‘Boa noite, Querida’

janeiro 21, 2008 at 11:11 am 24 comentários

trasnpirando

Ah, mulher. Cadê o feitiço de sereia que entoa canção da perdição? Efeito ligeiro, tempo feroz. Gozo, cheiro e prazer. Não apenas com você, tola. Apesar de seu corpo virtuoso maravilhoso, existem abrigos menos foscos. Nada relativo aos quartos de motel, onde as luzes ficam mais fracas para esconder as nossas sem-vergonhices. Mas já é a terceira vez que você vem aqui em casa. Não funciona assim! É apenas uma noite que não precisa ter fim. No dia seguinte, sóbrio, lhe quero bem longe de mim. Você e esses seios fartos lapidados pelos deuses. Afinal, o que você pode saber das dores que estão em mim? Nada! Então pra quê trazer suas coisas e achar que vai dormir comigo toda a semana? Sem mágoa, mas já estamos no limite. Essa é a nossa quinta trepada. Bebe mais uma taça e se embriaga, enquanto eu retiro o que resta desta minha roupa ingrata. E sem esse soutien meia-taça, rouba-me o juízo com seu aroma de mel e seu fel mestiço. Pêlos dourados pelo sol, que me tiram do sério e me fazem querer dar-lhe mais que um réquiem, menina. Mas você não merece nem a metade, guria. Toma o rumo da sala. Vai, me guia.

Só em lhe ver eu já lambo os beiços. Tara não muito rara para quem se acostumou a saciar todos os desejos da carne. Sexo. Quem não gosta? Debocha, eu não ligo. Nua eu lhe entrego meu corpo-abrigo. Só esta última noite, nem mais um dia. Sem muita candura nem frescura. Só a quentura exata para a nossa jornada fantástica até a quina da mesa. Sim, o ar condicionado está ligado. E nós estamos na condição do prazer suado, transpirando apenas o momento. Suspira, se ajeita. Agora em pé, lhe seguro contra a parede. Bruto? Só porque não lhe asseguro conforto. Engodo. A isca perfeita para jogar-lhe de encontro à cama. Sem drama. Cospe as palavras clichês e fica de quatro. Por cima? De lado? Ensina-me algo novo, pois parece replay de fato. Seu ritmo já não me alucina ou encanta. Geme. Treme como uma santa. Peque. Finja do jeito que for. Nada de novo você me mostrou.

Saia. Vista a sua saia. Junte o resto das roupas e peça um táxi. Você já deixou de ter ineditismo. Saia, já pedi. Saia desta vida que você leva, de perto deste homem que não presta e que lhe rouba um sentimento irreal. Vá para longe de mim. Sou descartável, feito de tudo que joguei fora. Como faço com você agora. Típico de qualquer pessoa que se aproxima e suga aquilo o que lhe conforta e é de interesse. Ou talvez, por puro deleite. Não, eu não sou reciclável e já experimentei a verdade que aprendi quando me perdi. E sempre me reencontro, ali e aqui. Mas, nunca fui de esperar muito, pois tenho tanto tempo pra perder com outras tantas por aí.

Mente, diz que é apaixonada por outro demente. Foge, corre para perto dos que preferem a sorte de um amor verdadeiro. Surreal e derradeiro. Viva com o manual fajuto da vida. Case, engravide, tenha filhos e um cachorro para distrair a monotonia. Consuma. Faça as compras do mês, pegue a lista de material escolar das crianças com a esperança de um valor mais ameno. Compre uma TV de plasma. Zapeie o controle remoto e sorria! Espere por um marido que lhe deseje ‘boa noite, querida’. Tipo os contos de fadas, com frases dubladas por personagens criados para satisfazer a sociedade. Eu sou apenas um marginal vivendo nos corações mais piedosos. Não me enquadro neste cotidiano banal. Destes que se acomodam com sua vidinha conjugal. Afinal, sou a eterna falha no seu dicionário de confiança. E não lhe dou nenhuma certeza grátis, pois nem tudo tem o preço em quilates. E o meu apreço quem paga são as sereias, que entoam a melodia da perdição. Essas jamais me cobram uma aliança na mão, ou um dia de sofá assistindo a estupidez na televisão. A próxima, por favor.

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Oração Repleta de Coreografia Adornando a Estibordo

24 Comentários Add your own

  • 1. alexndre  |  janeiro 21, 2008 às 11:32 am

    Cara…muito bom como sempre!
    Tenha uma ótima semana.

    Responder
  • 2. Manu  |  janeiro 21, 2008 às 10:01 pm

    Adoro a forma como vc escreve…

    Mas fiquei aqui pensando… Pq o “limite” já na quinta trepada? Alguma teoria?

    Bjus, Manu

    Responder
  • 3. Tati Collaro  |  janeiro 22, 2008 às 12:15 am

    Parede…………
    Texto excelente!!!!!!!! E ácido…
    bjus,
    Tati

    Responder
  • 4. Erika  |  janeiro 22, 2008 às 9:29 am

    Ótima a forma como vc coloca como se vc estivesse libertando ela, mas liberta a sí mesmo das amarras de uma provável aliança.

    Beijo

    Responder
  • 5. Alê Namastê  |  janeiro 22, 2008 às 4:26 pm

    Bravo!

