Archive for fevereiro, 2008

Para Toda a Eternidade dos Últimos Minutos

eternidade

A música fecha o bar, quase beirando manhã. Fico com o gosto embriagado daquelas vozes calmas que soam dentro de minha alma. Contos, talvez algumas fábulas, são sussurros calmos nos cantos e quinas de todos os lugares por onde passo. Disparo os olhos rumo ao horizonte infinito e longe do abrigo da chuva fina. Finita ao abrir de qualquer guarda-chuva doido e colorido pelos meus cílios.

Curta, como saia de moça saliente, a vida corre entre os badalos do sino da igreja cristã. E os cachos dourados, que escondem o rosto da mulher mais bela, desenham a imagem pura e singela de um sonho guardado apenas para mim. São quase seis da manhã e a luz que ilumina o céu já não está mais lá. Culpa das estrelas cadentes, pois nem a lua tem seu próprio brilho e depende do sol que acaba de despertar.

Paixões tortas a toda hora, cores de dores e cortes de salaminho com queijo. Para seguir na estrada da minha biografia eu conto com a sorte, pois acabo de me lembrar que esqueci o maço de cigarros na pia do banheiro. Não sou protagonista quando perco meus contos e encaro a realidade. Sobrevivo em pedaços de pano barato, com mais surpresas do que destreza para encarar meus desejos serenos de fuga. Eu ainda vou tomar coragem e dirigir aquele fusca, que está empoeirado na garagem da minha insensatez.

Pupilas que não desaprendem a chorar e dissolvem as lágrimas por entre as cicatrizes abertas, ainda com pus e resquícios de noz moscada. Porque o tempo rapidamente passa e as lembranças dos brindes com taça, jamais se dispersam de um vencedor. Para vencer a dor, um eco de pensamentos novos, com petiscos e um chope bom para toda a eternidade nos últimos minutos. A saudade só é positiva para quem sabe o que é um sentimento de verdade.

Vou estender meu braço e puxar o copo. Entrelaçar meus dedos por entre os destroços causados pela minha ruptura de sobriedade. E os muros, que escondem essa minha fantasia endoidecida, são quebrados pela voz que engole o último pingo de álcool enquanto eu estendo o dedo e brado alto “Traz a conta, garçom!”

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fevereiro 21, 2008 at 2:31 pm 16 comentários

Onde as Palavras Perdem a Razão de Ser

cama

As suas perguntas vagas jamais vão calar minhas respostas. Somente o silenciar. Sua cegueira não machuca os meus olhos, que sempre gritam por novas rebuças. Apenas por enxergar. Da cama vejo as teias de aranha nas paredes nuas, isentas de sigilo. Mas, as lembranças já não estão lá. Nossas sombras, projetadas a cada metro pela luz e pela dança dos corpos, ficaram na escuridão da claridade que não propaga mais em nossa alma. Sem rito ou ritmo. Sintonia falha.

Nem na fotografia você desfaz essa cara feia que insiste em querer lembrar que o inverno existe. Esquisito. Já não me arrepio, pois sei que escancaro as cortinas e abro as janelas para deixar o sol entrar. Espanta o frio. Aquele resto de luz derreteu com a vela e a cera escorreu, junto com todo carinho que remetiam à dor. Pelo ralo. Atrelado ao pecado do corpo, escoou-se o sentimento insulso que tive em relação ao par que jamais fomos.

Você nunca compreendeu a verdade dos meus pensamentos. Ficou ali, com suas manias e pirraças abundantes. Pomposa. Só grifes e marcas que não faz alma alguma ser exuberante. Nobreza fútil, orgulhosa. Sem restaurante caro, ou comidas requintadas. Fico com as marmitas requentadas. Assim, só perco tempo para pensar que me esqueci da forma como dizer que você desapareceu. Ficou naquele lugar, onde as palavras perdem a razão de ser.

