Archive for julho, 2008

Cobertor para me Proteger do Medo da Escuridão

Balanço

Eu posso sacrificar minha vida por faltar com respeito aos meus instintos e desejos. Sou culpado por ter atravessado a praça ensolarada e não ter parado para sentar no banquinho. Não sobrou tempo para admirar o baile da água no chafariz. Correria da vida que modificou meu rosto de criança, assim que deixei de tirar retratos em lambe-lambes. Saudades de algodão doce e horas de recreio.

Desde que cresci, minhas cicatrizes não mais se fecham e as angústias não se curam. Só não sofro quando as feridas se esquecem de doer. Ainda tenho a marca no joelho da época em que cai da bicicleta sem rodinhas. Eu até sorri, antes de abrir o berreiro. Mas hoje eu sinto um pavor absurdo de descer em um escorrega. Burro velho, com medo de parecer um pateta por ainda querer curtir as peculiaridades da infância. Talvez seja uma covardia babaca.

Meus desejos se nutrem de fantasias. Eu quero passar a tarde jogando videogame, devorando coca-cola e cachorro- quente. Depois eu escovo os dentes para dormir. Ainda ponho o pijama e dobro minhas memórias junto com a camisa amarrotada e jogo tudo no fundo do armário. Coloco apenas algumas lembranças no cabide. Na gaveta das cuecas e meias eu escondo todos os alvitres de moleque travesso. Lá, tudo fica cheiroso junto ao sabonete que exala perfume de erva doce e saudade. Só me falta a cantiga de ninar.

Minha sombra é a única companheira fiel, desde os tempos em que meus pais me levavam para brincar no parquinho. Hoje, eles não podem mais me empurrar bem alto no balanço, fazendo com que os meus pés quase toquem o céu. Preciso me imunizar contra a nostalgia. Mamãe sempre disse para eu não ter medo de agulha. Papai ria, mandando que eu fosse homem. Agora restou a marca da vacina no braço e alguns sorrisos e lágrimas em fotografias guardadas. Tudo registrado entre caras e poses que eu não tranco em porta-retratos.

Até hoje eu não contenho o choro pela dor da injeção. E olha que já estou bem grandinho. Está certo que o receio faz parte da vida, mas meu maior temor é deixar de ter aspirações e esquecer-me de resgatar os sorrisos em meio à melancolia. Quero voltar a ser criança e usar o cobertor para me proteger do medo da escuridão. Dormir e acordar preocupado apenas com a lição de casa e não pra fugir dos problemas de adulto. Hoje, pesadelos e lições de vida. Saudade dos doces e traquinagens. Eu só fui feliz na infância.

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julho 30, 2008 at 3:13 pm 12 comentários


O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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