    Responder
  • 6. camiles  |  janeiro 22, 2008 às 5:05 pm

    ui, totalmente bofe!
    adorei, bem parecido comigo.
    beijos

    Responder
  • 7. elisabetecunha  |  janeiro 22, 2008 às 6:03 pm

    DELICIOSO esse texto…….como sempre!
    dez!

    Responder
  • 8. Fernanda Alves.  |  janeiro 22, 2008 às 9:32 pm

    Ah, lógico que te perdoo, as coisas na minha vida tb estão sendo corridas e nem dá mto pra te prestigiar… estamos kits então!

    mas qnto ao texto…q delícia que são seus textos, dá até uma certa tristeza qndo acaba pq eu sempre fico esperando mais e mais histórias.

    bjos e mta inspiração
    té mais

    Responder
  • 9. João Paulo  |  janeiro 23, 2008 às 1:36 am

    Cada palavra desse texto explica a acidez poética, a qual intitulou seu blog. Cara, é impressionante o quanto vc é fantástico na composição textual; isso aumenta ainda mais a vontade de lê-lo.

    Ah, eu tb estou sempre passando nesse espaço mais que especial.

    Abração,

    Responder
  • 10. Amanda  |  janeiro 23, 2008 às 2:05 am

    pois acho que um dia você vai ser um marido desejando boa noite pra sua querida. todas as pessoas acham alguém que as tirem do sério e as façam viver de verdade.

    obrigada pela visita! 😉
    beijo!

    Responder
  • 11. hemisfério norte  |  janeiro 23, 2008 às 8:38 am

    Só tenho uma palavra: ADOREIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!!!!!!
    bjs
    a.

    Responder
  • 12. Ane*  |  janeiro 23, 2008 às 12:20 pm

    Nossa! Que foda esse texto! =)
    Ácido e certeiro…
    beijos!

    Responder
  • 13. Menina da Imprensa  |  janeiro 23, 2008 às 4:55 pm

    O que você escreve é… Belo, e pra poucos! Lindo mesmo… Obrigada pela visitinha no meu espaço, estou aos poucos agradecendo a todos e me desculpando pela falta de atualização que está quase chegando ao fim… Pelo visto somos dois “doidos” fazendo jornalismo mesmo conhecendo as atuais incertezas do mercado, e nos refugiamos no blog, transformando”cotidiano barato” em poesia, que graças a Deus, ao menos os amigos dizem ser boas…rsrsrs Kisses de chuva!

    Responder
  • 14. Carol Marossi  |  janeiro 23, 2008 às 6:46 pm

    Bruno, Bruno, você realmente sabe o que escreve!

    Beijoca.

    Responder
  • 15. Liz  |  janeiro 23, 2008 às 9:34 pm

    Bonjour,
    Gosto de visitar alguns blogs que não conheço, e que as vezes nem me indentifico muito, mas sempre que gosto do “desconhecido”, deixo um recadinho, e quem sabe depois a gente não fique trocando vistinhas, né?!

    Responder
  • 16. Tânia  |  janeiro 25, 2008 às 1:02 am

    “Boa Noite”
    dá para mergulhar no ambiente, sentir o aroma tal perfeição de texto…
    Mas não existe limite, ou o mesmo não depende, depende sim da ocasião…
    xiiiiiiii já devaneei no seu texto…
    Beijão

    Ps.: 2008 seja assim repleto de aventura…

    Responder
  • 17. daniel  |  janeiro 25, 2008 às 8:09 pm

    Como um bate-papo informal entre amigos que bebem chope na hora do almoço, pode virar um texto tão interessante?
    Continuo te “invejando”…Mas sabe que de maneira saudável né? Aprendendo e conhecendo um pouco mais os mistérios de uma boa escrita.
    Abraços moleque!

    Responder
  • 18. Juliana  |  janeiro 25, 2008 às 8:46 pm

    Caramba! Muito bom! Mesmo.
    O cara é um safado, mas tem um charme e tanto.
    Adorei!

    Bom fim de semana…

    Responder
  • 19. B.  |  janeiro 27, 2008 às 2:54 am

    Como sempre tu me deixando sem ar, sem palavras. Tu tens todas, fico sem nenhuma. Como sempre, eu sendo repetitiva. Mas o que dizer diante de tanto talento? Nunca vi, moço, um lirismo latente como esse em um texto teu. É uma das coisas mais lindas e frias que eu já vi. Paradoxos.

    Admirável, tu és.

    Responder
  • 20. Rosangela  |  janeiro 28, 2008 às 1:01 am

    Olá Bruno! Sempre bom o seu blog 🙂

    Abraços e boa semana!

    Responder
  • 21. Lucia  |  janeiro 28, 2008 às 4:11 am

    Bruno, que texto é esse!!
    Desceu rasgando…
    Mas fico pensando:
    o que dói mais, vidas e amores descartáveis ou uma segurança que vez ou outra amarra, prende?

    Não sei… mas o vazio de tudo aquilo que descartei tem doído amargamente em mim…

    Beijos

    Responder
  • 22. elisabetecunha  |  janeiro 29, 2008 às 10:15 pm

    Deixo beijos baianos!

    Responder
  • 23. BabiSoler  |  fevereiro 7, 2008 às 2:56 pm

    Liberta ela, liberta ela e a liberdade enfim.

    Responder
  • 24. Sônia  |  fevereiro 7, 2008 às 5:03 pm

    Hahaha! Incrível!
    Mas sinceramente, espero que você não seja assim.

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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