A Carta

março 19, 2008 at 2:41 pm 18 comentários

carta

Querida,

Sabe, eu consegui usar a mesa da sala para escrever os versos bonitos que você gosta. Eu retirei os papéis, os recibos de contas pagas, os meus livros e revistas de cima dela e achei uma brechinha para redigir esta carta. Acordei quando o domingo amanheceu e o sol entrou para aquecer o ambiente agora frio, desde que você me deixou. Eu estou me virando bem, juro. Não precisa se preocupar. Confesso que ainda não sei mexer na máquina de lavar, mas eu sempre faço um miojo para me alimentar. Sinto saudade do seu tempeiro-cheiro e do gosto bom que você tem.

Estou pensando em trocar as cores da parede. Vou tirar esse amarelo e colocar um verde claro, no mesmo tom que os seus olhos. O teto vai continuar branco e eu prometi a mim mesmo que jamais vou atirar pedra no telhado dos outros. Tirei aqueles sabonetes cheirosos que ficavam na minha gaveta das cuecas e coloquei no banheiro. O chuveiro queimou. Eu não sei trocar a resistência, mas se você voltar eu compro um novo. A água fria me faz tomar banho mais depressa e eu nem faço mais a barba enquanto me ensabôo. Raspei o cavanhaque. Apesar de alguns fios de cabelo mais brancos, eu estou com aquela cara de menino que você conheceu há alguns anos.

Você esqueceu o CD do Led Zeppelin. A música fica rolando o dia todo, e você sabe que eu não me canso do Jimmy Page e do Robert Plant fazendo as honras da casa com a sua melodia. Sabe aquela poltrona velha, onde eu passava as tardes espreguiçado e assistindo ao jogo na televisão? Joguei fora. Coloquei uns pufes coloridos e comprei uns DVDs bacanas. Aquela pipoca que só eu sei fazer continua boa. Deve ser a velha panela de inox que a sua mãe nos deu de presente de casamento. Duvido que você prefira comer as de microondas.

Larguei a bebida. Você sempre reclamou da quantidade de uísque e vinho barato que ocupavam a nossa estante da sala. Doei para uma igreja. Mas, ainda tem cerveja na geladeira. Talvez você possa usar para fazer aquele molho delicioso com a carne assada. Deixei de fumar. Agora só tem a fumaça dos incensos pela casa. Arrumei o nosso armário e coloquei meus tênis espalhados dentro da sapateira. A chuteira ainda está na área, pois sexta tem pelada. Mas, se você resolver voltar na quarta, eu me esqueço do futebol e a gente sai pra jantar naquele restaurante que tem o couvert que você se amarra.

Sei que me acomodei com meus erros. Mas, volta, vai. Eu já varri a casa e passei um pano com um líquido cheiroso nos azulejos. Tirei a poeira do carpete e me habituei a lavar a louça todos os dias. Só não me acostumei com a sua ausência e as suas reclamações sobre o meu jeito fútil de ser. Sabe, eu consegui usar a mesa da sala para escrever os versos bonitos que você gosta. Só não consegui achar, em meio a tanta bagunça, as minhas promessas de dias melhores. Então fico com a chance de escrever que lhe quero de volta, porque eu preciso de você para viver novos erros.

Entry filed under: Ácidos.

Minhas Mulheres O Final de Todos os Caminhos Já Traçados

18 Comentários Add your own

  • 1. Mariana  |  março 19, 2008 às 5:52 pm

    Olá, Bruno
    O teu blog achei por acaso (sabe como é google, não é?! entra em um, ve um link, entra no outro…)
    Pois li o texto é achei ótimo, logo, não pude deixar de comentar.
    Espero voltar.

    Grande abraço.

    Responder
  • 2. João Paulo  |  março 19, 2008 às 11:08 pm

    Cara, esse texto é muito bom.

    Entre mim e vc só há uma diferença, faço todas essas coisas com minha amada por perto.

    Vou torcer pra que ela volte.

