Malditas Cafeteiras Mentirosas

dezembro 18, 2007 at 11:10 am 17 comentários

Malditas Cafeteiras Fixado, posto de lado. Grudado. Criando raízes, enjaulado pelo sistema, em meio ao nada. Eu e a TV controlados pelo remoto ócio. Sentado de pernas pro ar, na cama ou no sofá, onde nem brisa branda passa e refresca. Somente a poeira me leva a um louco pensamento vago e vazio, inerte ao que me remete aos comerciais saudáveis da margarina sem gorduras trans. Tudo em promoção, até a minha alma sã. Sem gula, sem fome de ontem, sem fé no amanhã. Prefiro o cadarço desamarrado e o meu short de moletom furado que ganhei de meu bisavô naquele natal de 1984. Sem camisa, peito nu e barriga ao relento. Meus olhos um tanto quanto remelentos, esboçando a insônia de acordar para uma nova biografia. Acabou a libido e o sexo foi bom há algumas horas atrás. Sem tesão não existe nada pra me enxotar dali num choque de alta tensão, com mais de mil volts de evolução neuro-psicodélica.

Ah, se o mundo fosse além dessa verdade banal, seria bom sentir alguém me fazer o bem tão mal! Com direito a choro e mágoa. Ou uma garrafa de ponche pra tomar um porre de tudo que é fútil e que sacia a minha embriaguez vasta. O Raul Seixas me cantou uns versos velhos que são tão atuais, capazes de durarem até a próxima encarnação de Gandhi. Viés denso, encorpado. Como os campos repletos de soja, a força em forma de mato, que vira energia para um mundo ingrato. Culpa da indecência capitalista e da indústria petrolífera, que suga da terra seu sangue e aura, como se tirasse o café, como quem prometesse novos pães às famintas almas. Talvez o discurso aliene aqueles que acreditam num novo esplendor. Louvor! Malditas cafeteiras mentirosas. Prefiro o bule, ebulição de novas idéias que trazem ações eficazes para este novo embate. E eu, um mero mortal deste sistema boçal, continuo futucando o controle remoto procurando respostas no noticiário que me dita o que convém, o que é lícito ao desdém.

Não liga não! Eu mesmo não paguei a conta e cortaram o fio com a mesma navalha que rasgaram o meu peito, para entubar as ações do Estado. Prefiro estar excluído e não dar nem um pio sobre o que pensam a respeito de mim neste estado frágil, decadente. Não por culpa ou omissão, mas por minha força estar entre o vão do querer e o poder. Prefiro o pudor, uma ninfa nua e muitas horas de amor. Sem compromisso. Só umas gotas de orvalho e pedaços de queijo suíço. E assim, consigo encontrar as cores carmim a cada trago no cigarro mentolado com gosto de alecrim. E eu choro, murmuro e imploro: ‘vai embora, cadela!’ E ela nem me dá bola, pega a grana do pago-amor e some por entre as vielas. Eu quero que tudo se dane, pois mesmo que eu me engane, foi assim que aprendi a amar. Lástima. Eu posso encontrar alguma resposta no último gole em um copo cheio com as minhas lágrimas. Doces. Como essa minha insensatez salgada, que me dá a resposta exata e elucida que apenas sou verdadeiramente livre nestes meus pensamentos suicidas.

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Mesmo que acabe tarde, a sintonia nunca tem fim. Do Chester ao Peru

17 Comentários Add your own

  • 1. Ana Cláudia  |  dezembro 18, 2007 às 6:48 pm

    Sensacional, moço
    beijos

    Responder
  • 2. Anônimo  |  dezembro 18, 2007 às 8:24 pm

    Que delícia receber um comentário seu. Eu sempre venho aqui me deliciar com seus escritos. Adoro ler-te, sempre! Venha mais vezes, é uma honra! Adorei o texto, moço!
    Mil beijos

    Responder
  • 3. Renne Boz  |  dezembro 18, 2007 às 8:25 pm

    Que delícia receber um comentário seu. Eu sempre venho aqui me deliciar com seus escritos. Adoro ler-te, sempre! Venha mais vezes, é uma honra! Adorei o texto, moço!
    Mil beijos

    Responder
  • 4. Girassol  |  dezembro 18, 2007 às 10:39 pm

    Saudades imensas de passar por aqui e deliciar-me com os teus textos fabulosos!

    Uma óptima semana.
    Beijos.

    Responder
  • 5. Andre Rafael  |  dezembro 19, 2007 às 12:01 pm

    Excelente texto.

    Responder
  • 6. Amanda  |  dezembro 19, 2007 às 4:49 pm

    leia um livro, vai te fazer bem…
    obrigada pelo comentário! 😉

    Responder
  • 7. camiles  |  dezembro 20, 2007 às 5:16 pm

    texto lindo!
    fiquei até mal de trabalhar em tv…
    mas somos parecidos. o fundo do copo ajuda muito, faz tudo ficar mais leve!
    beijos

    Responder
  • 8. Márcia(clarinha)  |  dezembro 20, 2007 às 6:57 pm

    E caio no lugar comum de todo dia, dizer que achei sensacional!
    Poetinha querido, meu desejo de felizes festas, Natal de paz, amor, harmonia e saúde.
    dias lindos
    beijos

    Responder
  • 9. elisabetecunha  |  dezembro 21, 2007 às 12:21 am

    Querido
    sempre escrevendo maravilhosamente!

    FELIZ NATAL DE CORAÇÃO!

    Responder
  • 10. Alexandre Costa  |  dezembro 21, 2007 às 1:39 pm

    Um feliz natal meu caro.
    Pega lá uma lembrança na fábrica pra vocÊ!

    Responder
  • 11. Fina Flor  |  dezembro 21, 2007 às 4:37 pm

    a sua é salgada e a minha é de pimenta, rs*

    querido, passo para deixar meu beijo de fim de ano e dizer que desejo os melhores aromas, amoras, amores, brilho e brisa para o ano que está para acontecer.

    até,

    MM.

    Responder
  • 12. Edna  |  dezembro 21, 2007 às 10:10 pm

    Feliz Natal para você!
    Beijos

    Responder
  • 13. João Paulo  |  dezembro 21, 2007 às 11:53 pm

    Às vesperas do Natal reverberarmos um texto assim, aconselho que veja ao filme Paradise Now, nem vi ainda, mas pelo comercial que minha esposa fe vale à pena, muito.

    Talvez valorizemos mais os pequenos detalhes.

    Abração,

    Responder
  • 14. Rubina  |  dezembro 22, 2007 às 12:00 am

    Vim desejar um bom natal e um ano novo fantástico 🙂

    Responder
  • 15. Renne Boz  |  dezembro 22, 2007 às 2:21 am

    Um Feliz Natal e ano novo cheio de esperança.
    Grande beijo

    Responder
  • 16. Erika  |  dezembro 23, 2007 às 10:50 am

    Deixo aqui um beijo estalado e um abraço apertado e o desejo de que seu Natal e dos que vc ama seja iluminado e o Ano Novo cheio de amor.

    Responder
  • 17. Lucia  |  dezembro 25, 2007 às 5:44 am

    Entendo esse sentimento, moço… E venho procurando por ‘quem’ anda roubando meu sangue. Por ‘quem’ anda roubando minha aura…

    Bem, passando pra desejar boas festas a quem é de festa, bom feriado a quem quer descansar, e que venha 2008 cheio de promessas que se realizem!

    Beijos

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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