Hablar o Callar

junho 3, 2008 at 7:16 pm 11 comentários

Hablar

Eu não falo bem a sua língua, mas adoro o gosto que tem. Você entende um pouco do meu patoá e comunica, além do subjetivo, toda a razão maior do querer. As horas que passo ao seu lado são resumos dos minutos em que eu compreendo o seu discorrer ligeiro. Enquanto você atropela vírgula e pontuações entre o sujeito e o predicado, eu corro meus adjetivos lábios pelos seus poros, conjugando todos os verbos certeiros. Melhor que dialogar com pessoa que não tem vontade de ouvir o que absolutamente jamais conseguirá entender. Assim mesmo, sem adjetivo ou provérbio.

Eu observo seus movimentos, tal cão vadio do outro lado da calçada. Você me decifra a vontade nos olhos. Sem dicionário para esquentar o frio com pernas e braços. A quentura ferve os pensamentos que vem da nossa peregrinação de corpos com febre. Eu lhe peço um gole no copo que carrega o seu vinho e as desculpas pela minha ânsia. Prefiro não pronunciar nada. Eu não preciso balbuciar sua fala, pois nosso alto tom é vôo sem asa, onde falta rima ou palavra gasta.

Entrelaçadas mãos entre os dedos adultérios e o lençol frágil do calor edredom descoberto. Só vale abandonar minha boca na sua quentura. Sem roupa, nosso gozo e burburinhos são oxítonas entoadas em norma culta. Risadas por não saber se a gargalhada é deboche ou prazer. Converso com você para aprender a calar. Tesão sem bolsos, ou cachecol embaraçado. O mundo é o quarto bem maior do que a nossa vontade de arrumar as malas e partir.

Eu não sei controlar temperaturas ou dosar afeto. Só venero sua fenda e nossa nuance de odores e cores. Você faz mímica e pede o que quer, apontando o trajeto quando me falta o entendimento em seu dialeto. Eu sinalizo a vontade e o quero nas últimas forças que ainda me restam após as horas vadias. Nem bem o sêmen escorre e você recolhe as roupas e o silêncio. Vai muda. O pensamento é voz em nosso céu que explode em brasas. A vida segue e a gente cala como em prece. Tudo se finda sem palavra que preste. Sempre começo pelo fim, para não ter dúvidas de um começo início.

Entry filed under: Ácidos.

Acostamento de Sentimentos Nesta Estrada-Vida Umbigos, Virilhas e Pentelhos

11 Comentários Add your own

  • 1. elisabetecunha2008  |  junho 3, 2008 às 8:34 pm

    BRUNO

    Sou Gloria Cunha ,irmã de Elisabete e ele pediu que vcadicionasse o novo endereço dela
    http://elisabetecunha2008.wordpress.com/

    Pois ela esta em recuperação.

    obrigada

    Responder
  • 2. Christiani Rodrigues  |  junho 3, 2008 às 10:01 pm

    Hablar, hablar, hablar…paz

    Responder
  • 3. luana  |  junho 4, 2008 às 12:48 am

    nossa, fiquei tanto tempo longe unfs..mas por aqui permanece o mesmo tom 😀
    gostei especialment e do fim, confesso que me perdi em algumas passagens, mas no fim me achei 😉

    certeiro! ;**
    namastÊ!

    Responder
  • 4. aline  |  junho 6, 2008 às 2:10 pm

    continuas escrevendo divinamente bem! Queria eu também poder controlas tais temperaturas que oscilam mais do que taxas financeiras… está tudoem rebuliço dentro de mim!

    hehehe

    Responder
  • 5. Lubi  |  junho 7, 2008 às 6:47 pm

    Ai, Bruno, você consegue, como poucos, me calar.
    Um beijo.

    Responder
  • 6. camila  |  junho 7, 2008 às 11:06 pm

    Uau… que massa!
    “Sempre começo pelo fim, para não ter dúvidas de um começo início. ”
    Muito bom… bom mesmo.
    Amei seu blog.
    Lindo!
    Lindos texto.
    Beijo
    =)

    Responder
  • 7. B.  |  junho 8, 2008 às 8:52 am

    Me diga, já pensou em lançar um livro?
    Ou estou eu sendo muito desinformada e você já tem um ou vários lançados por aí?

    Beijo meu.

    Responder
  • 8. Menina da Imprensa  |  junho 9, 2008 às 3:39 am

    Acho que essa é a verdadeira voz que vem de dentro… Belíssimo!
    Kisses

    Responder
  • 9. Sônia  |  junho 9, 2008 às 1:30 pm

    Puxa…sem palavras.

    Responder
  • 10. Carol Montone  |  junho 10, 2008 às 5:51 pm

    sexy!!! gostei muito. eu também começo pelo fim as vezes……
    digamos que tesu parágrafos se encadearam feito orgasmos múltiplos..muito bom mesmo
    beijosss
    Carol Montone

    Responder
  • 11. J@de  |  junho 12, 2008 às 9:40 pm

    Essa foi uma das melhores declarações de amor/tesão qeu eu já li na vida!!
    Beijos!!

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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