Archive for janeiro, 2008

Adornando a Estibordo

Viagem

Estava em transe, fora da realidade. Tudo para não voltar ao ócio. Tipo a inércia ou o óbvio. Um trago num bom balaio me deixou sentir o mito da ignorância, meu antídoto contra a falta de esperança. Ainda bem que sempre tem alguém para apontar os nossos defeitos antes do dono do bar reclamar que já é hora de fechar. E junto com o último gole, desceu todo o resto de solidão destilada em dose cavalar. Nada deteve o meu olhar no belo par de coxas daquela moça loira. Acho que o “senta aqui ao meu lado” saiu naturalmente, ou foi delírio etílico carente. Se eu fui à mesa dela ou ela veio até a minha, eu não lembro. Só sei que não era aeromoça, e sim comissária de bordo. Para mim tanto faz, não me importo. Já estava adornando a estibordo, sem titubear, preparando meu check-in para embarcar.

Confesso que sou um cara cheio de feitos eivo. Portanto, nem reagi quando ela me levou trôpego para o elevador rumo ao quarto. Ritmo ligeiro em efeito itálico. Um torto apressado em chegar atrasado, mais uma vez, no em seu encontro marcado com a saliência. Culpa do sangue coagulado nas veias e andares que não me levam a lugar nenhum. Só ao quarto. Juro que não sei como entrei, ou fiz algum truque picareta para enfiar o cartão-chave na porta e girar a maçaneta. Depois de tantas doses e tantos bafos é até difícil de se lembrar o quanto fiquei ébrio. Cama. Uma extensão do meu corpo que ama e se engana. É ali que eu lavo a alma e sujo o lençol. Lugar perfeito para se redescobrir sem me ferir com aquelas turbinas empinadas, quentes como o calor do sol. E por sarcasmo e ironia, balbuciei “Tripulação, preparar para a partida”.

Eu não tenho brevê, mas consigo prever as condições exatas que um piloto deve ter para fazer um Boeing decolar. Claro, sem horário para aterrissar. Horas que não me dão milhagem, mas que contabilizam viagens por lugares finitos, apenas à extensão do quarto. Planando com esmero e serviço de bordo completo. Impulsos de todas as posições, sustentando as nossas asas contra a força da gravidade. E era tanta energia que não havia resistência do ar. Altitude de cruzeiro, sem aviso de apertar os cintos ou medo de perder a pressurização da nossa cabine. Somente a nossa turbulência perfeita.

Antes mesmo da aurora, ela precisou ir embora. Pouso forçado por um despertador desgraçado que se transformou em torre de controle, solicitando o seu desembarque. Depois do banho, ajudei-a a vestir cada peça do seu uniforme. Prendeu os fios dourados de cabelo, maquiou-se e, antes de passar o batom, beijou-me lentamente. Passou a mão pela minha barba-por-fazer e se foi. Um tom de ‘Obrigado por ter voado conosco’ não foi necessário, pois, se eu fui dela ou ela foi minha, não me recordo. Só não posso esquecer que ela não é aeromoça, e sim comissária de bordo. Pois, volta e meia a gente se esbarra e embarca para fora da realidade. Tudo para não voltarmos ao ócio banal. Tipo a inércia ou o óbvio de ponte-aérea e coisa e tal.

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janeiro 28, 2008 at 11:10 am 22 comentários

‘Boa noite, Querida’

trasnpirando

Ah, mulher. Cadê o feitiço de sereia que entoa canção da perdição? Efeito ligeiro, tempo feroz. Gozo, cheiro e prazer. Não apenas com você, tola. Apesar de seu corpo virtuoso maravilhoso, existem abrigos menos foscos. Nada relativo aos quartos de motel, onde as luzes ficam mais fracas para esconder as nossas sem-vergonhices. Mas já é a terceira vez que você vem aqui em casa. Não funciona assim! É apenas uma noite que não precisa ter fim. No dia seguinte, sóbrio, lhe quero bem longe de mim. Você e esses seios fartos lapidados pelos deuses. Afinal, o que você pode saber das dores que estão em mim? Nada! Então pra quê trazer suas coisas e achar que vai dormir comigo toda a semana? Sem mágoa, mas já estamos no limite. Essa é a nossa quinta trepada. Bebe mais uma taça e se embriaga, enquanto eu retiro o que resta desta minha roupa ingrata. E sem esse soutien meia-taça, rouba-me o juízo com seu aroma de mel e seu fel mestiço. Pêlos dourados pelo sol, que me tiram do sério e me fazem querer dar-lhe mais que um réquiem, menina. Mas você não merece nem a metade, guria. Toma o rumo da sala. Vai, me guia.

