Eu Sou Tudo Aquilo Que Meus Amores Levam de Mim

novembro 28, 2007 at 7:21 pm 18 comentários

Tudo o que levam de mim Embaixo da mangueira, deitado na rede olhando o mar. Era ali que eu gostava de esboçar idéias para escrever aos meus amores ligeiros, todo o meu jeito de pensador matreiro. Mesmo que de forma leviana, claro. Nem sempre posso ser romântico, mas ninguém nunca entendeu isso. Não posso é esquecer-me de algum caminhar na beira d’água, pisando de leve na areia e deixando as ondas lamberem as minhas canelas. Conquisto alguma deusa mestiça e após o almoço, sirvo-lhe aquele velho chá de sempre. Sabor de menta, que aumenta o apetite das línguas que se encontram para incendiar o corpo carente. Tudo igual novamente. O carinho que afaga a alma vai até a hora em que ela esboça alguma idéia sobre ‘se casar’ e ‘ter filhos’. Pronto! O sonho acabava. Era assim com todas. Tolas. E cada uma que saía pela porta, deixava um pedaço de poesia mestiça em mim. E só.

A cadeira de balanço velha me confortava. Apesar de algumas falhas no trançado das palhas, é sempre um aconchego. Basta me acomodar, acender uma ponta de erva e viajar olhando a maré encher. Eu ainda conservava aquela velha vitrola e o meu vinil predileto, já um pouco arranhado pelo uso em demasia. A agulha sempre deslizava até a voz pacífica do Bob Marley. Era a trilha sonora perfeita para o meu alívio e satisfação. A maresia invadia junto ao vai e vem do balanço seguido de um rangido nhéc-nhéc da cadeira e o som rasteiro dos Wailers. Não, nada de lamentações no meu toca-discos! Óleo de cozinha para o barulho resolvia e, para curar os males, a kaya-alegria. Eu ficava horas assim. Até de manhã, esperando o sol invadir e me raiar uma nova moça-paixão.

Tirando o combustível da minha caminhonete, eu não gastava dinheiro com nenhum tipo de álcool. Preferia me embriagar com a natureba híbrida de mar, sol e as ondas em todas as sintonias. A chuva era essencial para abençoar a terra e regar minhas mudas de orquídeas. Era um bom enfeite para o entorno da minha cabana-morada. Bacana mesmo eram as esculturas na areia moldadas a cada subida de onda. Eu sempre me esqueço de lavar as pontas amareladas dos dedos. O fumo até que me faz bem, mas aos olhos de outrem, às vezes é pecado ou desdém. Aos meus, traz vermelhidão também. Por isso, o nome do motel gravado no cinzeiro de porcelana sempre fica turvo, devido à dança da fumaça e os reflexos de minha memória honesta, escassa.

Eu nunca transei naquela cadeira de balanço. Acho um sacrilégio! Vovó me ninou ali e minha mãe me amamentou cantarolando as melodias mais castas. Tudo bem que eu estou longe de ser um puritano, mas respeito à memória e as histórias vividas a cada movimento que existiu neste lugar. Deixar qualquer mulher sentar nela, não! Mas, sair do recinto sem a menor pretensão de abandonar o local em perfeito estado de disciplina ingênua está fora de cogitação. Para foder tem cama, grama, dunas, ducha, rede, pia, quina da lua ou qualquer lugar entre as estrelas. Tudo que sirva de esquecimento quando, amanhã, eu acordar cedo e lúcido. Eu já terei me esquecido de tudo.

A verdade é que a harmonia da vida se encontra nas pequenas coisas. E nem o cinzeiro é capaz de mostrar isso, muito menos os amores pagãos que deixam as pegadas na areia da minha praia. Porque eu sou tudo aquilo que meus amores levam de mim. Mas deles, eu só me lembro em insights ligeiros de memória. Exatamente quando o toca-discos começa a fazer ruído, com aquele barulho vazio de quem precisa trocar o lado do vinil. Porque os amores passageiros pedem uma mudança de faixa. Troca-se o disco, até mesmo a rotação. A melodia fica na mente. Assim como o silêncio de cada amor que só me recordo quando estou aqui na rede, embaixo da mangueira. Até porque eu sou tudo aquilo que meus amores levam de mim. Mas tenho o mar para me trazer novas ondas e novas maneiras de amar.

Entry filed under: Ácidos.

Somos Todos Escravos Desse Vício Barato Mesmo que acabe tarde, a sintonia nunca tem fim.

18 Comentários Add your own

  • 1. Ana Cláudia  |  novembro 28, 2007 às 7:42 pm

    Bruno! Sensacional, maravilhoso.
    To sem palavras.
    Amar o mar

    beijos querido!

    Responder
  • 2. Erika  |  novembro 29, 2007 às 10:03 am

    Vira-se o disco, troca-se a faixa.. amor de vinil…. passageiro… é moda, apesar de toda tecnologia.