    Abração,

    Responder
  • 3. Ane  |  março 20, 2008 às 1:13 pm

    Nossa! Esse texto é demais…Não sei explicar o por quê…mas eu achei muitooo foda!

    beijo!

    Responder
  • 4. Lorita  |  março 20, 2008 às 1:49 pm

    Infelizmente alguns homens só mudam de atitude qdo são abandonados, não ouvem os pedidos de súplicas das amadas qdo as têm por perto…

    bjm

    Responder
  • 5. Lilian  |  março 20, 2008 às 6:28 pm

    Caro Bruno,
    Se ela não voltar é uma tola.

    Responder
  • 6. Daniel  |  março 21, 2008 às 5:42 pm

    Contrata uma empregada que as lembranças começam a desaparecer. Mas continue escrevendo de maneira perfeita.

    Boa páscoa!!!

    Aquele abraço!

    Responder
  • 7. Carolina  |  março 21, 2008 às 9:57 pm

    Tomara que ela volte né Bruno!

    beijos

    Responder
  • 8. Amanda  |  março 22, 2008 às 5:53 am

    muito bom!!
    😉

    Responder
  • 9. Vanessa  |  março 23, 2008 às 2:11 am

    puts…
    nao pude deixar de ler esse post sem chorar
    me trouxe a lembrança de uma pessoa muito querida que “perdi”
    é, a gente se acostuma com tanta coisa…
    o mais dificil é se acostumar com a ausencia de quem se ama.
    lindo post
    voltarei aqui mais vezes
    abraço

    Responder
  • 10. alexandre  |  março 24, 2008 às 12:26 pm

    …a nossa maior dificuldade é agregar o valor das coisas quando as coisas nos pertence…geralmente é assim (perder) é uma lição, perder é a chave do ‘valor’…sejamos felizes juntos dando valor na hora em que ele está dentro de nós! Na verdade ‘perder é achar’…, mas infelizmente só achamos quando o que foi perdido se esconde atrás de nossa cegueira! Abraços e muita sorte…seu sacrifício vale a pena e ela voltará. Passo quase por essa mesma situação…, felizmente ela sabe do valor que eu dôo a ela todos os dias…é apenas uma questão de tempo para vivermos juntos para sempre!!!!!!! Abração meu caro amigo!

    Responder
  • 11. Sônia  |  março 25, 2008 às 1:13 pm

    Que coisa mais linda! Que pedido mais lindo…se eu fosse ela voltaria correndo! rs…
    Só não devia ter tirado o cavanhaque! rs

    Abraço Bruno!

    Responder
  • 12. Sarah k  |  março 25, 2008 às 1:57 pm

    Licença…

    Pedido lindo de um desesperado… mas mudar assim só em promessa, rs.

    Responder
  • 13. Bella  |  março 26, 2008 às 4:52 pm

    Essa carta me fez lembrar aquela música:

    “ainda tem o seu perfume pela casa
    ainda tem você na sala
    porque meu coração despara quando sente o seu cheiro dentro de um livro…”

    🙂

    Parabéns pelo texto maravilhosamente bem escrito.

    Responder
  • 14. babisoler  |  março 26, 2008 às 5:18 pm

    uam segunda chance sempre vale a pena.
    um beijo.

    Responder
  • 15. elisabetecunha  |  março 26, 2008 às 8:00 pm

    HUMMMMMM
    lindo………..

    Responder
  • 16. aguas da vida  |  março 27, 2008 às 3:59 pm

    Passando para ver as novidades parceiro.
    Bom final de semana.
    Big Kiss

    Responder
  • 17. sonia  |  abril 8, 2008 às 1:37 pm

    Achei seu texto limpo,sincero,claro,gostei de vir aqui.Voltarei outras vezes.Visite o Compartilhando as Letras, achei seu Blog através do Encanto. Aguardo sua visita.PARABÉNS!!!!!!

    Responder
  • 18. sonia  |  abril 8, 2008 às 1:38 pm

    Precisamos antes de tudo ser sinceros para nós mesmos.Lindo texto!!!!

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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