Archive for março, 2008

O Final de Todos os Caminhos Já Traçados

fim

Eu fiquei com o cheiro do restaurante em meu cabelo. O aroma do ambiente fechado é o tempero para as minhas idéias tortas. Retiro a poeira que envolve a minha aura casta e a misturo com poesia travessa. Danço insólito, ainda sóbrio, e entôo alguma melodia babaca pra lhe convidar para o meu bailar. Tudo para espantar essa impertinência e soltar as palavras salientes presas em meus instintos. Eu posso falar sacanagens em seu ouvido, tirar o gelo do meu copo de uísque e colocar em seu umbigo. Posso lhe amar por uma noite inteira e pedir que você não fique durante os meus dias de incerteza.

É tudo questão de prazer barato e paixão ébria. Você sussurra um poema e suspira um teorema. E eu sempre tenho que demonstrar que minhas idéias são dissonantes das regras. Aí, você reclama que o meu cordão de prata bate na sua cara. Não tiro. Foi presente divino que me serve como guia. Coisa de Eros. Então, vira de lado, muda de posição. Só não me faz perder a concentração e o tesão por suas amolações medonhas. Nem Afrodite foi tão enfadonha. Tem tanta coisa que também me incomoda. Sua voz muito manhosa, nem sempre combina com a adrenalina da nossa erupção. Falta ousadia, ou é pura covardia? Não sei, pois tem hora que me falta poesia. Tanta coisa feia para se falar, tantas taras boas para se realizar e você me faz calar com seu beijo voraz.

Dou risada. Curto cada situação de êxtase que vivencio. Meto os pés pelas mãos e meus braços envoltos em seu dorso. Enrosco-me na sua anatomia, vou e volto no seu ventre com toda a minha fantasia. Perambulo por cada poro que desbravo sem bússola ou norte. Eu nunca precisei contar com a sorte para negar o abrigo nos corações mais sórdidos. Por isso, eu danço num ritmo alucinado. Agora bêbado e nobre. Encharcado de gozo e com a minha cara de bobo. Esqueço da minha inocência porque ela me faz ter vergonha quando vejo meu reflexo no espelho. E de repente, vem novamente aquele cheiro do restaurante em meu cabelo, misturado à promiscuidade, sexo descartável e amor passageiro.

Então, os sonhos momentâneos se realizam e os gingados e gemidos contagiam o consumo de prazer que corre entre o lençol e o edredom. Eu cuspo que amo você, finjo uma paixão. Mas, telefona. Chama o garçom e pede algo para embriagar o nosso tom. Sou levado por toda satisfação que não precisa de drama ou expectativa por um novo verão. Sou um dos tantos tolos que fazem de tudo para não ficar inerte à força do hábito. Pois já sei o final de todos os caminhos já traçados. E é aí que percebo que até a rotina me faz falta. Menos você.

Anúncios

março 28, 2008 at 2:21 pm 12 comentários

A Carta

carta

Querida,

Sabe, eu consegui usar a mesa da sala para escrever os versos bonitos que você gosta. Eu retirei os papéis, os recibos de contas pagas, os meus livros e revistas de cima dela e achei uma brechinha para redigir esta carta. Acordei quando o domingo amanheceu e o sol entrou para aquecer o ambiente agora frio, desde que você me deixou. Eu estou me virando bem, juro. Não precisa se preocupar. Confesso que ainda não sei mexer na máquina de lavar, mas eu sempre faço um miojo para me alimentar. Sinto saudade do seu tempeiro-cheiro e do gosto bom que você tem.

Estou pensando em trocar as cores da parede. Vou tirar esse amarelo e colocar um verde claro, no mesmo tom que os seus olhos. O teto vai continuar branco e eu prometi a mim mesmo que jamais vou atirar pedra no telhado dos outros. Tirei aqueles sabonetes cheirosos que ficavam na minha gaveta das cuecas e coloquei no banheiro. O chuveiro queimou. Eu não sei trocar a resistência, mas se você voltar eu compro um novo. A água fria me faz tomar banho mais depressa e eu nem faço mais a barba enquanto me ensabôo. Raspei o cavanhaque. Apesar de alguns fios de cabelo mais brancos, eu estou com aquela cara de menino que você conheceu há alguns anos.

