Archive for maio, 2008

Acostamento de Sentimentos Nesta Estrada-Vida

Estrada

A estrada longa se perde no horizonte, misturando a cor cinza do asfalto com a imensidão do céu azul, cheio de nuvens brancas. Parece tela de artista que sabe ver além do que se pode enxergar. E eu, que vejo com facilidade a felicidade em pequenas coisas, não sou pintor. Mesmo percebendo cores sem nome em um monte de molécula que passam depressa, enquanto o carro desliza por quilômetros que não me levam até alguém, com quem eu deveria estar.

A pista com sol não me ajuda a desvendar os motivos que fazem alguém ser feliz. Não há dica, truque, ou dinheiro honesto ganho num jogo de truco. O que conota a alegria em estar triste por alguma cartada perdida. Isso gera poesia e dor. Prefiro anedota durante o trajeto, antes que seja tarde e eu me esqueça de pensar em tudo o que fica pra trás, junto à poeira. Falta tempo para recomeçar, mesmo quando o relógio é legal comigo e me contempla com míseras 24 horas diárias. Mas, sei que posso mudar de uma hora pra outra, assim como troco de roupa a cada parada em posto de gasolina que encontro pelo caminho.

Mesmo irritado com o excesso de sol na nuca, não deixo de perceber cada vulto que passa pelo meu retrovisor. O reflexo também me mostra o cigarro de filtro amarelo queimando, a barba rala crescendo e a vontade de mergulhar em cada gota de lágrima que derramei em outras paradas. Saudade. Muitas brigas que venci, não ganhei medalha. Outras lutas que perdi, ainda carrego no peito. E a trilha vai longe, tal pensamento vadio que se perde entre o acostamento de sentimentos nesta estrada-vida.

Elimino cada gota de suor que brota em minha testa. Uso óculos escuro para não fazer a retina sofrer com tanta luminosidade. E todo brilho traz idéia, sugere uma meia volta, inibe a tempestade de certezas. Cada gole d’água quente indica um assobio de canção inventada para disfarçar a melodia engasgada do motor. Sempre que pego uma trilha, sinto uma vontade absurda de ficar em casa. E quando estou em meu lar, fica aquela necessidade incomensurável de cair nas pistas, sem deixar rastros.

Só sei que a cada novo caminho, abandono minha própria biografia e continuo acelerando e escrevendo. Novas estórias ingratas para contar histórias na contramão em forma de freadas. Não breco jamais. Sei que para ser feliz é preciso ir rumo a novos horizontes. Mesmo que seja sem norte, sem bússola. A estrada longa é o encontro com a minha perdição. Cada viagem é uma etapa da vida convertida em curvas, placas e quilometragem irreparável. Tudo bem sinalizado.

maio 23, 2008 at 2:31 pm 11 comentários

Nem Amarelo Claro, Nem Nada.

batom

A campainha tocou quatro vezes. Ele diminuiu o volume do rádio e foi até a porta. Era ela. Os olhos verde-escuros eram naturais, mas ela não era ruiva autêntica, como ele imaginava. O jeito cabal de menina dividia as curvas de mulher, o que dispensava qualquer sentimento de frustração.
Onde vai ser? – Indagou sem esboçar qualquer sorriso.
Na sala, se não tiver problemas pra você.
O que houve com o quarto?
Não houve. É que ele está desarrumado mesmo.

Ela colocou o cigarro nos lábios cor de rosa e mordeu a nicotina. Instigante. Aos poucos, despiu-se lentamente e, com um atrevimento bem vindo, bebeu o vinho tinto na taça de cristal, que estava firme na mão daquele homem embasbacado. Um gole rápido e certeiro, seguido de uma indagação letal.
É português?
Não, nacional mesmo. Mas, comprei na vendinha do Manoel, ali na esquina.
Essa merda vai me dar dor de cabeça.
Eu tenho aspirina.

