Onde as Palavras Perdem a Razão de Ser

fevereiro 13, 2008 at 11:08 am 15 comentários

cama

As suas perguntas vagas jamais vão calar minhas respostas. Somente o silenciar. Sua cegueira não machuca os meus olhos, que sempre gritam por novas rebuças. Apenas por enxergar. Da cama vejo as teias de aranha nas paredes nuas, isentas de sigilo. Mas, as lembranças já não estão lá. Nossas sombras, projetadas a cada metro pela luz e pela dança dos corpos, ficaram na escuridão da claridade que não propaga mais em nossa alma. Sem rito ou ritmo. Sintonia falha.

Nem na fotografia você desfaz essa cara feia que insiste em querer lembrar que o inverno existe. Esquisito. Já não me arrepio, pois sei que escancaro as cortinas e abro as janelas para deixar o sol entrar. Espanta o frio. Aquele resto de luz derreteu com a vela e a cera escorreu, junto com todo carinho que remetiam à dor. Pelo ralo. Atrelado ao pecado do corpo, escoou-se o sentimento insulso que tive em relação ao par que jamais fomos.

Você nunca compreendeu a verdade dos meus pensamentos. Ficou ali, com suas manias e pirraças abundantes. Pomposa. Só grifes e marcas que não faz alma alguma ser exuberante. Nobreza fútil, orgulhosa. Sem restaurante caro, ou comidas requintadas. Fico com as marmitas requentadas. Assim, só perco tempo para pensar que me esqueci da forma como dizer que você desapareceu. Ficou naquele lugar, onde as palavras perdem a razão de ser.

Foda é o perfume com cheiro doce, o gosto do vinho na taça e a música que o dial repentinamente me cospe. Sem contar a gargalhada aguda, que alguém faz igual àquela que um dia você me trouxe. Isso tudo me remete ao passado embaçado, salpicado com resquícios de desdém aos montes. Certo. Então você ainda não sumiu por completo. Pois, se tudo isso ainda me traz seu nome, fico aqui deitado olhando pro teto.

Distante. Além do mofo causado pela infiltração que veio do apartamento de cima, invadindo meu cômodo estado de nostalgia. Longe, como lhe quero hoje e não quis ontem. Desde que eu possa, todos os dias, esconder-me no presente e saber que tenho muito mais que olfato, paladar e audição. Então, nem pense em voltar em outra estação. Porque continuo a caminhar, sempre para frente, mesmo sem tato e visão.

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15 Comentários Add your own

  • 1. Carolina  |  fevereiro 13, 2008 às 2:45 pm

    Sempre em frente…

    Essa é a ordem Bruno!

    beijão

    Responder
  • 2. Márcia(clarinha)  |  fevereiro 13, 2008 às 2:46 pm

    Quanta melancolia e dor nessa saudade, meu amigo poeta, que pena 😦
    Arriba!
    dias lindos
    beijos
    .
    Eu andei sumidinha por conta dos feriados, estou de volta.

    Responder
  • 3. Juliana  |  fevereiro 14, 2008 às 4:17 pm

    “Você nunca compreendeu a verdade dos meus pensamentos.”
    Posso tomar essa frase emprestada para dize-la a alguem?
    Lindo!!!

    Beijos.

    Responder
  • 4. Thaila Frade  |  fevereiro 15, 2008 às 2:23 am

    eu até podia fazer a mesma pergunta que a juliana, mas não me cabe…
    ótimo texto e muito bem ilustrado!
    Recebi sua mensagem em meu blog,
    só pra registro,
    pode passar lá de vez em quando
    vou me esforçar pra escrever mais…
    abraços

    Responder
  • 5. Menina da Imprensa  |  fevereiro 15, 2008 às 3:45 pm

    Sempre em frente sim, mas porque muitas vezes o presente é insensato, ou não presenteia, ou é presa… o passado pode ter sabor de veneno, e o futuro é o que resta…isso, se chegar. As palavras as vezes perdem mesmo a razão… algumas atitudes a obrigam a isso.
    Gostei muito, porque foi muito bem escrito, como sempre…
    Kisses

    Responder
  • 6. Ana Carolina Freitas  |  fevereiro 15, 2008 às 6:32 pm

    Como diria Quintana: “O passado não reconhece o seu lugar, está sempre presente.”
    Adorei o texto! Principalmente pelas similaridades…
    Beijos

    Responder
  • 7. Tânia  |  fevereiro 16, 2008 às 11:20 am

    Profunda esta dor.
    Lendo ela assim nua e crua os faz quase sentir na pele…
    Lembrei da música Memória da Carne do João Bosco…”Eu já esqueci vocë, tento crer, seu nome, sua cara, seu jeito, seu odor; sua casa, sua cama…”
    Beijo querido

    Responder
  • 8. Ane*  |  fevereiro 17, 2008 às 1:05 am

    Saudade….dor…Acho que já me senti assim! Ainda bem que passou!

    beijo!

    =)

    Responder
  • 9. luana  |  fevereiro 17, 2008 às 4:41 pm

    eu acabo sendo repetitiva neh? porque tô sempre flando de como c escreve bem e talzs..mas asism, acho q tem rimas meio “forçadas” num sei, mas não q comprometa o texto sabe? 🙂

    deixe ir..e se permita! seja lá o que for.. 😉

    boa semana e desculpa a ausencia x)
    ;***
    namastê!

    Responder
  • 10. camiles  |  fevereiro 18, 2008 às 7:56 pm

    OWOWOW…
    SUSPIROS…

    Responder
  • 11. Aline  |  fevereiro 18, 2008 às 10:48 pm

    E bola pra frente!

    Responder
  • 12. Nana  |  fevereiro 19, 2008 às 5:23 am

    Continue a nada, continue a nadar….

    Sorte, sempre

    \o/

    Responder
  • 13. Sônia  |  fevereiro 19, 2008 às 6:34 pm

    Bom ficar deitado olhando pro céu…
    Os pensamentos voam longe, se perdem…se encontram…e se
    perdem novamente…rs

    Responder
  • 14. Sônia  |  fevereiro 19, 2008 às 6:35 pm

    Ops! não era pro céu, era pro teto! rs…viu como o pensamento voa? rs

    Responder
  • 15. Mary  |  fevereiro 29, 2008 às 6:10 am

    Ótimo texto! Dolorido e verdadeiro…

    Adorei o título!

    =*

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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