Somos Todos Escravos Desse Vício Barato

novembro 16, 2007 at 7:53 pm 26 comentários

Escravos dos vcios Debruçado sobre o parapeito, observo o vai e vem dos carros e dos reféns andarilhos. Um deslize, ou desequilíbrio, podem me levar lá pra baixo. Talvez possa ser bem mais divertido. Não sei. Só vejo transeuntes órfãos sem tempo essencial para ver a beleza das cores na vida. Culpa do relógio e da reunião atrasada em seus escritórios. Mundinho estranho o nosso. As pessoas só percebem as árvores quando algum passarinho, escondido entre os galhos, caga em seus ternos ou vestidos de grife. Inclusive eu, que estou sem tempo de matar as seis cervejas que estão a um mês no freezer. Ainda não fui alvejado pelas aves e sei que por aqui não cai nenhum floco de neve. Se o ombro estiver branco, culpo a gravidade. Anormal seria se as minhas roupas estivessem limpas após toda semana de chuva. Aproveitei o dia sem sol para colocar algumas no varal. Chegar pingando em casa serve para que as gotas escoem pelo ralo e as idéias escorram pela mente. Um mês e algumas horas sozinho. Agora é só esperar ela chegar do trabalho e, novamente, dividir a mesa do jantar comigo. É verdade que não sei cozinhar, mas aprendi a discar para o restaurante italiano e pedir uma massa. Ela nem vai notar que não é o meu tempero, desde que eu jogue toda a embalagem fora.

Chega desta história de sexo. Eu preciso fazer amor. Necessito parar imediatamente de vagar nessa dúvida. Devagar indagar. Eu ainda sou o homem capaz de fazê-la querer me ter? Ou meter só por prazer? Tudo o que eu posso fazer, por enquanto, é me render. Eu sou apenas um garoto excitado com as coisas que aprendi vendo televisão. Na verdade estou me sentindo um hamster, correndo nesta roda dentro da gaiola chamada relacionamento. Pílulas, drogas e um pouco de ração têm me deixado meio paranóico e inquieto. Nada que a presença dela não cure. Só espero que a macarronada não esfrie, pois o microondas queimou semana passada. Vou deixar um blues rolando e fazer a barba. Ela ainda deve gostar de Clapton e da minha cara de bebê. Aquela camisa que ela me deu de aniversário vai cair bem hoje, melhor do que a decoração ridícula da sala de estar. Eu juro que quero mudar, sair desta prisão para um imenso espaço vazio. De dentro para fora, trilhando novos caminhos, vivendo as sensações que não são as mesmas de ontem. Sem aquela melodia clichê na música que fala de amor, sempre nas madrugadas em que estamos sozinhos. Somos todos escravos desse vício barato.

É a primeira vez que fiquei feliz ao escutar o interfone. Ela estava subindo. Ao vê-la entrar, meu peito se inflamou mais uma vez com alegria. Seu sorriso invadiu, recarregou a minha felicidade. Sem mais perguntas ou necessidades. Apenas o abraço e o beijo bastaram. Escancarou a porta e saciamos as vontades. Mesa posta, massa quente. Minto sobre o molho. Coisa de um dissimulado cozinheiro matreiro. Ela sorriu, degustou a refeição e se fartou do meu contentamento ao revê-la. Até confessou que um dia, algum passarinho cagou em seu terninho. Sinal de sorte. Sabia que a comida era encomendada e que o vinho era presságio para o nosso mergulho no amor. Bom pro nosso estômago, excelente para reatar os laços do coração. Não precisou falar nada, ela apenas assoprou as velas. O alívio da luz apagada escondeu minhas lágrimas pela emoção de sua volta a nossa cama. A sensação era de tudo novo de novo, sem perda de tempo para conhecer a saudade. E, enquanto ela descansa, vou para a sala. Debruço no parapeito, acendo meu cigarro e observo o vai e vem da fumaça. Lá embaixo, um abismo. Talvez a gravidade e o tempo possam me derrubar qualquer dia. Não hoje. Pois a tenho de volta para me segurar. Volto para a nossa cama. Encaixo-me em seu corpo e seguro as suas mãos. Assim me sinto mais seguro. Agarro-me por entre seus dedos para nunca mais largar.