Você esqueceu o CD do Led Zeppelin. A música fica rolando o dia todo, e você sabe que eu não me canso do Jimmy Page e do Robert Plant fazendo as honras da casa com a sua melodia. Sabe aquela poltrona velha, onde eu passava as tardes espreguiçado e assistindo ao jogo na televisão? Joguei fora. Coloquei uns pufes coloridos e comprei uns DVDs bacanas. Aquela pipoca que só eu sei fazer continua boa. Deve ser a velha panela de inox que a sua mãe nos deu de presente de casamento. Duvido que você prefira comer as de microondas.

Larguei a bebida. Você sempre reclamou da quantidade de uísque e vinho barato que ocupavam a nossa estante da sala. Doei para uma igreja. Mas, ainda tem cerveja na geladeira. Talvez você possa usar para fazer aquele molho delicioso com a carne assada. Deixei de fumar. Agora só tem a fumaça dos incensos pela casa. Arrumei o nosso armário e coloquei meus tênis espalhados dentro da sapateira. A chuteira ainda está na área, pois sexta tem pelada. Mas, se você resolver voltar na quarta, eu me esqueço do futebol e a gente sai pra jantar naquele restaurante que tem o couvert que você se amarra.

Sei que me acomodei com meus erros. Mas, volta, vai. Eu já varri a casa e passei um pano com um líquido cheiroso nos azulejos. Tirei a poeira do carpete e me habituei a lavar a louça todos os dias. Só não me acostumei com a sua ausência e as suas reclamações sobre o meu jeito fútil de ser. Sabe, eu consegui usar a mesa da sala para escrever os versos bonitos que você gosta. Só não consegui achar, em meio a tanta bagunça, as minhas promessas de dias melhores. Então fico com a chance de escrever que lhe quero de volta, porque eu preciso de você para viver novos erros.

março 19, 2008 at 2:41 pm 18 comentários

Minhas Mulheres

Mulher

Fortes, ou sensíveis. Não importa. Desde as vaidosas, charmosas e turbulentas, às fortes, lutadoras e conquistadoras. Mulheres de todas as raças, ou crenças. Com batom, ou debaixo de um edredom. Do sexo rápido ao amor prolongado. Amamentando os nossos frutos, alimentando os nossos sussurros. No ápice, no vértice. Aconchegado em seus ombros, ou enfeitiçado pelo seu ventre. Rendo-me.

Oito de março de todos os anos. Não é apenas uma data qualquer, apenas para se comemorar a conquista de direitos, ou liberdade. De brindar à coragem, ou celebrar dignidade. Não! Porque os tolos que não sabem desvendar seus mistérios, respeitar suas manias e trejeitos, não podem ocupar o lugar no seu leito. Sem Amélias, Ritas ou ritos repletos de mitos. Simplesmente, mulheres.

Frágeis somos nós, homens. Pois são das mulheres, todos os dias. Sou delas, assim como todas são minhas. As que sentem o orgulho de ser delicada como uma flor, as com força por ser mãe. Aquelas que têm o carinho de ser esposa, as que possuem a reciprocidade de uma amiga. Todas com paixão por ser companheira, ou tesão em ser amante por uma noite inteira. Mas, principalmente, as que têm alegria por ser mulher.

Damas com liberdade e sua própria identidade. Donas que me prendem pelo pensamento, entre as pernas, ou num beijo suave. Cara- Metade, de corpo inteiro. Senhoras – moças, meninas selvagens. Mães, irmãs, filhas e concubinas. Dos amores fartos à força na dor do parto. Paixões inflamadas pelo poder em seu Delta de Vênus. Sentimentos eternos, ou fraternos. Reinando em meu coração ou no salão, entre sessões de pinturas das unhas dos pés e das mãos. Amo todas que têm independência, pois me fazem, sempre, dependente de suas sentenças.

março 7, 2008 at 2:03 pm 15 comentários


O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
----------------------------

Os textos deste blog estão protegidos pela lei nº. 9.610 de 19-02-1998.
Não copie sem permissão.
[Ácido Poético® - Todos os direitos reservados]

http://www.twitter.com/cazonatti

ø Textos Protegidos por Direito Autoral ø

Creative Commons License
Ácido Poético by Bruno Cazonatti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.
Based on a work at Ácido Poético ®.
Permissions beyond the scope of this license may be available by: cazonatti@gmail.com

Às vezes balbucio algo no Twitter: