Para Toda a Eternidade dos Últimos Minutos

fevereiro 21, 2008 at 2:31 pm 16 comentários

eternidade

A música fecha o bar, quase beirando manhã. Fico com o gosto embriagado daquelas vozes calmas que soam dentro de minha alma. Contos, talvez algumas fábulas, são sussurros calmos nos cantos e quinas de todos os lugares por onde passo. Disparo os olhos rumo ao horizonte infinito e longe do abrigo da chuva fina. Finita ao abrir de qualquer guarda-chuva doido e colorido pelos meus cílios.

Curta, como saia de moça saliente, a vida corre entre os badalos do sino da igreja cristã. E os cachos dourados, que escondem o rosto da mulher mais bela, desenham a imagem pura e singela de um sonho guardado apenas para mim. São quase seis da manhã e a luz que ilumina o céu já não está mais lá. Culpa das estrelas cadentes, pois nem a lua tem seu próprio brilho e depende do sol que acaba de despertar.

Paixões tortas a toda hora, cores de dores e cortes de salaminho com queijo. Para seguir na estrada da minha biografia eu conto com a sorte, pois acabo de me lembrar que esqueci o maço de cigarros na pia do banheiro. Não sou protagonista quando perco meus contos e encaro a realidade. Sobrevivo em pedaços de pano barato, com mais surpresas do que destreza para encarar meus desejos serenos de fuga. Eu ainda vou tomar coragem e dirigir aquele fusca, que está empoeirado na garagem da minha insensatez.

Pupilas que não desaprendem a chorar e dissolvem as lágrimas por entre as cicatrizes abertas, ainda com pus e resquícios de noz moscada. Porque o tempo rapidamente passa e as lembranças dos brindes com taça, jamais se dispersam de um vencedor. Para vencer a dor, um eco de pensamentos novos, com petiscos e um chope bom para toda a eternidade nos últimos minutos. A saudade só é positiva para quem sabe o que é um sentimento de verdade.

Vou estender meu braço e puxar o copo. Entrelaçar meus dedos por entre os destroços causados pela minha ruptura de sobriedade. E os muros, que escondem essa minha fantasia endoidecida, são quebrados pela voz que engole o último pingo de álcool enquanto eu estendo o dedo e brado alto “Traz a conta, garçom!”

Entry filed under: Ácidos.

Onde as Palavras Perdem a Razão de Ser Minhas Mulheres

16 Comentários Add your own

  • 1. Sônia  |  fevereiro 21, 2008 às 5:58 pm

    Por que bebes assim? rs…
    Tem dias que só uns goles pra dar jeito mesmo…

    Abraço!

    Responder
  • 2. alexandre  |  fevereiro 21, 2008 às 5:59 pm

    Narrativa E S P E T A C U L A R meu caro amigo!

    Abraços.

    Responder
  • 3. elisabetecunha  |  fevereiro 21, 2008 às 6:53 pm

    Como sempre maravilhoso!
    Tudo que somos é resultado do que pensamos. (Buda)

    Lindo finalde semana e aparece!

    Responder
  • 4. Ane*  |  fevereiro 22, 2008 às 10:51 am

    Muito bom! Como sempre…
    Tem horas que só a embriaguez nos entende….

    beijo!

    Responder
  • 5. Ana Carolina Freitas  |  fevereiro 22, 2008 às 11:36 am

    “As vezes é preciso embriagar-se para não perder a cabeça”…
    Ótimo como sempre!
    Beijos

    Responder
  • 6. Camila  |  fevereiro 22, 2008 às 2:02 pm

    ufa, achei que ele iria pedir a saideira!

    adorei.

    um beijo grande.

    Responder
  • 7. Cau  |  fevereiro 23, 2008 às 3:18 am

    A cabeça zonza… os olhos não vêem bem. Estranha essa sensação que a vida nos dá, de ter tomado um porre, sem nemter sentado na mesa de bar.
    Beijos moço… como sempre um belo texto.

    Responder
  • 8. Aline  |  fevereiro 26, 2008 às 12:53 pm

    Bruno este teu peesonagem combina divinamente com os bares da Europa viu? te visualizei ele e um daqui!
    Bjm

    Responder
  • 9. Daniel  |  fevereiro 26, 2008 às 9:25 pm

    “Eu gosto de um bar, de bebericar, de um samba cantar, se o papo rolar eu sou mais de ficar, até clarear não esquente comigo…”

    Até que me identifiquei com o texto.

    Abraços!

    Responder
  • 10. Christiani Rodrigues  |  fevereiro 26, 2008 às 10:40 pm

    Faltou a canção: “Garçom, nesta mesa de bar…”.
    Bjos

    Responder
  • 11. Lucia  |  fevereiro 27, 2008 às 10:45 pm

    Muitíssimo bem escrito, como sempre, Bruno!
    E como eu quero desesperadamente acreditar que “as lembranças dos brindes com taça jamais se dispersam de um vencedor”… É que tudo anda me fugindo. Ou fui eu que comecei a perceber que nada parece ficar de verdade… e eu não quero perder.
    Então, que ao menos as lembranças possam permanecer, só pra me contar no fim que tudo valeu a pena…

    Beijos

    Responder
  • 12. amanda  |  fevereiro 29, 2008 às 3:12 am

    “A saudade só é positiva para quem sabe o que é um sentimento de verdade.”

    é verdade!! 😉
    beijo

    Responder
  • 13. Mary  |  fevereiro 29, 2008 às 6:05 am

    E depois, a ressaca… =P
    Adorei o texto! Saudades daqui… Beijos!

    Responder
  • 14. Dri  |  março 1, 2008 às 2:34 am

    impressionante como as coisas ao redor de um bêbado ficam mais radiantes (antes que comecem a girar) a vida tem mais brilho vista através do fundo de um copo vazio?

    Responder
  • 15. elisabetecunha  |  março 1, 2008 às 7:24 pm

    Saudadessssssssssss!!
    rs!

    Responder
  • 16. Sônia  |  março 7, 2008 às 1:22 am

    Ainda de porre? rs…

    Abraço!

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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