Foda é o perfume com cheiro doce, o gosto do vinho na taça e a música que o dial repentinamente me cospe. Sem contar a gargalhada aguda, que alguém faz igual àquela que um dia você me trouxe. Isso tudo me remete ao passado embaçado, salpicado com resquícios de desdém aos montes. Certo. Então você ainda não sumiu por completo. Pois, se tudo isso ainda me traz seu nome, fico aqui deitado olhando pro teto.

Distante. Além do mofo causado pela infiltração que veio do apartamento de cima, invadindo meu cômodo estado de nostalgia. Longe, como lhe quero hoje e não quis ontem. Desde que eu possa, todos os dias, esconder-me no presente e saber que tenho muito mais que olfato, paladar e audição. Então, nem pense em voltar em outra estação. Porque continuo a caminhar, sempre para frente, mesmo sem tato e visão.

fevereiro 13, 2008 at 11:08 am 15 comentários

Lá Se Foi o Verdadeiro Carnaval

Carnaval

Já foi carnaval. Engraçado. Nem tudo é sempre tão igual. As marchinhas ficaram no pretérito. Deram lugar ao som histérico de um funk sintético. Nos intervalos, entra um samba aqui, outro acolá, mas logo o ritmo muda e vira bagunça. Bom para a garotada tola, que enche a cara de birita só para beijar na boca. Antes, pedia-se permissão aos pais da moça para dançar no meio do salão. Hoje é tudo amor em vão. Com camisinha ou não, tudo é preservativo ao gozo célebre, lascivo. Na esquina, no carro ou até no pouco espaço do banheiro químico. Assim, tudo rápido e lícito, pois a folia fuleira não tem graça sem os riscos.

Eu fico aqui parado, debaixo da marquise esperando a chuva passar. Olhando o movimento alheio às máscaras com um pesar. Ah, como era bom levar susto com as serpentinas repentinas e os confetes na época em que eu era moleque! Minha mãe me levava à praça e eu só tinha medo quando a turma de bate-bolas passava. Agora, cercado pela alegria alheia, não acho a menor graça em ter que me esquivar de confusões e brigas feias, causadas pela bebida ou pelo ciúme de algum Zé Pereira.

Outrora já fui Pierrot. Hoje, talvez, Arlequim. Sempre com minha Colombina, por quem nunca perdi minha paixão carmesim. Para isso, sempre me esquivo pelos cantos. Liturgia. Tudo para não perder o encanto e entregar minha harmonia de bandeja para viver novas fantasias. E essa garoa que não dá trégua, inunda a passarela para guarda-chuvas e pessoas chulas. Assim como eu. Para diversão, quero as putas! Nos inferninhos que me levam ao céu por alguns minutos, a preço real. O troco da cerveja. Banal. Mas, para me casar, quero uma beata. Estas só são encontradas em retiro espiritual. O preço da pureza. E quem sou eu pra falar de espírito se o que se vê na avenida é apenas carnal? Vida que escorre por cada gota, que ecoa pelas batidas do tamborim, do repique ou do surdo. Eu, apenas mudo.

Quarta-feira de cinzas. O escárnio em forma de ironia. Nem tudo é sempre tão igual, mas no carnaval é a mesma coisa no final. Mais vítimas nas estradas, mas mortes embriagadas e tudo com muita astúcia desenfreada. Para virar espetáculo de mídia e aumentar a audiência especializada. Pra se esquecer da vida e virar pagão? Não. Sequer para virar sermão! É que não vejo mais graça em contar quantas meninas eu tracei na farra, quanta bebida eu entornei na alma e o quanto eu perdi, além de tudo o que eu já não tinha. Aliás, eu estou vazio de vaidade e cheio de incertezas exatas. Tanto quanto um copo de água benta, pela metade. É que lá se foi o verdadeiro carnaval e tudo isso é tipo etecétera e tal, com toda a permissão semântica e meu jeito de efêmero boçal.

fevereiro 7, 2008 at 8:12 pm 8 comentários


O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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