Adornando a Estibordo

janeiro 28, 2008 at 11:10 am 22 comentários

Viagem

Estava em transe, fora da realidade. Tudo para não voltar ao ócio. Tipo a inércia ou o óbvio. Um trago num bom balaio me deixou sentir o mito da ignorância, meu antídoto contra a falta de esperança. Ainda bem que sempre tem alguém para apontar os nossos defeitos antes do dono do bar reclamar que já é hora de fechar. E junto com o último gole, desceu todo o resto de solidão destilada em dose cavalar. Nada deteve o meu olhar no belo par de coxas daquela moça loira. Acho que o “senta aqui ao meu lado” saiu naturalmente, ou foi delírio etílico carente. Se eu fui à mesa dela ou ela veio até a minha, eu não lembro. Só sei que não era aeromoça, e sim comissária de bordo. Para mim tanto faz, não me importo. Já estava adornando a estibordo, sem titubear, preparando meu check-in para embarcar.

Confesso que sou um cara cheio de feitos eivo. Portanto, nem reagi quando ela me levou trôpego para o elevador rumo ao quarto. Ritmo ligeiro em efeito itálico. Um torto apressado em chegar atrasado, mais uma vez, no em seu encontro marcado com a saliência. Culpa do sangue coagulado nas veias e andares que não me levam a lugar nenhum. Só ao quarto. Juro que não sei como entrei, ou fiz algum truque picareta para enfiar o cartão-chave na porta e girar a maçaneta. Depois de tantas doses e tantos bafos é até difícil de se lembrar o quanto fiquei ébrio. Cama. Uma extensão do meu corpo que ama e se engana. É ali que eu lavo a alma e sujo o lençol. Lugar perfeito para se redescobrir sem me ferir com aquelas turbinas empinadas, quentes como o calor do sol. E por sarcasmo e ironia, balbuciei “Tripulação, preparar para a partida”.

Eu não tenho brevê, mas consigo prever as condições exatas que um piloto deve ter para fazer um Boeing decolar. Claro, sem horário para aterrissar. Horas que não me dão milhagem, mas que contabilizam viagens por lugares finitos, apenas à extensão do quarto. Planando com esmero e serviço de bordo completo. Impulsos de todas as posições, sustentando as nossas asas contra a força da gravidade. E era tanta energia que não havia resistência do ar. Altitude de cruzeiro, sem aviso de apertar os cintos ou medo de perder a pressurização da nossa cabine. Somente a nossa turbulência perfeita.

Antes mesmo da aurora, ela precisou ir embora. Pouso forçado por um despertador desgraçado que se transformou em torre de controle, solicitando o seu desembarque. Depois do banho, ajudei-a a vestir cada peça do seu uniforme. Prendeu os fios dourados de cabelo, maquiou-se e, antes de passar o batom, beijou-me lentamente. Passou a mão pela minha barba-por-fazer e se foi. Um tom de ‘Obrigado por ter voado conosco’ não foi necessário, pois, se eu fui dela ou ela foi minha, não me recordo. Só não posso esquecer que ela não é aeromoça, e sim comissária de bordo. Pois, volta e meia a gente se esbarra e embarca para fora da realidade. Tudo para não voltarmos ao ócio banal. Tipo a inércia ou o óbvio de ponte-aérea e coisa e tal.

Entry filed under: Ácidos.

‘Boa noite, Querida’ Lá Se Foi o Verdadeiro Carnaval

22 Comentários Add your own

  • 1. Ana Cláudia  |  janeiro 28, 2008 às 11:51 am

    Meu Deus, como você consegue escrever assim, tão tão tão
    Todas essas histórias nos faz viajar menino!
    kisses
    AC

    Responder
  • 2. Ane*  |  janeiro 28, 2008 às 2:33 pm

    Nossa!
    Muito bom, muito bom mesmo!
    Adoro essas viajadas!

    beijo!

    Responder
  • 3. elisabetecunha  |  janeiro 28, 2008 às 3:48 pm

    MARAVILHOSOOOOOOO!!
    BELA SEMANA!

