Porque Sempre Temos Um ao Outro no Final Da Noite

abril 16, 2008 at 3:20 pm 14 comentários

chuva

A chuva não pára de cair. Mesmo assim, deixo a janela aberta para o cheiro molhado entrar e se misturar ao de incenso e tabaco. Baco, o Deus beberrão, deve estar com inveja destas cinco garrafas de vinho que entornamos em nossa alma e deixamos vazias em cima da mesa. Meus pés são os únicos protegidos do frio, mesmo que haja um furo na meia, próximo ao meu calcanhar. E eu não fico acanhado quando deslizo minhas mãos sobre as suas costas nuas e beijo sua nuca com toda a ternura, sem a garantia de ser um ato ingênuo. Sinais de arrepio sem dar um pio. E a gente goza junto, toda a magia da vida nas últimas duas horas.

A noite que nem vimos passar, agora é dia. Junto com o som da chuva que toca o telhado, vem o barulho da rua e do seu ressonar. De longe observo cada traço, cada fio de cabelo e pentelho que fazem de você, um desenho perfeito. Pintura divina. Não ligo se você ainda não acordou. Fui eu quem despertei a vontade de deixar tudo assim, tão bonito e perfeito. Não que seja tudo exato, mas eu tenho um pedaço de queijo branco na geladeira e faço o café rapidinho, antes de ouvir você bocejar. Bem mais devagar do que aquele beijo rápido, que lhe roubei na madrugada.

O que me encanta é a sua risada suave e a forma como os seus dentes amarelados reluzem alegria. Não precisa ser Colgate, apenas sincero. Você fica sexy quando acende o cigarro, mas eu prefiro quando faz charme e pede que eu lhe faça uma massagem antes que seja tarde eu lhe perca em outro dia qualquer. Sem pose de musa ou trejeito de quem tem o tempo ideal para traçar caminhos errantes por puro preciosismo. A melodia é por minha conta, dedilhando o violão. Eu nem sei tocar direito, mas só quero mostrar que cada acorde tem cor quando eu dedilho as cordas sob o seu olhar.

O tempo nublado não está de acordo com o nosso dia lindo. Nem quando fazemos planos futuros ensolarados, que às vezes não combinam conosco. Aquele filme romântico também não tem nada a ver. É porque não temos vergonha de correr o risco, nem medo de deixar a janela aberta para o cheiro molhado entrar. Deixe que as gotas alaguem o assoalho. Porque sempre temos um ao outro no final da noite e um pano de chão para enxugar as mazelas. Tudo em seu devido lugar. As palavras sentidas, o sexo bem feito, o café pelando e o doce balanço das folhas lá fora. Tudo com suspiros descobertos embaixo da coberta e ritmos tremidos com pitadas de gemido. Temos mais que o sol. E nem por isso a chuva deixa de cair.

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O Final de Todos os Caminhos Já Traçados Amanhã Todo o Resto é Futuro

14 Comentários Add your own

  • 1. Bruno Cazonatti  |  abril 16, 2008 às 3:49 pm

    Amig@s,
    Peço desculpas pela minha ausência e demora por atualizar o Ácido.
    Muita trabalho e correria, mas jamais me falta poesia.
    Em breve, tudo volta ao normal.
    Sds,
    Bruno Cazonatti

    Responder
  • 2. Daniel  |  abril 17, 2008 às 2:08 pm

    Em compensação vem trabalhar no outro dia cheio de olheira, né?

    Kd o juízo?

    Responder
  • 3. Carolina  |  abril 17, 2008 às 6:56 pm

    vc pode demorar a atualizar, mas quando o faz arrasa como sempre.

    Adorei teu post. Sensual, romântico.
    Lindo mesmo!!

    beijos

    Responder
  • 4. Alê Quites  |  abril 17, 2008 às 8:06 pm

    “cada acorde tem cor…”

    E é por tais coisas que adoro dias chuvosos.

    Beijos*

    Responder
  • 5. Lubi  |  abril 18, 2008 às 1:23 pm

    Nossa.
    Fiquei muda, boquiaberta.

    Lindo.

    Responder
  • 6. Ana Carolina Freitas  |  abril 18, 2008 às 8:04 pm

    “E eu não fico acanhado quando deslizo minhas mãos sobre as suas costas nuas e beijo sua nuca com toda a ternura, sem a garantia de ser um ato ingênuo.” Perfeito!
    Beijos Bruno! Bom feriado pra vc

    Responder
  • 7. Fernanda  |  abril 19, 2008 às 10:45 pm

    ah que texto maravilhoso…. na verdade são essas coisas simples que faz a nossa vida ter sentido né!
    bjo

    Responder
  • 8. elisabetecunha  |  abril 21, 2008 às 10:54 pm

    Bruno

    VC me delicia com seus textos maravilhosos!
    saudades!

    Responder
  • 9. Cris  |  abril 22, 2008 às 11:56 am

    E que caiam todas as chuvas do mundo, desde que o interior da gente esteja, ainda que por preciosos momentos, tão ensolarado. Que texto lindo…Meus sinceros parabéns, Bruno.

    Responder
  • 10. Diana  |  abril 24, 2008 às 1:08 pm

    E a chuva sempre acompanha belas canções…

    Responder
  • 11. Alexandre Costa  |  abril 24, 2008 às 1:29 pm

    Olá amigo!
    Passo pra dizer que ando muito ocupado com outras atividades, e isto está atrapalhando minhas atividades no blog. De vez em quando passo pelos amigos e leio…com o tempo voltarei a atividade normal e poderei me dedicar mais à leitura de meus amigos blogueiros.

    Abraços

    Responder
  • 12. Sônia  |  abril 24, 2008 às 2:52 pm

    Minha nossa! rs…como alguém consegue escrever assim?
    Muito bom!

    Abraços sumido!

    Responder
  • 13. Camila  |  abril 24, 2008 às 9:22 pm

    Olha… e eu achando que o texto anterior não poderia ter concorrência…

    beijos daqui…

    Responder
  • 14. Anônimo  |  julho 25, 2008 às 11:16 pm

    Fantástico o modo sublime com que fala das coisas simples da vida!!! …Das quais precisamos; as quais buscamos; as quais queremos…Mas, em geral, o medo…o protótipo imposto…a fuga da verdade no rosto impede que sintamos o bom ”boom” de viver…;)

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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