Acostamento de Sentimentos Nesta Estrada-Vida

maio 23, 2008 at 2:31 pm 11 comentários

Estrada

A estrada longa se perde no horizonte, misturando a cor cinza do asfalto com a imensidão do céu azul, cheio de nuvens brancas. Parece tela de artista que sabe ver além do que se pode enxergar. E eu, que vejo com facilidade a felicidade em pequenas coisas, não sou pintor. Mesmo percebendo cores sem nome em um monte de molécula que passam depressa, enquanto o carro desliza por quilômetros que não me levam até alguém, com quem eu deveria estar.

A pista com sol não me ajuda a desvendar os motivos que fazem alguém ser feliz. Não há dica, truque, ou dinheiro honesto ganho num jogo de truco. O que conota a alegria em estar triste por alguma cartada perdida. Isso gera poesia e dor. Prefiro anedota durante o trajeto, antes que seja tarde e eu me esqueça de pensar em tudo o que fica pra trás, junto à poeira. Falta tempo para recomeçar, mesmo quando o relógio é legal comigo e me contempla com míseras 24 horas diárias. Mas, sei que posso mudar de uma hora pra outra, assim como troco de roupa a cada parada em posto de gasolina que encontro pelo caminho.

Mesmo irritado com o excesso de sol na nuca, não deixo de perceber cada vulto que passa pelo meu retrovisor. O reflexo também me mostra o cigarro de filtro amarelo queimando, a barba rala crescendo e a vontade de mergulhar em cada gota de lágrima que derramei em outras paradas. Saudade. Muitas brigas que venci, não ganhei medalha. Outras lutas que perdi, ainda carrego no peito. E a trilha vai longe, tal pensamento vadio que se perde entre o acostamento de sentimentos nesta estrada-vida.

Elimino cada gota de suor que brota em minha testa. Uso óculos escuro para não fazer a retina sofrer com tanta luminosidade. E todo brilho traz idéia, sugere uma meia volta, inibe a tempestade de certezas. Cada gole d’água quente indica um assobio de canção inventada para disfarçar a melodia engasgada do motor. Sempre que pego uma trilha, sinto uma vontade absurda de ficar em casa. E quando estou em meu lar, fica aquela necessidade incomensurável de cair nas pistas, sem deixar rastros.

Só sei que a cada novo caminho, abandono minha própria biografia e continuo acelerando e escrevendo. Novas estórias ingratas para contar histórias na contramão em forma de freadas. Não breco jamais. Sei que para ser feliz é preciso ir rumo a novos horizontes. Mesmo que seja sem norte, sem bússola. A estrada longa é o encontro com a minha perdição. Cada viagem é uma etapa da vida convertida em curvas, placas e quilometragem irreparável. Tudo bem sinalizado.

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Nem Amarelo Claro, Nem Nada. Hablar o Callar

11 Comentários Add your own

  • 1. Bruno Cazonatti  |  maio 23, 2008 às 2:49 pm

    Queridos (as) Leitores (as).

    Estou na correria cotidiana, trabalhando muito, viajando, redigindo…
    Jamais me esqueço de vocês e, sempre que sobra (ou ganho) um tempo, visito o blog de todos. Assim como sempre arrumo uma folha em branco para escrever novas histórias ácidas e poéticas para este espaço que tanto prezo.
    Este texto, por exemplo, foi rascunhado na viagem que fiz pelo sertão, entre a caatinga e o sol forte do Ceará ao Rio Grande do Norte. Várias horas de viagem que rederam boas letras e mensagens subliminares.
    Espero que compreendam o maior intervalo entre as postagens. em breve, tudo volta ao normal.

    Abraços e beijos com sol.
    Bruno Cazonatti

    Responder
  • 2. Christiani Rodrigues  |  maio 23, 2008 às 5:11 pm

    Tudo bem sinalizado…é isso aí. Que bom que não esqueces de nós…rs…

    Responder
  • 3. ariane  |  maio 23, 2008 às 11:02 pm

    Amigo poeta, quer dizer que você estava na minha terrinha, hein?
    Li seu texto como se fosse um pensamento meu que estivesse refletido no espelho de suas palavras…
    assim estou …mais um novo caminho, mais um desvio que se apresenta e eu , mesmo sem bússola e sem norte continuo caminhando, no rumo do sol…

    beijos de sol

    ariane

    Responder
  • 4. Sonia Regly  |  maio 24, 2008 às 12:25 am

    Bruno,
    Você não pode parar!!! Escreve muito bem, é uma delícia ler seus textos. Viajar é bom, ilumina a mente, alivia as tensões e trabalhando é melhor ainda, muita gente gostaria de estar trabalhando. Abraços.

    Responder
  • 5. Sonia Regly  |  maio 24, 2008 às 12:26 am

    Vou linkar seu lindo Blog, ok????

    Responder
  • 6. Fina Flor  |  maio 25, 2008 às 9:13 pm

    se assim não fosse não teria a menor graça 😉

    beijos, dear

    MM.

    ps: nem preciso dizer que o sumiço tem a ver com o Sol na Boca, né? Quarta dia 28/05 será o último show da temporada [já viu as fotos?]….

    Responder
  • 7. Márcia(clarinha)  |  maio 28, 2008 às 4:50 pm

    Textos que bate saudade de ser, de ter e de ler…
    Boas andanças inspiradoras, felizes nós leitores.
    beijos querido poeta

    Responder
  • 8. Keila  |  maio 30, 2008 às 4:36 pm

    Me vi e me senti na estrada construída pelos seus sonhos, poeta. O que resta dizer agora é… lindo.

    Beijoooooooooooosssssssssssss

    Responder
  • 9. David Santos  |  junho 1, 2008 às 5:07 pm

    Excelente, meu amigo, excelente!
    A beleza como se dizem as palavras reais, ou melhor; como se fala da realidade.
    Parabéns.

    Responder
  • 10. Dani  |  junho 2, 2008 às 4:14 am

    Bruno, lhe achei através de um amigo meu do mundo blogueiro. Gostei muito de seu texto e a decrição do percurso como etapas e desafios. Muito bom, meus parabéns! Como tenho feito com as pessoas que tive o prazer de conhecer aqui, temos trocado idéias, comentários e tudo mais que puder agregar de bom e de conteúdo. Li que estará ausente por uns dias e qdo. retornar desejar fazer-me uma visita será muito bem recebido. Bjs e boa semana! Dani.

    Responder
  • 11. Carol Montone  |  junho 3, 2008 às 12:34 am

    a vida é essa viagem doida querido então aproveite de acordo com os humores de cada dia….não adianta elocubrar..é preciso seguir…
    amei o texto
    como sempre
    inteligente e instigante
    beijos
    Carol Montone

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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