Entry filed under: Ácidos.

Sou Levado Muito mais pela Vontade, que pelo Álcool paraguaio Eu Sou Tudo Aquilo Que Meus Amores Levam de Mim

26 Comentários Add your own

  • 1. lunna  |  novembro 17, 2007 às 12:32 am

    Talvez o tempo e a gravidade? (…)
    A intensidade em seus textos me trazem aquele desconforto gostoso que faz com que eu me acomode melhor na cadeira e sinta as veias pulsarem.
    A noite pede um vinho ao ler suas palavras.
    Bom final de semana…

    Ps. Você não enviou o texto para o Coletânea. Coisa feia isso, heim? Mas já está no ar a quinta edição (sem você) – quem sabe na sexta, não é?

    Responder
  • 2. Lucia  |  novembro 17, 2007 às 9:24 am

    Bonitos, o texto e o jeito como você joga com as palavras. Se fosse comparar a alguma coisa, seria ao brutalismo arquitetônico: entranhas aparentes, verdade estrutural, força e certa dose de simplicidade que acaba sendo sofisticada. Adoro passar por aqui!

    Beijos e bom fim de semana!

    Responder
  • 3. hemisfério norte  |  novembro 17, 2007 às 10:27 am

    uhau!!!
    Adorei a sua escrita e os argumentos.
    Vou linkar vc.

    bjs de Portugal

    Responder
  • 4. alexandre  |  novembro 17, 2007 às 1:58 pm

    Cara…que texto…pude ver enquanto lia a sua histótia. Demais…como sempre!
    Abraços!!!!

    Responder
  • 5. ELIANA.  |  novembro 17, 2007 às 5:27 pm

    Oi Bruno, tudo bem?Puxa, mas que texto, viu!!Adorei!!Parabéns!!Você sempre com essas idéias tão…demais!!Adoro ler os seus textos!!Bruno desejo a você uma ótima noite e um excelente domingo!!Um abração!!

    Responder
  • 6. David Santos  |  novembro 17, 2007 às 5:48 pm

    Por favor!
    Ajuda a que se faça Justiça a Flávia. Se és um ser com sentimentos, ajuda!
    Eu jamais invadirei teu blogue, garanto! Mas ajuda.
    Repara bem: eu, tu, seja quem for, tem nosso pai, nossa mãe, nosso irmão ou irmã, ao longo de 10 anos em coma, que vida será a nossa?
    Se não tivermos a solidariedade de alguém com sentimentos, que será de nós?

    TEMPO SEM VENTO

    Ah, maldito! Tempo,
    Que me vais matando,
    Com o tempo.
    A mim, que não me vendi.
    Se fosses como o vento,
    Que vai passando,
    Mas vendo,
    Mostrava-te o que já vi.

    Mas tu não queres ver,
    Eu sei!
    Contudo, vais ferindo
    E remoendo,
    Como quem sabe morder,
    Mas ainda não acabei
    Nem de ti estou fugindo,
    Atrás dos que vão correndo.

    Se é isso que tu queres,
    Ir matando,
    Escondendo e abafando,
    Não fazendo como o vento:
    Poder fazer e não veres
    Aqueles que vais levando,
    Mas a mim? Nem com o tempo!

    David Santos

    Responder
  • 7. Diana  |  novembro 17, 2007 às 6:31 pm

    Já senti o gosto do ácido, do amargo, da bebida barata, do café e hoje o do molho de macarrão. Sempre invadindo meu paladar e meus olhos com palavras diretas e linhas retas e sinceras.
    Mais uma vez
    Parabéns!

    Responder
  • 8. Renne Boz  |  novembro 17, 2007 às 9:54 pm

    Seu texto me fez desejar ser tão mais amada. Parabéns por ele.
    Um grande abraço.

