Archive for junho, 2008

Barulho das Descobertas Tardias

eu

Saio debaixo das cobertas e caminho rumo à janela para sentir o frio da madrugada. Meu sono foi quebrado pelo o barulho das descobertas tardias. Vejo as poucas luzes do céu. Relembro pensamentos sonâmbulos com alvitres remotos que trazem um tipo de nostalgia. Sinto o gelo das altas horas e a saudades de um dorso quente, com cheiro de gozo e gosto de deleite. Antigos trejeitos guardados além da velha culpa de quem não sabe cuidar de ninguém, muito menos de mim.

A alvorada segue e eu não preciso dar corda em meu relógio. O tempo me enforca. As paixões que encontrei pela vida nunca foram decapitadas. Em meu céu não restou estrela, apenas cometas que cruzaram a atmosfera-coração. Tempos em que nuvens formam tempestades de desejo. Eternidade de sentimentos que renovam emoções selvagens com ilusões em beijos de vinho. Memórias que bebem o corpo bem devagar.

A brisa suave traz a música do vento com trilha sonora que só faz ambiente para que eu jamais fique em silêncio. Tipo canção que invade o ouvido e preenche um vazio que a gente não escuta, mas sente. Ventos-canções que não soprei, mas que precisava vivê-los. Muitos repertórios com canções mudas, eternizadas por momentos impulsivos. Assim como o mistério das noites que resgatam a verdade de menino, que sonha o amor em uma cantiga de ninar.

A insônia me ensina a ficar dentro de mim, mesmo quando eu não suporto o sono. E, quando a aurora chega, me mostra que até os erros involuntários são essenciais. Saio da janela arrastando meus pés descalços pelo assoalho frio. Volto à cama quente. Sei que nem toda noite as estrelas brilham, assim como nem sempre consigo dormir em paz. Deve ser porque a paz é barulhenta e eu tenho pavor de ouvir este ruído sem ter uma companhia para adormecer ao meu lado.

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junho 30, 2008 at 6:09 pm 16 comentários

Umbigos, Virilhas e Pentelhos

umbigo

Sou um cara sem a misericórdia de um guardanapo que mal serve como rascunho para meus versos falsos. As cantadas tolas sempre falham, pois sei que todo o pensamento naufraga em labirintos infinitos. É como respirar fundo com a cabeça embaixo d’água, em qualquer privada de motel. O abrigo perfeito seria entre as coxas das moças que nem sei o nome. Adoro perder-me entre umbigos, virilhas e pentelhos.

Ainda me lembro da minha primeira trepada com a mulher que sequer amei de verdade. Recordo que nunca presenteei minhas paixões com flores, nem dei bombons às amantes em cada noite desmaiada entre seios e anseios por qualquer néctar. É irritante achar que sou um homem vigoroso, apenas por ficar de pau duro. Chulo? Pode ser. Mas não menos sincero que todas as ejaculações banais que nós, garanhões cretinos, costumamos desperdiçar por aí.

Para entender o que é gostar de uma mulher de verdade, eu necessito de um estimulante alucinógeno. Simplesmente para me drogar toda vez que a vida se transforma em algo suportável. Tipo casamento, TPM e vitrines de shoppings. Não se pode quantificar a angústia, ou classificar a dor de quem jamais aprendeu a entender esta espécie sedutora e irritante que só quer amar. Será?

Amor é complexo. Uma palavra-medo que contrai o diafragma e leva o estômago à boca. Eu apenas quero solidão e todas as mulheres ao meu lado. Sou cretino, cruel e apetecido por deltas e olhares fatais. Não quero que ninguém me julgue, por favor. É instinto misturado ao machismo. Tudo lecionado de pai para filho, geração após geração.

Também conheci damas que afirmavam que monogamia é tédio. Outras me deram na cara, porque deixei claro que só queria a xoxota. Palavra de baixo calão! Desculpe, é que eu aprendi que ser educado é ficar em silêncio. Mas eu berro. Ainda não encontrei alguém para fazer com que as palavras sumam. Sei que preciso aprender a ser homem além cama. Tudo para permitir que algum verdadeiro afeto me aconchegue em uma única voz. Que cale a minha fala entre a cama e os olhares. Não adianta, pois sempre que alguma mulher fecha a minha boca, as palavras se entreabrem. Assim como as suas pernas.

junho 13, 2008 at 7:37 pm 19 comentários

Hablar o Callar

Hablar

Eu não falo bem a sua língua, mas adoro o gosto que tem. Você entende um pouco do meu patoá e comunica, além do subjetivo, toda a razão maior do querer. As horas que passo ao seu lado são resumos dos minutos em que eu compreendo o seu discorrer ligeiro. Enquanto você atropela vírgula e pontuações entre o sujeito e o predicado, eu corro meus adjetivos lábios pelos seus poros, conjugando todos os verbos certeiros. Melhor que dialogar com pessoa que não tem vontade de ouvir o que absolutamente jamais conseguirá entender. Assim mesmo, sem adjetivo ou provérbio.

Eu observo seus movimentos, tal cão vadio do outro lado da calçada. Você me decifra a vontade nos olhos. Sem dicionário para esquentar o frio com pernas e braços. A quentura ferve os pensamentos que vem da nossa peregrinação de corpos com febre. Eu lhe peço um gole no copo que carrega o seu vinho e as desculpas pela minha ânsia. Prefiro não pronunciar nada. Eu não preciso balbuciar sua fala, pois nosso alto tom é vôo sem asa, onde falta rima ou palavra gasta.

Entrelaçadas mãos entre os dedos adultérios e o lençol frágil do calor edredom descoberto. Só vale abandonar minha boca na sua quentura. Sem roupa, nosso gozo e burburinhos são oxítonas entoadas em norma culta. Risadas por não saber se a gargalhada é deboche ou prazer. Converso com você para aprender a calar. Tesão sem bolsos, ou cachecol embaraçado. O mundo é o quarto bem maior do que a nossa vontade de arrumar as malas e partir.

Eu não sei controlar temperaturas ou dosar afeto. Só venero sua fenda e nossa nuance de odores e cores. Você faz mímica e pede o que quer, apontando o trajeto quando me falta o entendimento em seu dialeto. Eu sinalizo a vontade e o quero nas últimas forças que ainda me restam após as horas vadias. Nem bem o sêmen escorre e você recolhe as roupas e o silêncio. Vai muda. O pensamento é voz em nosso céu que explode em brasas. A vida segue e a gente cala como em prece. Tudo se finda sem palavra que preste. Sempre começo pelo fim, para não ter dúvidas de um começo início.

junho 3, 2008 at 7:16 pm 11 comentários


O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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Às vezes balbucio algo no Twitter:

  • Aos trancos e barrancos, isso aqui é @Flamengo! 2 weeks ago
  • O @Flamengo não jogou NADA o ano inteiro. Não tem poder de decisão algum. Mas vamos lá nos iludir com o "ano mágico 2018". 2 weeks ago
  • Vamos torcer pros caras honrarem o polpudo salário em dia e classificar nessa competição pra, ao menos, termos um prêmio de consolação 2 weeks ago
  • Parece que as pessoas se contentam com a porra de um Carioca e acha que o resto vem na sorte, vem no "deixa a vida me levar"... 2 weeks ago
  • Quase não tenho usado o Twitter, porque me torno repetitivo e parece que os meses, os anos, não passam. Tudo a mesma coisa. 2 weeks ago