Oração Repleta de Coreografia

janeiro 14, 2008 at 10:52 am 9 comentários

Oração com Coreografia

Eu não pulei as sete ondas na virada do ano. Tudo bem que os fogos estouraram, as cores abrilhantaram o negro céu e as rolhas de champagne voaram pelo ar. Juro que não estava bêbado, mas as músicas repetitivas sem conteúdo, com aquele ritmo marcado por frases intercaladas ao modismo barato, me deixaram zonzo e nauseado. Não com as dançarinas usando aqueles shortinhos minúsculos, rebolando toda protuberância até o chão. Até porque não acredito que algum homem possa ter enjôo com todo aquele movimento instigante. Claro que devemos atentar sobre o papel da mulher na sociedade sem toda essa vulgaridade, mas não há espécie de macho que desvie os olhos do que lhe atiça a libido. Só os covardes.

O mar estava enrugado, todo crespo pelas ondas brandas de muitos agradecimentos e pedidos fartos ao findado e ao novo ano que acabava de chegar. Despido de qualquer preconceito, lembro-me de ter resmungado com minhas havaianas, sobre as inúmeras oferendas e flores brancas largadas na água. E também tinha barco com espelho e pente, tudo isso, de repente, para agradar à Iemanjá. Era gente de todas as classes e tipos, de vários poderes aquisitivos. Cada um com suas ambições e pregações. Mas eu, encolhido dentro de mim, refleti sentado na areia e olhei o céu pedindo o perdão pelos meus erros pagãos.

Mas tudo é sempre meio assim, esquematizado. Promessa de um novo regime e um pacto com Deus para tentar ser um cara mais ajuizado. Não para posar de puritano ou bendito. Longe disso! Pois sou tão pervertido que é capaz de o capeta pedir uma caneta emprestada para anotar as bobagens que faço durante essa minha vida-jornada. Mas é que eu sou assim desde que vivo novos anos, entende? Lentilha com arroz, mesa cigana com bombom e uvas para, logo depois, encerrar a mandinga com romã e muita arruda. Tradição de família, quase uma lei. E após o dia de Reis, a contagem regressiva é para os dias que faltam para começar a folia.

Já já é carnaval e ponho o meu bloco na rua. Espero que meu enredo seja melhor que os inúmeros sonetos que irei entoar. Mas agora uma dúvida me faz pensar. Será que o meu samba vai atravessar? E após esta primeira, outras tantas me vêm à cabeça. Inúmeros questionamentos que me remetem ao início da paz que encontrei sob os fogos no céu, sentado na areia da praia. Crendices da virada. Eu não pulei as primeiras sete ondas do ano, nem presenteei a rainha do mar. Mas, o que isso tem a ver com minhas ambições ou pregações? Sei lá! Só tenho a convicção que jamais viverei em vão e, antes de esconder meu rosto com a máscara de alguma fantasia, caio de joelhos no chão e faço minha prece em forma de poesia. Deus, Oxalá, Buda ou Alah! Cuido da espiritualidade sem reprimir tudo aquilo que me traz felicidade. E mesmo que eu não pule nos sete blocos em Ipanema, faço minha oração repleta de coreografia. Com confete abrindo ala para a minha alegria. Pois não existe espécie humana que resista a esta magia.

Entry filed under: Ácidos.

Essa Tal Sustentabilidade – Artigo Publicado no Caderno Razão Social – O Globo ‘Boa noite, Querida’

9 Comentários Add your own

  • 1. Alexandre Costa  |  janeiro 14, 2008 às 11:14 am

    É meu caro amigo…que suas orações coreografadas te levem a conquistas importantes em sua vida…esquecendo todas as tramas e bruxarias que os superticiosos se agarram a cada novo ano. O que ndevemos cultivar mesmo é a nossa capacidade de mudar e aprender…sempre!
    Feliz ano todo de 2008.

    Responder
  • 2. João Paulo  |  janeiro 14, 2008 às 3:30 pm

    Legal, Bruno!

    Me fez lembrar da “banda” buarquiana. Pra ver a banda passar é necessário juízo e, isso sei que vc busca sempre, principalmente por ser sensato.

    Valeu! Que em 2008 tenhamos cada vez mais belos textos como este.

    Abração,

    Responder
  • 3. elisabetecunha  |  janeiro 15, 2008 às 4:16 pm

    Bruno

    Não sabe como me agrada com seus textos!
    te admiro muito!

    Responder
  • 4. luana  |  janeiro 15, 2008 às 7:51 pm

    meu amigoo, alguem começou mui bem o ano?? Oo heim heim??
    massa viu? parabensss pelo destaque da coluna la 😉 eu acho bem merecido. Vc escreve mui bemm srito e eh sempre cm muito prz que leio os teus textos! :D:D

    um an dos melhores, bom e belo, pra tu! 🙂 cm muitos textos excelentes 😉

    x***
    inteh!
    namastÊ!

    Responder
  • 5. elisabetecunha  |  janeiro 17, 2008 às 8:30 pm

    saudade!
    🙂

    Responder
  • 6. cabriiiita  |  janeiro 18, 2008 às 1:20 am

    feliz ano novooo

    amarelinho nunca mais

    Responder
  • 7. Carol Marossi  |  janeiro 18, 2008 às 4:21 am

    Bruno, há quanto tempo não passava por aqui! Vida complicada nessas bandas, mas acho que logo apareço aí no Rio outra vez e talvez até me mude nesse primeiro semestre pra quase-maravilhosa, acredita?
    Ano novo, de novo.

    Beijos e bons ecritos esse ano.

    Responder
  • 8. Amanda  |  janeiro 20, 2008 às 11:30 pm

    também não pulei as 7 ondinhas, mesmo tendo passado na beira do mar.
    Quer saber? Não faz diferença.

    =)

    Responder
  • 9. Sônia  |  janeiro 21, 2008 às 10:39 am

    Eu resisto. Detesto carnaval!

    Tudo bem com você?

    Bom dia!!!

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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