    Responder
  • 9. luana  |  novembro 18, 2007 às 10:11 pm

    non acredito?? um final diferente?? nossa, fiquei feliz agora!
    senti que tudo eh possivel..hohoho 😉

    otimo texto, pra variar né? x)
    acho que toda a saudade eh compensada nesses momentos, tudo vale a pena..
    pois eh pois eh..
    quem sabe um dia?

    namastê!
    x**

    Responder
  • 10. luana  |  novembro 18, 2007 às 10:12 pm

    non acredito?? um final diferente?? nossa, fiquei feliz agora!
    senti que tudo eh possivel..hohoho 😉

    otimo texto, pra variar né? x)
    acho que toda a saudade eh compensada nesses momentos, tudo vale a pena..
    pois eh pois eh..
    quem sabe um dia?

    namastê!
    x**

    Responder
  • 11. babisoler  |  novembro 20, 2007 às 11:33 pm

    ai que lindo…

    a recompensa da saudade.

    beijo

    Responder
  • 12. Bárbara P  |  novembro 22, 2007 às 7:32 pm

    Gostei muito!

    Sentir saudade é tão bom…

    Responder
  • 13. elisabetecunha  |  novembro 22, 2007 às 9:48 pm

    Menino

    VC PRECISA ESCREVER UM LIVRO!!

    Que cabeça maravilhosa!

    Responder
  • 14. Alê Namastê  |  novembro 22, 2007 às 10:20 pm

    Ptz!
    Sem comentários…

    Responder
  • 15. Tânia  |  novembro 23, 2007 às 1:50 pm

    As pessoas precisam mais deste vício, aliás vício gostoso é te ler…
    Beijo querido…

    Responder
  • 16. Prisca  |  novembro 23, 2007 às 10:01 pm

    Olá…
    Hoje eu disse que iria comentar… que eu iria comentar em lugares que visito frequentemente. Como aqui em cima foi dito “te ler” é bom demais… e eu fico esperando sempre seu próximo texto… e é sempre agradável ver algo novo, ou até reler algo antigo.
    Eu só posso te dizer… que é muito bom… simples assim… há textos que nos transportam pra outra vida, pra uma outra realidade, uma sensação muito boa de sair de onde estamos.
    Boa noite…

    Responder
  • 17. Lais  |  novembro 24, 2007 às 2:01 am

    Eu tb não largaria nunca mais essa mão!

    Lindo!

    Bjos

    Responder
  • 18. cackau Loureiro  |  novembro 24, 2007 às 5:37 pm

    hummmm, tem presentão para você hoje no meu café!!!

    Responder
  • 19. João Paulo  |  novembro 25, 2007 às 2:51 am

    Digno mesmo de comemoração, pois especial é o dia que o tornamos especial.

    Abração!

    Responder
  • 20. Manuela  |  novembro 25, 2007 às 3:31 pm

    Adorei o teu texto…
    “Chega desta história de sexo. Eu preciso fazer amor.” Cada vez me deparo mais com esses pensamentos…
    Gosto dessa tua forma de me fazer visualizar as cenas enquanto leio e percebo que o mundo é assim mesmo… as duvidas envolvem a todos nós…
    Bjus, Manu

    Responder
  • 21. elisabetecunha  |  novembro 25, 2007 às 8:09 pm

    BELA SEMANA!

    Responder
  • 22. Paulo Fernando  |  novembro 25, 2007 às 11:50 pm

    Bom demais! Já pensou eu reunir todos esses seus textos num livro? Seria muito bacana.
    Parabéns pelo seu time. Libertadores ano que vem, junto com o meu fluzão.

    Abraços, meu querido!

    Dúvida: como faço para registrar os textos do meu blog, a exemplo do que vc fez com os seus?

    Responder
  • 23. Christiani Rodrigues  |  novembro 26, 2007 às 2:44 pm

    O bg ao fundo era “É o amor, que mexe com minha cabeça e o meu coraçap…”, interpretado por Marica Bethânia…hehehehe
    bjos

    Responder
  • 24. camiles  |  novembro 26, 2007 às 8:30 pm

    ah, eu tb quero fazer amor, cansei desa vida de zueira e nenhuma certeza…

    Responder
  • 25. Sônia  |  novembro 27, 2007 às 10:29 pm

    Que bom ser amada assim…muito lindo!

    Abraço!

    Responder
  • 26. Carol  |  novembro 28, 2007 às 4:20 pm

    OIee, tudo bem?

    tem prêmio pra vc no meu blog.

    beijos

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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