Amanhã Todo o Resto é Futuro

abril 24, 2008 at 4:07 pm 12 comentários

amanhã

Hoje eu quero que você me ajude a fazer bagunça. Pegue aquela lata de tinta e misture com um pouco de água ardente. Pinta e borda o seu canto, enquanto eu coloco o rádio mais alto e berro o refrão daquela música inédita. Eu pego o teclado e toco qualquer barulho em sol maior. Você finge que está na percussão e faz o barulho esquisito da bateria, com a boca. Aproveita e usa a minha língua para saciar seu gosto, enquanto eu escrevo o seu nome na minha avenida. Vamos fazer nossa manhã valer à pena, antes que noite caia e seja tarde ao dobrarmos a esquina.

Rescinda o seu contrato de aluguel e vem me arrendar o sorriso. Goze todos os minutos que a gente passa junto, sem vergonha de esquecer que todo final de domingo é cruel. Nós comemos daquela comida enlatada, cheia de conservantes. Ela nos mantém e não deixa que os verbos se conjuguem na desgraça em migalhas. Chega mais perto. Não está tão frio, mas desliga o ar. Não vamos ficar condicionados ao vento escasso. Aproveita e escancara as gavetas com cheiro de naftalina e não guarde suas angústias junto ao lavabo. Deixe que a brisa desembrulhe o enredo com as nossas delícias.

O mundo é denso, então vamos fingir que amanhã é passado. O mar está crespo e o papel celofane dá um tom especial ao embrulho dos bombons. Apague a luz do corredor e desliga as preocupações sobre a insônia. Vamos comer sorvete com pipoca e beber vinagre com água tônica. Não deixe de trancar a janela do seu pesar. Esqueça o trabalho, as contas e a sua falta de ar. Me dê sua mão e vem dançar no escuro de nossos murmúrios iluminados. Vamos ser indecentes e puros como o vinho casto. Nem vamos sentir saudade das palavras que jamais serão balbuciadas com tanta calmaria. Só do barulho ao arrancarmos a rolha com a força da nossa embriaguez.

Você gosta de mim e eu adoro você. Simples sentimento pão doce com a satisfação do arroto após o refrigerante. Assim como o rum, venerado pelos piratas. Clímax com aroma de paixão que ainda não veio. E a gente passeia de mãos dadas com as nossas vontades e devaneios. A única coisa de concreto é o coração. Palpita ligeiro no peito e voa junto com o pouco barulho que compõe a melodia da madrugada. Só deixamos rastro porque o silêncio também faz barulho. Tudo é como se fosse nada, pois somos apenas o que ecoa em nossa inspiração volátil e anseios volúveis. Sou a sua ausência bem vinda, você minha saudade esquecida. Então pare com esse sussurro e vem fazer bagunça comigo hoje. Amanhã todo o resto é futuro.

Entry filed under: Ácidos.

Porque Sempre Temos Um ao Outro no Final Da Noite Nem Amarelo Claro, Nem Nada.

12 Comentários Add your own

  • 1. Camila  |  abril 24, 2008 às 9:19 pm

    Encontrei um tesouro reluzente por aqui…

    Estou boquiaberta até agora – ainda bem que não tenho que falar nada com a boca…

    beijos daqui…

    Responder
  • 2. Lubi  |  abril 25, 2008 às 8:41 pm

    ó/
    Me lembrou a leveza de Carpinejar. A junção de frases perfeitas que são poesias.
    Gosto quando você usa esse tom.

    Saudade.
    Um beijo.

    Responder
  • 3. Sonia Regly  |  abril 27, 2008 às 3:15 am

    Gostei do seu Espaço, belos textos, bem escritos. vim te convidar para conhecer o Compartilhando as Letras, sua visita muito me honrará.

    Responder
  • 4. Sonia Regly  |  abril 27, 2008 às 8:35 pm

    Passe lá no Compartilhando as Letras.Sua visita é um prazer!!!!

    Responder
  • 5. Ana Carolina Freitas  |  abril 28, 2008 às 3:15 pm

    Perfeito como sempre!
    Beijos

    Responder
  • 6. Patrícia  |  abril 29, 2008 às 12:08 pm

    Soltei tantos sorrisos agora… Era o que precisava pra esse dia.
    Lindo texto!!!

    Voltarei outras vezes.
    beijos!

    Responder
  • 7. Diana  |  abril 30, 2008 às 12:09 am

    É que às vezes tenho tanto medo de me sujar…embora saiba que esse medo só me levará ai fracasso.
    Absolutamente poético seu texto, colorido até céu!

    Responder
  • 8. elisabetecunha  |  maio 2, 2008 às 9:14 pm

    sempre perfeito!!

    beijos

    Responder
  • 9. Sônia  |  maio 4, 2008 às 3:23 pm

    Poxa! Esse texto faz o domingo parecer melhor…

    Abraço Bruno!

    Responder
  • 10. Tamara  |  maio 5, 2008 às 9:34 pm

    Feito pra ser lido ao som de Everybody Here Wants You – Jeff Bukley….e deliciosamente sob efeito de vinho…como agora!!!

    Magnifico!

    Responder
  • 11. Flá Fuini  |  maio 9, 2008 às 1:05 pm

    Que texto lindo! Alegou minha sexta-feira!
    Você tem que publicar um livro!

    Responder
  • 12. Adriana  |  maio 22, 2008 às 6:10 pm

    Adoro uma bagunça!

    Belo texto.

    Bjs.

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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