Só em lhe ver eu já lambo os beiços. Tara não muito rara para quem se acostumou a saciar todos os desejos da carne. Sexo. Quem não gosta? Debocha, eu não ligo. Nua eu lhe entrego meu corpo-abrigo. Só esta última noite, nem mais um dia. Sem muita candura nem frescura. Só a quentura exata para a nossa jornada fantástica até a quina da mesa. Sim, o ar condicionado está ligado. E nós estamos na condição do prazer suado, transpirando apenas o momento. Suspira, se ajeita. Agora em pé, lhe seguro contra a parede. Bruto? Só porque não lhe asseguro conforto. Engodo. A isca perfeita para jogar-lhe de encontro à cama. Sem drama. Cospe as palavras clichês e fica de quatro. Por cima? De lado? Ensina-me algo novo, pois parece replay de fato. Seu ritmo já não me alucina ou encanta. Geme. Treme como uma santa. Peque. Finja do jeito que for. Nada de novo você me mostrou.

Saia. Vista a sua saia. Junte o resto das roupas e peça um táxi. Você já deixou de ter ineditismo. Saia, já pedi. Saia desta vida que você leva, de perto deste homem que não presta e que lhe rouba um sentimento irreal. Vá para longe de mim. Sou descartável, feito de tudo que joguei fora. Como faço com você agora. Típico de qualquer pessoa que se aproxima e suga aquilo o que lhe conforta e é de interesse. Ou talvez, por puro deleite. Não, eu não sou reciclável e já experimentei a verdade que aprendi quando me perdi. E sempre me reencontro, ali e aqui. Mas, nunca fui de esperar muito, pois tenho tanto tempo pra perder com outras tantas por aí.

Mente, diz que é apaixonada por outro demente. Foge, corre para perto dos que preferem a sorte de um amor verdadeiro. Surreal e derradeiro. Viva com o manual fajuto da vida. Case, engravide, tenha filhos e um cachorro para distrair a monotonia. Consuma. Faça as compras do mês, pegue a lista de material escolar das crianças com a esperança de um valor mais ameno. Compre uma TV de plasma. Zapeie o controle remoto e sorria! Espere por um marido que lhe deseje ‘boa noite, querida’. Tipo os contos de fadas, com frases dubladas por personagens criados para satisfazer a sociedade. Eu sou apenas um marginal vivendo nos corações mais piedosos. Não me enquadro neste cotidiano banal. Destes que se acomodam com sua vidinha conjugal. Afinal, sou a eterna falha no seu dicionário de confiança. E não lhe dou nenhuma certeza grátis, pois nem tudo tem o preço em quilates. E o meu apreço quem paga são as sereias, que entoam a melodia da perdição. Essas jamais me cobram uma aliança na mão, ou um dia de sofá assistindo a estupidez na televisão. A próxima, por favor.

janeiro 21, 2008 at 11:11 am 24 comentários

Oração Repleta de Coreografia

Oração com Coreografia

Eu não pulei as sete ondas na virada do ano. Tudo bem que os fogos estouraram, as cores abrilhantaram o negro céu e as rolhas de champagne voaram pelo ar. Juro que não estava bêbado, mas as músicas repetitivas sem conteúdo, com aquele ritmo marcado por frases intercaladas ao modismo barato, me deixaram zonzo e nauseado. Não com as dançarinas usando aqueles shortinhos minúsculos, rebolando toda protuberância até o chão. Até porque não acredito que algum homem possa ter enjôo com todo aquele movimento instigante. Claro que devemos atentar sobre o papel da mulher na sociedade sem toda essa vulgaridade, mas não há espécie de macho que desvie os olhos do que lhe atiça a libido. Só os covardes.

