O Final de Todos os Caminhos Já Traçados

março 28, 2008 at 2:21 pm 12 comentários

fim

Eu fiquei com o cheiro do restaurante em meu cabelo. O aroma do ambiente fechado é o tempero para as minhas idéias tortas. Retiro a poeira que envolve a minha aura casta e a misturo com poesia travessa. Danço insólito, ainda sóbrio, e entôo alguma melodia babaca pra lhe convidar para o meu bailar. Tudo para espantar essa impertinência e soltar as palavras salientes presas em meus instintos. Eu posso falar sacanagens em seu ouvido, tirar o gelo do meu copo de uísque e colocar em seu umbigo. Posso lhe amar por uma noite inteira e pedir que você não fique durante os meus dias de incerteza.

É tudo questão de prazer barato e paixão ébria. Você sussurra um poema e suspira um teorema. E eu sempre tenho que demonstrar que minhas idéias são dissonantes das regras. Aí, você reclama que o meu cordão de prata bate na sua cara. Não tiro. Foi presente divino que me serve como guia. Coisa de Eros. Então, vira de lado, muda de posição. Só não me faz perder a concentração e o tesão por suas amolações medonhas. Nem Afrodite foi tão enfadonha. Tem tanta coisa que também me incomoda. Sua voz muito manhosa, nem sempre combina com a adrenalina da nossa erupção. Falta ousadia, ou é pura covardia? Não sei, pois tem hora que me falta poesia. Tanta coisa feia para se falar, tantas taras boas para se realizar e você me faz calar com seu beijo voraz.

Dou risada. Curto cada situação de êxtase que vivencio. Meto os pés pelas mãos e meus braços envoltos em seu dorso. Enrosco-me na sua anatomia, vou e volto no seu ventre com toda a minha fantasia. Perambulo por cada poro que desbravo sem bússola ou norte. Eu nunca precisei contar com a sorte para negar o abrigo nos corações mais sórdidos. Por isso, eu danço num ritmo alucinado. Agora bêbado e nobre. Encharcado de gozo e com a minha cara de bobo. Esqueço da minha inocência porque ela me faz ter vergonha quando vejo meu reflexo no espelho. E de repente, vem novamente aquele cheiro do restaurante em meu cabelo, misturado à promiscuidade, sexo descartável e amor passageiro.

Então, os sonhos momentâneos se realizam e os gingados e gemidos contagiam o consumo de prazer que corre entre o lençol e o edredom. Eu cuspo que amo você, finjo uma paixão. Mas, telefona. Chama o garçom e pede algo para embriagar o nosso tom. Sou levado por toda satisfação que não precisa de drama ou expectativa por um novo verão. Sou um dos tantos tolos que fazem de tudo para não ficar inerte à força do hábito. Pois já sei o final de todos os caminhos já traçados. E é aí que percebo que até a rotina me faz falta. Menos você.

Entry filed under: Ácidos.

A Carta Porque Sempre Temos Um ao Outro no Final Da Noite

12 Comentários Add your own

  • 1. João Paulo  |  abril 1, 2008 às 1:14 am

    Oba! Serei o primeiro a comentar tão instigante post. Sabe, cara. Estive em um período muito mais que ocupado, pensei que não fosse voltar ao mundo net; ainda bem que as coisas estão voltando ao seu devido lugar.

    Passar aqui faz muita diferença, uma vez que você sempre escreve coisa que faz pensar.

    Parabéns!

    Abraços,
    JP.

    Responder
  • 2. B.  |  abril 1, 2008 às 6:32 pm

    Você, sempre você. Me tirando as palavras quando elas menos devem faltar. Como alguém consegue falar de sexo desse jeito? Descrever não só o próprio ato, mas a paixão maluca e a efemeridade que carrega em si.

    Parece que todo o talento do mundo está dentro de você.

    Maravilhoso.

    Responder
  • 3. Daniella  |  abril 2, 2008 às 5:11 am

    Lindo esse texto.Parabéns,você escreve super bem.

    =)

    Responder
  • 4. Ana Carolina Freitas  |  abril 2, 2008 às 11:14 am

    Adoro adentrar na atmosfera de certos textos… Nos seus então, nem se fala…
    Assim como venerei “Do Chester ao Peu”, venerei este também… Aguçou meus pensamentos e eu mergulhei na descrição das suas cenas.

    Beijos Bruno. Ótimo dia pra você.

    Responder
  • 5. Renata  |  abril 3, 2008 às 4:22 pm

    Li tudo, do início ao fim!
    Navegando por aí te encontrei, sempre se encontra coisa boa quando procuramos.
    Um grande Beijo.

    Responder
  • 6. Ane*  |  abril 3, 2008 às 10:55 pm

    A B. já disse tudo!

    Maravilhoso…

    beijo.

    Responder
  • 7. Christiani Rodrigues  |  abril 5, 2008 às 12:55 am

    Cade vc????

    Responder
  • 8. elisabetecunha  |  abril 5, 2008 às 5:22 am

    Bruno

    vc sempre me encantando!
    beijos

    Responder
  • 9. Sônia  |  abril 6, 2008 às 10:22 pm

    Vixi…A última frase foi de lascar! rs…
    Se te falta poesia, passa lá..rs

    Abraço!!!

    Responder
  • 10. Menina da Imprensa  |  abril 15, 2008 às 6:14 am

    Tão cheio de entrelinhas… As conotações te salvam da censura… Muito bom…
    Smaaacks

    Responder
  • 11. Iara  |  abril 15, 2008 às 5:09 pm

    sensualidade rompendo os vermelhos da noite…lindo lindo!

    estou de volta à Janela, Bruno! dá uma espiadinha por lá…

    beijos…

    Iara

    Responder
  • 12. °Renata°  |  abril 16, 2008 às 12:09 pm

    Envolvente do início ao fim.
    Um grande beijo

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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