Cobertor para me Proteger do Medo da Escuridão

julho 30, 2008 at 3:13 pm 12 comentários

Balanço

Eu posso sacrificar minha vida por faltar com respeito aos meus instintos e desejos. Sou culpado por ter atravessado a praça ensolarada e não ter parado para sentar no banquinho. Não sobrou tempo para admirar o baile da água no chafariz. Correria da vida que modificou meu rosto de criança, assim que deixei de tirar retratos em lambe-lambes. Saudades de algodão doce e horas de recreio.

Desde que cresci, minhas cicatrizes não mais se fecham e as angústias não se curam. Só não sofro quando as feridas se esquecem de doer. Ainda tenho a marca no joelho da época em que cai da bicicleta sem rodinhas. Eu até sorri, antes de abrir o berreiro. Mas hoje eu sinto um pavor absurdo de descer em um escorrega. Burro velho, com medo de parecer um pateta por ainda querer curtir as peculiaridades da infância. Talvez seja uma covardia babaca.

Meus desejos se nutrem de fantasias. Eu quero passar a tarde jogando videogame, devorando coca-cola e cachorro- quente. Depois eu escovo os dentes para dormir. Ainda ponho o pijama e dobro minhas memórias junto com a camisa amarrotada e jogo tudo no fundo do armário. Coloco apenas algumas lembranças no cabide. Na gaveta das cuecas e meias eu escondo todos os alvitres de moleque travesso. Lá, tudo fica cheiroso junto ao sabonete que exala perfume de erva doce e saudade. Só me falta a cantiga de ninar.

Minha sombra é a única companheira fiel, desde os tempos em que meus pais me levavam para brincar no parquinho. Hoje, eles não podem mais me empurrar bem alto no balanço, fazendo com que os meus pés quase toquem o céu. Preciso me imunizar contra a nostalgia. Mamãe sempre disse para eu não ter medo de agulha. Papai ria, mandando que eu fosse homem. Agora restou a marca da vacina no braço e alguns sorrisos e lágrimas em fotografias guardadas. Tudo registrado entre caras e poses que eu não tranco em porta-retratos.

Até hoje eu não contenho o choro pela dor da injeção. E olha que já estou bem grandinho. Está certo que o receio faz parte da vida, mas meu maior temor é deixar de ter aspirações e esquecer-me de resgatar os sorrisos em meio à melancolia. Quero voltar a ser criança e usar o cobertor para me proteger do medo da escuridão. Dormir e acordar preocupado apenas com a lição de casa e não pra fugir dos problemas de adulto. Hoje, pesadelos e lições de vida. Saudade dos doces e traquinagens. Eu só fui feliz na infância.

Entry filed under: Ácidos.

Barulho das Descobertas Tardias A Cultura Popular Através das Letras de Wesley Aguiar

12 Comentários Add your own

  • 1. felipe lima  |  julho 30, 2008 às 4:41 pm

    Quando e se você descobrir um remédio que amenize os efeitos da nostalgia, por favor, divulgue. Belo texto. E memórias.

    Responder
  • 2. Alê Quites  |  julho 31, 2008 às 1:42 pm

    Bruno, meu caro!
    São por estas saudades, pelos bons momentos que passamos na infância, que eu passei a acreditar que quando velhos, voltamos a infância, não por estarmos perdendo a memória, mas por termos a certeza do que é a verdadeira felicidade. A infância é tempo de plenitude.
    Salve!

    Lindo texto, como sempre! Beijos

    Responder
  • 3. Diana  |  julho 31, 2008 às 7:17 pm

    Renato Russo disse a mesma coisa : “Eu só fui feliz na infância”

    Responder
  • 4. Tânia  |  agosto 3, 2008 às 4:00 am

    Ah querido, a felicidade da infância é o que nos aquece, mas não tenho esta nostalgia ( e olha que fui feliz) mas a cada ano que envelheço (argh) percebo que viver mesmo é a cada dia…Seja momentos felizes ou alguns nem tanto.

    Seu texto está apaixonante como sempre, deu ate vontade de segurar sua mão na próxima injeção, depois soprar e dar beijinho…(com todo respeito viu)

    Beijos Menino Talentoso

    Responder
  • 5. Ane  |  agosto 3, 2008 às 11:50 am

    A infância sempre é mais legal!!!
    =)
    Mas ser adulto tbm tem seu charme…Sé é preciso saber escolher…Ai mora o problema…

    beijos

    Responder
  • 6. ariane  |  agosto 6, 2008 às 1:49 am

    hoje ouvi alguem dizer: “nunca é tarde pra fazer aquilo que deveria ter sido feito”
    …e eu tenho feito tantas coisas que pensava já não poder mais…
    pior do que parecer ridiculo ao fazer algo que o coração gostaria de fazer, é a cara triste do adulto que esquece que ainda mora uma criança dentro de si…
    amigo poeta, acho que sua criança tá doida pra fazer umas peraltices, libera ela um pouquinho, isso é tão bom…

    beijos saudosos

    Responder
  • 7. B.  |  agosto 6, 2008 às 7:33 am

    Bom te ver falar de novos temas… bom constatar que és bom em tudo.

    Beijo meu.

    Responder
  • 8. alexandre  |  agosto 6, 2008 às 2:30 pm

    É meu caro! A vida se encarrega de nos lembrar sempre que: dias piores virão!

    Responder
  • 9. Anônimo  |  agosto 7, 2008 às 12:25 am

    por que será q essa impressao de que “soh foi feliz na infancia” fica tão forte em alguns momentos? pq eh verdade? iudhiduhdiudh non sei mesmo!
    essas lembranças vieram com a perspectiova de uma nova injeção? uhuh x)

    eh muito bom ser criança, independente da nossa idade.. e essa sensação de babaquice e leseira passa..abra aquele sorrisão e se permita! qlqr coisa, vc fecha os olhos e td passa! ;**

    namastê!

    Responder
  • 10. luana  |  agosto 7, 2008 às 12:25 am

    ahh, fui eeuuu acima 😀 ;*

    Responder
  • 11. Helena  |  agosto 9, 2008 às 10:05 pm

    Muito grande esse mundo dos adultos…talvez,justamente,pra nossa criança não ter de ceder lugar ao nosso “eu mais velho”!Para que ambos coexistam!Será???rsrs

    bjo

    Responder
  • 12. Deise  |  setembro 18, 2009 às 5:00 pm

    Com 1 ano de atraso, vou comentar…. lindo!

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
----------------------------

Os textos deste blog estão protegidos pela lei nº. 9.610 de 19-02-1998.
Não copie sem permissão.
[Ácido Poético® - Todos os direitos reservados]

http://www.twitter.com/cazonatti

ø Textos Protegidos por Direito Autoral ø

Creative Commons License
Ácido Poético by Bruno Cazonatti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.
Based on a work at Ácido Poético ®.
Permissions beyond the scope of this license may be available by: cazonatti@gmail.com

Às vezes balbucio algo no Twitter:


%d blogueiros gostam disto: