Lá Se Foi o Verdadeiro Carnaval

fevereiro 7, 2008 at 8:12 pm 8 comentários

Carnaval

Já foi carnaval. Engraçado. Nem tudo é sempre tão igual. As marchinhas ficaram no pretérito. Deram lugar ao som histérico de um funk sintético. Nos intervalos, entra um samba aqui, outro acolá, mas logo o ritmo muda e vira bagunça. Bom para a garotada tola, que enche a cara de birita só para beijar na boca. Antes, pedia-se permissão aos pais da moça para dançar no meio do salão. Hoje é tudo amor em vão. Com camisinha ou não, tudo é preservativo ao gozo célebre, lascivo. Na esquina, no carro ou até no pouco espaço do banheiro químico. Assim, tudo rápido e lícito, pois a folia fuleira não tem graça sem os riscos.

Eu fico aqui parado, debaixo da marquise esperando a chuva passar. Olhando o movimento alheio às máscaras com um pesar. Ah, como era bom levar susto com as serpentinas repentinas e os confetes na época em que eu era moleque! Minha mãe me levava à praça e eu só tinha medo quando a turma de bate-bolas passava. Agora, cercado pela alegria alheia, não acho a menor graça em ter que me esquivar de confusões e brigas feias, causadas pela bebida ou pelo ciúme de algum Zé Pereira.

Outrora já fui Pierrot. Hoje, talvez, Arlequim. Sempre com minha Colombina, por quem nunca perdi minha paixão carmesim. Para isso, sempre me esquivo pelos cantos. Liturgia. Tudo para não perder o encanto e entregar minha harmonia de bandeja para viver novas fantasias. E essa garoa que não dá trégua, inunda a passarela para guarda-chuvas e pessoas chulas. Assim como eu. Para diversão, quero as putas! Nos inferninhos que me levam ao céu por alguns minutos, a preço real. O troco da cerveja. Banal. Mas, para me casar, quero uma beata. Estas só são encontradas em retiro espiritual. O preço da pureza. E quem sou eu pra falar de espírito se o que se vê na avenida é apenas carnal? Vida que escorre por cada gota, que ecoa pelas batidas do tamborim, do repique ou do surdo. Eu, apenas mudo.

Quarta-feira de cinzas. O escárnio em forma de ironia. Nem tudo é sempre tão igual, mas no carnaval é a mesma coisa no final. Mais vítimas nas estradas, mas mortes embriagadas e tudo com muita astúcia desenfreada. Para virar espetáculo de mídia e aumentar a audiência especializada. Pra se esquecer da vida e virar pagão? Não. Sequer para virar sermão! É que não vejo mais graça em contar quantas meninas eu tracei na farra, quanta bebida eu entornei na alma e o quanto eu perdi, além de tudo o que eu já não tinha. Aliás, eu estou vazio de vaidade e cheio de incertezas exatas. Tanto quanto um copo de água benta, pela metade. É que lá se foi o verdadeiro carnaval e tudo isso é tipo etecétera e tal, com toda a permissão semântica e meu jeito de efêmero boçal.

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Adornando a Estibordo Onde as Palavras Perdem a Razão de Ser

8 Comentários Add your own

  • 1. Alinne S.  |  fevereiro 8, 2008 às 1:49 pm

    Adorei, 🙂
    acompanharei seu blog.
    Sem mais.

    Beijos.

    Responder
  • 2. Christiani Rodrigues  |  fevereiro 8, 2008 às 10:55 pm

    Tanta inspiração assim, que não seja só neste 4 dias de folia e sim o ano inteiro. Bjos, sumido

    Responder
  • 3. elisabetecunha  |  fevereiro 10, 2008 às 4:00 pm

    Querido vc e otimo!!

    A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.
    Carlos Drummond de Andrade

    Responder
  • 4. João Paulo  |  fevereiro 11, 2008 às 12:21 am

    Poxa, Bruno!

    Suas palavras conseguiram instigar mais que as do Buarque.

    Abração!

    Responder
  • 5. Thaila Frade  |  fevereiro 11, 2008 às 1:26 am

    A Tati Collaro indicou seu blog pra mim…
    e eu adoreiii o pouco que eu li!
    Sobre o texto de Carnaval…
    adoreiiiii e com toda a minhasinceridade,
    se tivesse colocado o meu bloco na rua
    eu teria sido uma dessas que provavelmente
    teria enchido a cara de birita e beijado na boca,
    sou tribalista!
    nunca soube ao certo o que é carnaval
    e o que acontece hoje
    é mais uma desculpa pro povo cair na farra e se sentir menos culpado por suas irresponsabilidades…
    parabéns pelo seu texto,
    virei fã!
    abraços

    Responder
  • 6. Ane*  |  fevereiro 11, 2008 às 12:27 pm

    Eu tenho saudade de antigos carnavais, mesmo sem tê-los vivido…Hoje, como vc bem disse, é apenas um feriado para alegria vã, tola e bêbada…
    Lindo o texto! Parabéns!

    beijão!

    Responder
  • 7. alexandre  |  fevereiro 11, 2008 às 4:29 pm

    Cara, esse texto tá M A R A V I L H O S O! Parabéns!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Responder
  • 8. Sônia  |  fevereiro 12, 2008 às 4:58 pm

    Êita! Delícia ler seus textos…muito bom!

    Abraço!

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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