Ela preferiu a carreira de cocaína para encarar a rotina e reclamou daquela música esquisita. Era jazz.
Coloca um hip hop.
Mas, é Quincy Jones…
Isso não é estimulante.
A gente pode fazer como o estilo da música e improvisar…
Troca, ou desliga.
Tudo bem…

O ritmo invadiu os poucos metros quadrados da sala e ela acendeu um balaio. O isqueiro ateou o fogo fingido, além da fumaça lenta que subia a cada tragada de desejo falso. Seios médios redondos, tal Marte. Os pentelhos, devidamente aparados, eram a tradução do perfeito delta de Vênus. Ele estava na lua. A sua frente, uma espaçonave perfeita para sair de órbita.
Ela gingou numa dança doida, exalando erotismo e perfume barato. Tudo bem ensaiado. A timidez esvaeceu após ele ficar nu, sem toda aquela inibição irritante. Ela escorregou a mão delicada pelas suas coxas. Ele tentou beijar-lhe a boca e ela desviou, bradando:
Não faz isso! Não tratamos assim.
Eu pago!
O beijo é melhor do que uma trepada.
Custa quanto?

Silêncio. Ela acendeu mais um cigarro, ajoelhou-se no chão, aos seus pés. Delirante. Um prazer surdo ecoou dentro dele. Excitação. Apostas e perdas que não deixam de insistir na absurda vontade de continuar errando. Coisa de homem só, diante de uma tela sem tinta, ou inspiração de primavera. Nem amarelo claro, nem nada. Lábios cor de rosa. Só três ou quatro posições novas e ejaculação rápida em alguns minutos vagos. Ela colocou seu vestido e estendeu-lhe a mão.
Duzentos.
Hã? Mas, nem beijo teve!
Já falei, duzentos.
Toma. Com mais cem, você fica?
Não. Chega de inanição.

Ela tinha que ir para outro lugar. O tempo se esgotou, seu cliente já gozou. Nos trinta segundos anteriores, ele havia jurado que nunca a deixaria partir. Mesmo quando o vinho ficasse com o gosto coagulado de misericórdia. Ela escorregou porta a fora e o deixou com o cheiro de mofo. A saliva seca foi essencial para criar os nós em sua garganta. Não deu para suplicar promessas com o hálito amargo de um moribundo. Então ela partiu e tomou um táxi. Da janela, acompanhou o veículo dobrar a esquina e, novamente, ele ficou órfão na avenida de suas fantasias. Mendigo dos impulsos, dejeto de suas vontades. Pensou ronronando “Mas… o que será que tem naquele beijo?”. Olhou para taça e viu o rastro dos lábios impressos com a marca do batom. Encostou sua boca, lambeu a borda, tentou encontrar alguma resposta. Nada. Só um gosto invisível de suposições salpicadas com saliva.

Puta é tudo igual”, ele murmurou. E achou, junto ao resquício-poeira da cocaína, um pequeno pedaço de papel rabiscado com batom: “O beijo é eclipse”. Ao franzir o cenho, mostrou que ainda não havia entendido. Normal. Porque isto é coisa que os homens só descobrem quando sabem que, o que há de melhor, sempre está perto demais para querer procurar.

maio 5, 2008 at 3:23 pm 29 comentários


O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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  • Obrigado, São Judas. Sobrevida ao Zé. Time que quer ser campeão não pode depender de sorte. 2 days ago
  • Já está na hora de pedir um Waldermar Lemos no lugar do Zé Teimoso Ricardo. 2 days ago
  • Oi gato! Você está triste porque eu perdi o pênalti? Fica tisti não. ( @orricopontocom ) https://t.co/R4T3L9sYxA 3 days ago
  • Desde a Era Bruno não tínhamos um goleiro de alto nível. Bem vindo, Diego Alves! Goleirão @Flamengo! Enfim uma realidade, chega de apostas! 1 week ago
  • São dois times que brigam por título. Hoje perdemos.Faz parte, não existe time invencível. Tem muito campeonato pela frente. Nada acabou. 1 week ago