O mar estava enrugado, todo crespo pelas ondas brandas de muitos agradecimentos e pedidos fartos ao findado e ao novo ano que acabava de chegar. Despido de qualquer preconceito, lembro-me de ter resmungado com minhas havaianas, sobre as inúmeras oferendas e flores brancas largadas na água. E também tinha barco com espelho e pente, tudo isso, de repente, para agradar à Iemanjá. Era gente de todas as classes e tipos, de vários poderes aquisitivos. Cada um com suas ambições e pregações. Mas eu, encolhido dentro de mim, refleti sentado na areia e olhei o céu pedindo o perdão pelos meus erros pagãos.

Mas tudo é sempre meio assim, esquematizado. Promessa de um novo regime e um pacto com Deus para tentar ser um cara mais ajuizado. Não para posar de puritano ou bendito. Longe disso! Pois sou tão pervertido que é capaz de o capeta pedir uma caneta emprestada para anotar as bobagens que faço durante essa minha vida-jornada. Mas é que eu sou assim desde que vivo novos anos, entende? Lentilha com arroz, mesa cigana com bombom e uvas para, logo depois, encerrar a mandinga com romã e muita arruda. Tradição de família, quase uma lei. E após o dia de Reis, a contagem regressiva é para os dias que faltam para começar a folia.

Já já é carnaval e ponho o meu bloco na rua. Espero que meu enredo seja melhor que os inúmeros sonetos que irei entoar. Mas agora uma dúvida me faz pensar. Será que o meu samba vai atravessar? E após esta primeira, outras tantas me vêm à cabeça. Inúmeros questionamentos que me remetem ao início da paz que encontrei sob os fogos no céu, sentado na areia da praia. Crendices da virada. Eu não pulei as primeiras sete ondas do ano, nem presenteei a rainha do mar. Mas, o que isso tem a ver com minhas ambições ou pregações? Sei lá! Só tenho a convicção que jamais viverei em vão e, antes de esconder meu rosto com a máscara de alguma fantasia, caio de joelhos no chão e faço minha prece em forma de poesia. Deus, Oxalá, Buda ou Alah! Cuido da espiritualidade sem reprimir tudo aquilo que me traz felicidade. E mesmo que eu não pule nos sete blocos em Ipanema, faço minha oração repleta de coreografia. Com confete abrindo ala para a minha alegria. Pois não existe espécie humana que resista a esta magia.

janeiro 14, 2008 at 10:52 am 9 comentários

Essa Tal Sustentabilidade – Artigo Publicado no Caderno Razão Social – O Globo

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É mole? Agora qualquer um pode escrever no Globo?

Não! Isso é coisa de quem está trabalhando bastante para vencer na vida e, aos poucos, os frutos são colhidos. Este convite para escrever no Caderno Razão Social é gratificante, além de me dar uma grande visibilidade no mercado, é uma prova do reconhecimento ao meu trabalho no âmbito da Responsabilidade Social.

Obrigado Amélia Gonzalez, editora e parceira na luta pelo desenvolvimento sustentável do planeta!

janeiro 7, 2008 at 12:43 pm 13 comentários


O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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Às vezes balbucio algo no Twitter:

  • Aos trancos e barrancos, isso aqui é @Flamengo! 2 weeks ago
  • O @Flamengo não jogou NADA o ano inteiro. Não tem poder de decisão algum. Mas vamos lá nos iludir com o "ano mágico 2018". 2 weeks ago
  • Vamos torcer pros caras honrarem o polpudo salário em dia e classificar nessa competição pra, ao menos, termos um prêmio de consolação 2 weeks ago
  • Parece que as pessoas se contentam com a porra de um Carioca e acha que o resto vem na sorte, vem no "deixa a vida me levar"... 2 weeks ago
  • Quase não tenho usado o Twitter, porque me torno repetitivo e parece que os meses, os anos, não passam. Tudo a mesma coisa. 2 weeks ago