    Responder
  • 4. Christiani Rodrigues  |  janeiro 28, 2008 às 4:04 pm

    Hehehehehe…essa vida ainda te mata!!!
    Vim te ler. Bjos

    Responder
  • 5. Manyukeh  |  janeiro 29, 2008 às 12:13 am

    Tá bom eu admito… to anos luz, e vc transborda talento..
    dito
    Bijos
    Many (cheia de vontade de acordar literata)

    Responder
  • 6. Rejane Borges  |  janeiro 29, 2008 às 1:37 am

    Olá meu caro, desculpe pela demora em passar por aqui, mas siab que fiquei muito feliz de te ver por lá, em meu blog. Acho-te tão talentoso que é sempre uma honra ler suas impressões sobre o que eu escrevo.
    Belo post esse, vc tem talento com as palavras! Gostei demais!

    abraços!

    Responder
  • 7. hemisfério norte  |  janeiro 29, 2008 às 8:58 am

    Olá Bruno. Sempre gentil nos comentários.
    Adorei essa foto aí
    Adoro tirar fotos acima das nuvens
    bjs
    a.

    Responder
  • 8. Daniel  |  janeiro 29, 2008 às 10:59 am

    Tá vendo… Por essas e outras que eu digo que Bruno Cazonatti é meu escritor preferido.
    Abraços!

    Responder
  • 9. Ly  |  janeiro 29, 2008 às 1:04 pm

    Viajei em quanto lia……só que me lembrei a primeira vez q meu antigo chefe foi no banheiro do avião e voltou pálido, achando que o vaso sanitário iria sugar o “principal dele”, enquanto ele fazia xixi, pq a sucção da descarga era poderosa…..AFF, olha o que eu fui lembrar, ninguém merece.

    bjs

    Ly

    Responder
  • 10. João Paulo  |  janeiro 29, 2008 às 4:24 pm

    É, meu caro! Acho que vc foi mais dela do que ela sua, mas assim, mesmo o bom é que aproveitaram.

    Um abraço,

    Responder
  • 11. B.  |  janeiro 30, 2008 às 5:08 am

    Queria saber qual é o seu segredo, afinal.
    E tenho que confessar que, se souber, vou roubar um pouco pra mim. Risos.

    Responder
  • 12. Aline  |  janeiro 30, 2008 às 1:45 pm

    Menino menino, como vc consegue transformar um noite de prazer etílico a uma narração tão cheia de metáforas aéreas heim? rs…
    Amei!

    Responder
  • 13. Liz  |  janeiro 30, 2008 às 2:28 pm

    Realmente muito inspirado! Pra quem não gosta de voar, bastar dar uma lida no teu texto antes de entrar num aviao, acho que ninguém dispensaria um vôo desses, nao é mesmo?!

    Responder
  • 14. Elton  |  janeiro 30, 2008 às 5:18 pm

    Tua imaginação é tão lisérgica que confunde-me entre a realidade e a ficção. Teu talento é inegável.
    20% da tua sabedoria e não estaria mais neste patamar cultural…
    ABÇ

    Responder
  • 15. Tati Collaro  |  janeiro 30, 2008 às 7:35 pm

    Boeing, piloto sem brevê, força da gravidade…
    Já viajei nesse texto…rsrs
    Beijo Beijo

    Responder
  • 16. B.  |  janeiro 31, 2008 às 7:01 am

    Tem mimo pra você lá no blog. 🙂

    Responder
  • 17. B.  |  fevereiro 1, 2008 às 6:37 am

    Eu acho… por que não achas?

    Responder
  • 18. Hélder  |  fevereiro 2, 2008 às 3:26 am

    Cara! Tu escreve bem demais!
    Viajei no avião agora…

    heheheh

    abraço.

    Responder
  • 19. Cristiano Santos  |  fevereiro 3, 2008 às 11:57 pm

    Parabens…. adorei…
    embarquei no seu texto rs
    sou obrigado a linkar
    abraços!

    Responder
  • 20. Juliana  |  fevereiro 5, 2008 às 12:15 am

    Adoro o jeito como você faz as rimas no texto.
    Vou te linkar, tá?

    Beijos.

    Responder
  • 21. Sônia  |  fevereiro 7, 2008 às 5:05 pm

    Isso é que é viagem, não?! rs…

    Abraço!

    Responder
  • 22. Marilia  |  março 29, 2008 às 2:50 pm

    Você escreve realmente muito bem.. Quem sabe um dia eu chego lá, não?
    Ah, vou linkar, se importa? 😀
    Beeijos

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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