Sou Levado Muito mais pela Vontade, que pelo Álcool paraguaio

novembro 12, 2007 at 4:46 pm 15 comentários

Paraguaia O meu aconchego ligeiro estava mesmo naquela cama com lençol vermelho. Foi ali que acordei com dor nas costas e com a ponta do meu cigarro apagada, deixando uma cicatriz circular sobre o peito, junto ao crucifixo de prata. Desde que terminou a nossa sessão privê, o conforto ficou encarnado naquele espaço rubro em que eu, condicionado à preguiça desnecessária, me apegava a qualquer Deus capaz de perdoar a minha essência mais estúpida. Se bem que eu jamais denominei o sexo como um pecado, mas eu me agarro em qualquer desculpa nociva, aromatizada com o odor do prazer fácil. Eu precisava usar aquela cama box para exterminar a minha energia motriz. Ela não se importou em me deixar passar aquela noite ali, bebendo seu chá e assistindo ao inútil programa da Hebe. Depois do deleite, não se incomodou ao virar para o lado e descansar, dividindo sua cama e a claridade vinda da televisão. Nada tão normal para quem se acostumou a dormir sozinha.

Com sutileza, retirei a sua perna de cima da minha. Já tivemos uma noite de muitos contatos físicos. Bocejei em silêncio e procurei algum fumo na minha mochila. Nada. Talvez tenha alguma coisa mais densa na geladeira. Ainda estou arrotando a sopa instantânea que ela me ofereceu na janta. O gosto da laranja no suco repleto de conservante passou longe. Parecia água sanitária com açúcar mascavo e pitadas de cansaço. Eu to um bagaço e, mesmo com esse calor infernal que faz aqui no subúrbio, eu sinto tanto frio. Restos de lasanha e uma caixa de leite com prazo de validade vencido. Que sorte eu ter guardado aquela barrinha de cereais no bolso do meu blazer.

Quando voltei ao quarto, sentei sobre a bancada da escrivaninha e observei seu corpo nu em meio ao lençol. A tatuagem da fada medieval em suas costas mostrava toda mística daquela mulher estonteante. O único barulho vinha de o seu ressonar brando misturado ao do ventilador, ligado no exaustor. Não posso reclamar. Falta TV a cabo, mas, pelo menos, tive esse teto pra não tomar banho de lua ou chuva. O chato é o pensamento que fica martelando a minha cabeça. “Safado, piranho, cretino”. Só porque eu sacio minha libido bebendo uísques importados que ela trouxe de Assunção. Eu poderia ficar o dia inteiro olhando pra ela, o problema era o sono. E percebi que sou levado muito mais pela vontade, que pelo álcool paraguaio. Já é hora de voltar pra casa.

Talvez eu lhe escreva algo, um e-mail, uma mensagem via celular. Sei lá. Só para não fazer o papel de mais um amante vagabundo, que entrou e saiu da sua vida. De repente umas palavras num rascunho, dizendo a ela para não criar expectativas nem ficar frustrada por servir como mais uma foda para este moribundo. Sabe como são essas coisas, não é? Nem sempre as pessoas querem amar e basta um bom orgasmo para contentar a felicidade instantânea. Para mim, nem era o trepar. Na verdade eu só estava precisando de uma pausa, um repouso. Não sou muito convencional. Nem consigo ter alívio em lençóis vermelhos. Mesmo nos aconchegos ligeiros. Pode ser uma questão de semântica e o medo de ficar a mercê da dor. Talvez eu precise mesmo adormecer.

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Uma História a Menos Que Vou Querer Deslembrar Junto de Tantas Outras Esquecidas Somos Todos Escravos Desse Vício Barato

15 Comentários Add your own

  • 1. alice  |  novembro 12, 2007 às 5:18 pm

    Ler-te sempre é uma agradável surpresa !!
    abraços

    Responder
  • 2. Diana  |  novembro 12, 2007 às 6:32 pm

    Que sabe a solidão lhe caia bem. Tente dormir, mas dessa vez solitário realmente. Sem ninguém pra fazer papel de figurante. Falamos sempre muito mal da solidão, mas ela pode ser boa companheira em certos dias.

    Responder
  • 3. nil brito  |  novembro 13, 2007 às 12:55 am

    “Sabe como são essas coisas, não é?” Se sei… todo homem sabe. Vc traduziu bem uma situação do nosso cotidiano masculino. Parabéns!

    nil

    Responder
  • 4. gabriel  |  novembro 13, 2007 às 11:15 am

    bela cronica…a escrita é sempre interessante….saudações

    Responder
  • 5. Rubina  |  novembro 13, 2007 às 3:54 pm

    Lencois vermelhos…Que bela ideia!!!

    Responder
  • 6. João Paulo  |  novembro 13, 2007 às 11:08 pm

    É amigo, nem sempre o que se busca se encontra, nem tão menos se completa. A vida é assim…. Aproveitemos os momentos, pois são mesmo passageiros…

    Abração!

    Responder
  • 7. Edna  |  novembro 14, 2007 às 9:42 am

    Esse ai vive numa constante busca, não é?
    Quem sabe um dia ele ache.
    Beijo

    Responder
  • 8. Sônia  |  novembro 14, 2007 às 12:38 pm

    Depois disso tudo, melhor dormir mesmo! rs

    Responder
  • 9. Christiani Rodrigues  |  novembro 14, 2007 às 3:24 pm

    Passa lá!!!

    Responder
  • 10. elisabetecunha  |  novembro 14, 2007 às 9:06 pm

    Adoro te ler!!
    beijos!

    Responder
  • 11. Cho-cho  |  novembro 15, 2007 às 12:32 am

    Ao invés de assumir a dor da solidão, homens preferem mostrar-se viris, sedentos por uma “trepada”, de preferência com uma figura mundana e despudorada.

    Sabe, querido: antes só do que é má companhia.

    Lençóis vermelhos me irritam.

    Beijos de jantar gostoso, lençóis brancos e sono tranquilo…. (*rs)

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  • 12. alexandre  |  novembro 16, 2007 às 1:39 pm

    Vivemos sempre buscando alguma coisa. Excelente texto.
    Abraços!

    Responder
  • 13. Jerico  |  novembro 16, 2007 às 6:55 pm

    Andei sumido por conta da organização do Projeto Macabéa com minha equipe, que por sinal vc não veio conhecer. Mas depois de algum tempo é sempre bom voltar a te ler.

    Beijo do Jerico

    http://www.ideiadejerico.com
    http://www.projetomacabea.wordpress.com

    Responder
  • 14. Renne Boz  |  novembro 17, 2007 às 10:00 pm

    Estou impressionada com seus textos. Escreve bem, já ouviu muito isso, mas no seu caso, não há como ser diferente, aliás, não deixo mais palavras e sim palmas!
    Vou linkar vc, seu talento merece ser lido.
    Um grande abraço.

    Responder
  • 15. Ana Carolina Freitas  |  novembro 28, 2007 às 1:19 pm

    Tenho o seu blog no meu arquivo de favoritos e sempre faço uma visitinha para ler seus textos e os adoro!!!!
    As vezes procuro algo que me toque, que me sangre, que me faça chegar a regiões abissais do meu eu, e eis que sempre encontro aqui… Parabéns por seu talento com as palavras e as emoções… Tenha um ótimo dia.

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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