Nem Amarelo Claro, Nem Nada.

maio 5, 2008 at 3:23 pm 29 comentários

batom

A campainha tocou quatro vezes. Ele diminuiu o volume do rádio e foi até a porta. Era ela. Os olhos verde-escuros eram naturais, mas ela não era ruiva autêntica, como ele imaginava. O jeito cabal de menina dividia as curvas de mulher, o que dispensava qualquer sentimento de frustração.
Onde vai ser? – Indagou sem esboçar qualquer sorriso.
Na sala, se não tiver problemas pra você.
O que houve com o quarto?
Não houve. É que ele está desarrumado mesmo.

Ela colocou o cigarro nos lábios cor de rosa e mordeu a nicotina. Instigante. Aos poucos, despiu-se lentamente e, com um atrevimento bem vindo, bebeu o vinho tinto na taça de cristal, que estava firme na mão daquele homem embasbacado. Um gole rápido e certeiro, seguido de uma indagação letal.
É português?
Não, nacional mesmo. Mas, comprei na vendinha do Manoel, ali na esquina.
Essa merda vai me dar dor de cabeça.
Eu tenho aspirina.

Ela preferiu a carreira de cocaína para encarar a rotina e reclamou daquela música esquisita. Era jazz.
Coloca um hip hop.
Mas, é Quincy Jones…
Isso não é estimulante.
A gente pode fazer como o estilo da música e improvisar…
Troca, ou desliga.
Tudo bem…

O ritmo invadiu os poucos metros quadrados da sala e ela acendeu um balaio. O isqueiro ateou o fogo fingido, além da fumaça lenta que subia a cada tragada de desejo falso. Seios médios redondos, tal Marte. Os pentelhos, devidamente aparados, eram a tradução do perfeito delta de Vênus. Ele estava na lua. A sua frente, uma espaçonave perfeita para sair de órbita.
Ela gingou numa dança doida, exalando erotismo e perfume barato. Tudo bem ensaiado. A timidez esvaeceu após ele ficar nu, sem toda aquela inibição irritante. Ela escorregou a mão delicada pelas suas coxas. Ele tentou beijar-lhe a boca e ela desviou, bradando:
Não faz isso! Não tratamos assim.
Eu pago!
O beijo é melhor do que uma trepada.
Custa quanto?

Silêncio. Ela acendeu mais um cigarro, ajoelhou-se no chão, aos seus pés. Delirante. Um prazer surdo ecoou dentro dele. Excitação. Apostas e perdas que não deixam de insistir na absurda vontade de continuar errando. Coisa de homem só, diante de uma tela sem tinta, ou inspiração de primavera. Nem amarelo claro, nem nada. Lábios cor de rosa. Só três ou quatro posições novas e ejaculação rápida em alguns minutos vagos. Ela colocou seu vestido e estendeu-lhe a mão.
Duzentos.
Hã? Mas, nem beijo teve!
Já falei, duzentos.
Toma. Com mais cem, você fica?
Não. Chega de inanição.

Ela tinha que ir para outro lugar. O tempo se esgotou, seu cliente já gozou. Nos trinta segundos anteriores, ele havia jurado que nunca a deixaria partir. Mesmo quando o vinho ficasse com o gosto coagulado de misericórdia. Ela escorregou porta a fora e o deixou com o cheiro de mofo. A saliva seca foi essencial para criar os nós em sua garganta. Não deu para suplicar promessas com o hálito amargo de um moribundo. Então ela partiu e tomou um táxi. Da janela, acompanhou o veículo dobrar a esquina e, novamente, ele ficou órfão na avenida de suas fantasias. Mendigo dos impulsos, dejeto de suas vontades. Pensou ronronando “Mas… o que será que tem naquele beijo?”. Olhou para taça e viu o rastro dos lábios impressos com a marca do batom. Encostou sua boca, lambeu a borda, tentou encontrar alguma resposta. Nada. Só um gosto invisível de suposições salpicadas com saliva.

Puta é tudo igual”, ele murmurou. E achou, junto ao resquício-poeira da cocaína, um pequeno pedaço de papel rabiscado com batom: “O beijo é eclipse”. Ao franzir o cenho, mostrou que ainda não havia entendido. Normal. Porque isto é coisa que os homens só descobrem quando sabem que, o que há de melhor, sempre está perto demais para querer procurar.

Entry filed under: Ácidos.

Amanhã Todo o Resto é Futuro Acostamento de Sentimentos Nesta Estrada-Vida

29 Comentários Add your own

  • 1. aguas da vida  |  maio 5, 2008 às 8:16 pm

    Interessantissimo esse conto, retrata na realidade o mundo de sempre em que vivemos com tonalidades picantes de sensualidade.
    Parabéns pelo texto.
    Big Kiss

    Responder
  • 2. Lubi  |  maio 5, 2008 às 8:17 pm

    Conto, só você aparecer…
    =P

    Responder
  • 3. Tamara  |  maio 5, 2008 às 9:25 pm

    È que o beijo nao vem da boca!