    Pena.

    Beijos

    Responder
  • 3. Flávia  |  novembro 29, 2007 às 4:04 pm

    Bruno, que coisa doce esse texto!! Apaixonante como esse mar que leva e traz os amores…

    Beijos!

    Responder
  • 4. Diana  |  novembro 29, 2007 às 7:41 pm

    Ah,mistura de cheiro de mar, com gosto de chá de menta e sombra de mangueira. Palavras sinceras e ácidas em sua tarde colorida com o pôr-do-sol. Esse assumo que foi o melho texto que até hoje li do seu blog.

    Responder
  • 5. Fuini  |  novembro 29, 2007 às 11:32 pm

    Nossaaaa, fazia um século que não passava por aqui! Vc, como sempre, inspirado!

    Olha lá o meu que eu atualizei (ou seja, criei vergonha na cara! rsrs)

    bjos

    Responder
  • 6. cabrita  |  novembro 30, 2007 às 10:56 am

    eu até ia ler..
    eu até ia comentar.
    mas, ja vou tarde……

    Responder
  • 7. hemisfério norte  |  novembro 30, 2007 às 4:22 pm

    danadinho, vc, hein? Hum chá de menta faz isso????? Foi bom imaginar tudo ao som de Bob Marley e com cheiro a maresia.
    bjs
    a.
    🙂

    Responder
  • 8. Fernanda Alves  |  dezembro 1, 2007 às 1:41 pm

    Nossa… td de bom! É incrível: “Sou tudo aquilo que meus amores levam de mim”. Lindo msmo seu texto, mar, chá de menta, Bob Marley…

    Até mais, farei mais visitas!

    Bjos e mta inspiração.

    Responder
  • 9. christiani.rodrigues  |  dezembro 3, 2007 às 12:57 am

    No fundo, no fundo tu ‘es um rom^antico incur’avel . bjos

    Responder
  • 10. alexandre  |  dezembro 3, 2007 às 3:06 pm

    “A harmonia sem encontra nas tuas letras. Perfeito meu caro!

    Responder
  • 11. elisabetecunha  |  dezembro 3, 2007 às 11:38 pm

    Passando pra te dar um beijo!

    saudades!

    maravilhosooooooooooo

    Responder
  • 12. Julio Lagedo  |  dezembro 4, 2007 às 1:02 pm

    Bruno, você é fantástico seu crápula.

    Cada texto seu, é mais um parte sua que carrego em meu coração, sempre com muito amor…emocionado

    Beijos do seu irmão de luz

    Responder
  • 13. ELIANA.  |  dezembro 4, 2007 às 8:48 pm

    Oi Bruno, tudo bem?…mas que lindo o que você escreveu hoje!!Está demais!!Adorei!!Parabéns!!Você está cada vez melhor!!Tudo de bom a você, meu amigo!!Beijos!!

    Responder
  • 14. João Paulo  |  dezembro 5, 2007 às 12:21 am

    Se levam, levam alguma coisa e, isso só é possível quando temos algo para oferecer.

    Parabéns por ter algo para que o outro leve, a amizade, o carisma, o respeito, a dedicação… quando temos algo para que levem é sempre um caminho para receber um retorno.

    Abração,

    Responder
  • 15. Amanda  |  dezembro 5, 2007 às 1:56 pm

    gostei, muito bom.
    😉

    Responder
  • 16. Lucia  |  dezembro 6, 2007 às 4:12 am

    Era tudo o que eu queria agora: deitar numa rede e olhar o mar embaixo de uma mangueira. E seu texto acabou me levando de alguma forma pra lá, me fazendo perder nas ondas, outra vez, os amores que vêm e que vão sem deixar nada. A vida anda me pedindo tão mais do que amores ligeiros…

    O texto, pra variar, muito bem escrito! Adoro passar por aqui.

    Beijos

    Responder
  • 17. luana  |  dezembro 8, 2007 às 2:09 am

    pra variar, mais um excelente texto..:)
    me lembrei de algumas coisas enquanto lia..”quando a maré encher..” isso eh musica sabia? hahahaha
    😀
    olhe..se eu ja tava cm vontade de uma redinha, casa de praia..mar..sol/lua.. agora entao!!! que cruel viu srito?mas cm vc poderia adivinhar neh? uhuhuhhh
    gostei do final..esse jeito meio safado de ser diz algo sim, que no funfo no fundo há controversias..Oo uhuhuhuh esse seu eu-lirico iuhdiudhiudhiudhiudhidiudhiudhud :xx

    x**
    namastê!
    ps: blog de ferias, que nem euu!!

    Responder
  • 18. B.  |  dezembro 10, 2007 às 2:32 am

    Sempre perfeito, sempre me surpreendendo.
    Um dos melhores textos que já li aqui, com certeza.

    Beijo meu.

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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