Archive for abril, 2008

Amanhã Todo o Resto é Futuro

amanhã

Hoje eu quero que você me ajude a fazer bagunça. Pegue aquela lata de tinta e misture com um pouco de água ardente. Pinta e borda o seu canto, enquanto eu coloco o rádio mais alto e berro o refrão daquela música inédita. Eu pego o teclado e toco qualquer barulho em sol maior. Você finge que está na percussão e faz o barulho esquisito da bateria, com a boca. Aproveita e usa a minha língua para saciar seu gosto, enquanto eu escrevo o seu nome na minha avenida. Vamos fazer nossa manhã valer à pena, antes que noite caia e seja tarde ao dobrarmos a esquina.

Rescinda o seu contrato de aluguel e vem me arrendar o sorriso. Goze todos os minutos que a gente passa junto, sem vergonha de esquecer que todo final de domingo é cruel. Nós comemos daquela comida enlatada, cheia de conservantes. Ela nos mantém e não deixa que os verbos se conjuguem na desgraça em migalhas. Chega mais perto. Não está tão frio, mas desliga o ar. Não vamos ficar condicionados ao vento escasso. Aproveita e escancara as gavetas com cheiro de naftalina e não guarde suas angústias junto ao lavabo. Deixe que a brisa desembrulhe o enredo com as nossas delícias.

O mundo é denso, então vamos fingir que amanhã é passado. O mar está crespo e o papel celofane dá um tom especial ao embrulho dos bombons. Apague a luz do corredor e desliga as preocupações sobre a insônia. Vamos comer sorvete com pipoca e beber vinagre com água tônica. Não deixe de trancar a janela do seu pesar. Esqueça o trabalho, as contas e a sua falta de ar. Me dê sua mão e vem dançar no escuro de nossos murmúrios iluminados. Vamos ser indecentes e puros como o vinho casto. Nem vamos sentir saudade das palavras que jamais serão balbuciadas com tanta calmaria. Só do barulho ao arrancarmos a rolha com a força da nossa embriaguez.

Você gosta de mim e eu adoro você. Simples sentimento pão doce com a satisfação do arroto após o refrigerante. Assim como o rum, venerado pelos piratas. Clímax com aroma de paixão que ainda não veio. E a gente passeia de mãos dadas com as nossas vontades e devaneios. A única coisa de concreto é o coração. Palpita ligeiro no peito e voa junto com o pouco barulho que compõe a melodia da madrugada. Só deixamos rastro porque o silêncio também faz barulho. Tudo é como se fosse nada, pois somos apenas o que ecoa em nossa inspiração volátil e anseios volúveis. Sou a sua ausência bem vinda, você minha saudade esquecida. Então pare com esse sussurro e vem fazer bagunça comigo hoje. Amanhã todo o resto é futuro.

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abril 24, 2008 at 4:07 pm 12 comentários

Porque Sempre Temos Um ao Outro no Final Da Noite

chuva

A chuva não pára de cair. Mesmo assim, deixo a janela aberta para o cheiro molhado entrar e se misturar ao de incenso e tabaco. Baco, o Deus beberrão, deve estar com inveja destas cinco garrafas de vinho que entornamos em nossa alma e deixamos vazias em cima da mesa. Meus pés são os únicos protegidos do frio, mesmo que haja um furo na meia, próximo ao meu calcanhar. E eu não fico acanhado quando deslizo minhas mãos sobre as suas costas nuas e beijo sua nuca com toda a ternura, sem a garantia de ser um ato ingênuo. Sinais de arrepio sem dar um pio. E a gente goza junto, toda a magia da vida nas últimas duas horas.

A noite que nem vimos passar, agora é dia. Junto com o som da chuva que toca o telhado, vem o barulho da rua e do seu ressonar. De longe observo cada traço, cada fio de cabelo e pentelho que fazem de você, um desenho perfeito. Pintura divina. Não ligo se você ainda não acordou. Fui eu quem despertei a vontade de deixar tudo assim, tão bonito e perfeito. Não que seja tudo exato, mas eu tenho um pedaço de queijo branco na geladeira e faço o café rapidinho, antes de ouvir você bocejar. Bem mais devagar do que aquele beijo rápido, que lhe roubei na madrugada.

O que me encanta é a sua risada suave e a forma como os seus dentes amarelados reluzem alegria. Não precisa ser Colgate, apenas sincero. Você fica sexy quando acende o cigarro, mas eu prefiro quando faz charme e pede que eu lhe faça uma massagem antes que seja tarde eu lhe perca em outro dia qualquer. Sem pose de musa ou trejeito de quem tem o tempo ideal para traçar caminhos errantes por puro preciosismo. A melodia é por minha conta, dedilhando o violão. Eu nem sei tocar direito, mas só quero mostrar que cada acorde tem cor quando eu dedilho as cordas sob o seu olhar.

O tempo nublado não está de acordo com o nosso dia lindo. Nem quando fazemos planos futuros ensolarados, que às vezes não combinam conosco. Aquele filme romântico também não tem nada a ver. É porque não temos vergonha de correr o risco, nem medo de deixar a janela aberta para o cheiro molhado entrar. Deixe que as gotas alaguem o assoalho. Porque sempre temos um ao outro no final da noite e um pano de chão para enxugar as mazelas. Tudo em seu devido lugar. As palavras sentidas, o sexo bem feito, o café pelando e o doce balanço das folhas lá fora. Tudo com suspiros descobertos embaixo da coberta e ritmos tremidos com pitadas de gemido. Temos mais que o sol. E nem por isso a chuva deixa de cair.

abril 16, 2008 at 3:20 pm 14 comentários


O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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