    Responder
  • 4. Sonia.regly  |  maio 5, 2008 às 9:33 pm

    Vim agradecer a visita e o comentário e dizer que sua visita muito me honrou.Apareça sempre por lá.Obrigada por me linkar, linkarei vc também.Abraços.

    Responder
  • 5. Sonia.regly  |  maio 5, 2008 às 9:33 pm

    O Compartilando as letras, agradece a sua visita.

    Responder
  • 6. Flavinha  |  maio 6, 2008 às 1:44 am

    Perto demais pra querer procurar, e longe demais para alcançar depois que se perde.

    Beijo!

    Responder
  • 7. cabrita  |  maio 6, 2008 às 8:55 am

    Faço de graça

    Responder
  • 8. alexandre  |  maio 6, 2008 às 12:20 pm

    NÃO! Você é “o cara”.
    Puxa, faz tempo mesmo que não te vejo lá na fábrica. Muito bom ter você de volta cara. Um grande abraço e não suma também…!

    Responder
  • 9. Natacha  |  maio 6, 2008 às 2:28 pm

    Obrigada por não ter “esquecido” de mim. Achei esse conto da puta muito bom. Principalmente pelo final.

    “Perto demais para querer procurar”.

    Grande sacada.

    Beijo!

    Responder
  • 10. Sonia Regly  |  maio 6, 2008 às 4:45 pm

    Bruno , ainda não sei mexer nessa parte de configurações. Vou pedir minha filha para te linkar, pois é ela quem faz essa parte para mim. Obrigada pela visita, fiquei toda prosa, volte outras vezes. Beijinhos .

    Responder
  • 11. Pati  |  maio 7, 2008 às 11:14 pm

    Nossa me senti vendo uma tela de cinema…
    Adorei ^^

    Responder
  • 12. Fernanda  |  maio 8, 2008 às 12:41 pm

    Ah lindo como sempre né…
    Nao beija porque senao entregaria sua alma! Valou por ter me linkado viu! Bjos e mta inspiração

    Responder
  • 13. Tânia  |  maio 8, 2008 às 1:18 pm

    Saudades destes seus contos…Prosa bem construida, a riqueza de detalhes traduzindo os semblantes…

    Beijo querido!

    Responder
  • 14. Diana  |  maio 8, 2008 às 10:11 pm

    ácido, sempre ácido com cheiro de perfume barato e cor de batom falso.
    Sempre aqui, mesmo sem me pronunciar ^^

    Responder
  • 15. Luciana  |  maio 9, 2008 às 1:59 pm

    Belo textp!

    Responder
  • 16. Ane*  |  maio 10, 2008 às 3:04 am

    Ácido e belo…
    Muito bom!
    Beijo vem muito mais da alma…Pelo menos depois que se passa da adolescência…Álias…acho que o sexo é o complemento do beijo…Começa com um….
    beijo!

    Responder
  • 17. Marcelo Martins  |  maio 10, 2008 às 3:26 pm

    Narrativa interessante e instigante a sua.
    Mas a moça era mandona, heim?! Pelamor..Desse jeito o cara é quem deveria receber os 200 paus,rs.
    Abração.

    Responder
  • 18. Raysla Camelo  |  maio 10, 2008 às 11:42 pm

    Papel rabiscado assim tem cheiro de vontade repelida.

    Ótimo blog.
    Vou guarda-linkar no meu Sutiã 46, viu?

    Abraço.

    Responder
  • 19. elisabetecunha  |  maio 16, 2008 às 1:56 am

    Hum
    Bruno vc sempre divino!
    beijo amigo!

    Responder
  • 20. B.  |  maio 18, 2008 às 1:05 am

    E eu só posso dizer: “só você mesmo pra escrever um texto desses”.

    Responder
  • 21. Nadja  |  maio 18, 2008 às 3:46 am

    Belo texto! Belo blog! =)

    Responder
  • 22. cza  |  maio 19, 2008 às 2:23 am

    opa não vinha aqui faz um tempo.
    belo texto 🙂

    Responder
  • 23. Sonia REgly  |  maio 19, 2008 às 4:44 am

    Estou sentindo sua falta lá no Compartilhando as Letras. Têm duas excelentes postagens sobre a Lapa, apareça!!!!

    Responder
  • 24. Sônia  |  maio 20, 2008 às 1:08 pm

    Poxa…nem um beijinho..rs, tadinho…

    Beijos! rs

    Responder
  • 25. elisabetecunha  |  maio 20, 2008 às 7:40 pm

    Lindo,não some!

    beijinho

    Responder
  • 26. Luna  |  maio 21, 2008 às 1:44 am

    Muito sensual o texto. Você quem fez?

    =*’s

    Responder
  • 27. babisoler  |  maio 22, 2008 às 10:36 pm

    Bela narrativa.
    beijo

    Responder
  • 28. Carol Montone  |  junho 3, 2008 às 12:30 am

    muito bom!!1 “suposições salpicadas de saliva…”‘ótimo
    bj
    Carol Montone

    Responder
  • 29. luciana  |  agosto 13, 2008 às 6:41 pm

    ygndkjgm ghv hghcxlç,

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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