiando sempre quando vou vomitar novos temores. Mas o mundo me ensinou a não jogar nada na lixeira.

Nem tudo pode parar no lixo. Acho que toda coisa descartável pode se transformar em arte. A dor, por exemplo, pode vir a ser uma bela poesia ou música. Seria uma boa maneira de expor algo que nos causa repúdio. E o que julgamos não nos prestar mais, é o que muitas vezes pode se tornar útil às novas vontades. Nossas pretensões não possuem prazo de validade e nós consumimos produtos, objetos, idéias e sentimentos em liquidação de qualquer promoção relâmpago ou queima de estoque.

É tanto entulho que nem damos conta de onde isso vai parar. Por isso, guardo meus sentimentos bem escondidinhos na estante. Vai que alguém os encontra e decide vender pela internet? Não há preço de custo para a cotação de tudo o que passamos na vida. Penso em como reutilizar e reaproveitar cada suspiro, riso e lágrima. Revitalizar! Não posso tratar tanta comiseração como um produto de bazar. Por isso aprendi a não jogar nada na lixeira. Mesmo que eu ainda esteja aprendendo a reciclar, um dia vou precisar me reencontrar no meio da sucata e da poeira, pelas lacunas de sentimentos espalhados por todas as prateleiras. Pois a vida não acontece onde a deixo, e sim onde eu esqueço de mim.

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Elas Geometrias Psicodélicas e Frases Soltas Sem Timbre

11 Comentários Add your own

  • 1. Angelica  |  agosto 27, 2008 às 6:42 pm

    Adorei!!! Concordo com vc! O que somos hoje é uma coletânea de tudo o que passamos! Estou adorando seus textos! Vou virar leitora assídua! Beijos

    Responder
  • 2. Lua  |  agosto 27, 2008 às 11:28 pm

    Se você descobriu como reciclar o amor me conte, antes que eu dê ele pro primeiro catador de latinhas que aparecer…

    Responder
  • 3. B.  |  agosto 28, 2008 às 5:44 am

    Eu só vou adorando cada vez mais teu jeito de escrever…

    Responder
  • 4. luana  |  agosto 28, 2008 às 10:33 pm

    fechou com chave de ouro viu?
    como sempre, muito bom, não só o texto, mas principalmente a reflexão..
    e eu vou pensando por aqui.. beijos! ;**
    namastê!

    Responder
  • 5. Rogério Felício  |  agosto 28, 2008 às 11:45 pm

    Texto perfeito…….. ‘Pois a vida não acontece onde a deixo, e sim onde eu esqueço de mim.’ Amei. 🙂

    Responder
  • 6. Ana Carolina  |  agosto 29, 2008 às 5:57 pm

    É… Seu texto me deixou pensativa… Quanta coisa que não merecia ter ido para o lixo e foi… E algumas que estão quase lá… Gostei da idéia de não jogar nada na lixeira… Algumas coisas realmente merecem ser recicladas… Boa!
    Adorei o texto!
    Beijão

    Responder
  • 7. Ane Bason  |  agosto 30, 2008 às 8:36 pm

    Lindo!
    Vou indicar no meu Blogroll.
    Bj!

    Responder
  • 8. Sônia  |  setembro 5, 2008 às 2:48 pm

    Aê muleque! Sabe tudo esse menino…rs

    Abraços!

    Responder
  • 9. Maurizio  |  setembro 6, 2008 às 4:21 pm

    muito bom teu blog. Parabens. Gostei daqui,
    Maurizio

    Responder
  • 10. Ane  |  setembro 7, 2008 às 3:38 pm

    É…quem tiver coragem de revirar os lixos por ai, vai se deparar com cada coisa…Daria um belo bricolè!

    beijos!

    Responder
  • 11. João Paulo  |  setembro 20, 2008 às 2:15 pm

    Poxa, cara!

    Gostei muito das marcas deixadas em meu blog, tenho a maior satisfação de retribuir, não sei se alcançarei o pódium.

    Estive fora do blogosfera por esses dias, precisei adiantar o restante dos trabalhos na academia, voltando a esse espaço encantador percebo que há pessoas amáveis neste mundo, você é um exemplo disso, sei que um dia farei uma visita ao Rio e essa qualidade será presenciada.

    Prometo manter atualizada a minha visita aqui.

    abração,

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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