Archive for novembro, 2007

Eu Sou Tudo Aquilo Que Meus Amores Levam de Mim

Tudo o que levam de mim Embaixo da mangueira, deitado na rede olhando o mar. Era ali que eu gostava de esboçar idéias para escrever aos meus amores ligeiros, todo o meu jeito de pensador matreiro. Mesmo que de forma leviana, claro. Nem sempre posso ser romântico, mas ninguém nunca entendeu isso. Não posso é esquecer-me de algum caminhar na beira d’água, pisando de leve na areia e deixando as ondas lamberem as minhas canelas. Conquisto alguma deusa mestiça e após o almoço, sirvo-lhe aquele velho chá de sempre. Sabor de menta, que aumenta o apetite das línguas que se encontram para incendiar o corpo carente. Tudo igual novamente. O carinho que afaga a alma vai até a hora em que ela esboça alguma idéia sobre ‘se casar’ e ‘ter filhos’. Pronto! O sonho acabava. Era assim com todas. Tolas. E cada uma que saía pela porta, deixava um pedaço de poesia mestiça em mim. E só.

A cadeira de balanço velha me confortava. Apesar de algumas falhas no trançado das palhas, é sempre um aconchego. Basta me acomodar, acender uma ponta de erva e viajar olhando a maré encher. Eu ainda conservava aquela velha vitrola e o meu vinil predileto, já um pouco arranhado pelo uso em demasia. A agulha sempre deslizava até a voz pacífica do Bob Marley. Era a trilha sonora perfeita para o meu alívio e satisfação. A maresia invadia junto ao vai e vem do balanço seguido de um rangido nhéc-nhéc da cadeira e o som rasteiro dos Wailers. Não, nada de lamentações no meu toca-discos! Óleo de cozinha para o barulho resolvia e, para curar os males, a kaya-alegria. Eu ficava horas assim. Até de manhã, esperando o sol invadir e me raiar uma nova moça-paixão.

Tirando o combustível da minha caminhonete, eu não gastava dinheiro com nenhum tipo de álcool. Preferia me embriagar com a natureba híbrida de mar, sol e as ondas em todas as sintonias. A chuva era essencial para abençoar a terra e regar minhas mudas de orquídeas. Era um bom enfeite para o entorno da minha cabana-morada. Bacana mesmo eram as esculturas na areia moldadas a cada subida de onda. Eu sempre me esqueço de lavar as pontas amareladas dos dedos. O fumo até que me faz bem, mas aos olhos de outrem, às vezes é pecado ou desdém. Aos meus, traz vermelhidão também. Por isso, o nome do motel gravado no cinzeiro de porcelana sempre fica turvo, devido à dança da fumaça e os reflexos de minha memória honesta, escassa.

Eu nunca transei naquela cadeira de balanço. Acho um sacrilégio! Vovó me ninou ali e minha mãe me amamentou cantarolando as melodias mais castas. Tudo bem que eu estou longe de ser um puritano, mas respeito à memória e as histórias vividas a cada movimento que existiu neste lugar. Deixar qualquer mulher sentar nela, não! Mas, sair do recinto sem a menor pretensão de abandonar o local em perfeito estado de disciplina ingênua está fora de cogitação. Para foder tem cama, grama, dunas, ducha, rede, pia, quina da lua ou qualquer lugar entre as estrelas. Tudo que sirva de esquecimento quando, amanhã, eu acordar cedo e lúcido. Eu já terei me esquecido de tudo.

A verdade é que a harmonia da vida se encontra nas pequenas coisas. E nem o cinzeiro é capaz de mostrar isso, muito menos os amores pagãos que deixam as pegadas na areia da minha praia. Porque eu sou tudo aquilo que meus amores levam de mim. Mas deles, eu só me lembro em insights ligeiros de memória. Exatamente quando o toca-discos começa a fazer ruído, com aquele barulho vazio de quem precisa trocar o lado do vinil. Porque os amores passageiros pedem uma mudança de faixa. Troca-se o disco, até mesmo a rotação. A melodia fica na mente. Assim como o silêncio de cada amor que só me recordo quando estou aqui na rede, embaixo da mangueira. Até porque eu sou tudo aquilo que meus amores levam de mim. Mas tenho o mar para me trazer novas ondas e novas maneiras de amar.

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novembro 28, 2007 at 7:21 pm 18 comentários

Somos Todos Escravos Desse Vício Barato

Escravos dos vcios Debruçado sobre o parapeito, observo o vai e vem dos carros e dos reféns andarilhos. Um deslize, ou desequilíbrio, podem me levar lá pra baixo. Talvez possa ser bem mais divertido. Não sei. Só vejo transeuntes órfãos sem tempo essencial para ver a beleza das cores na vida. Culpa do relógio e da reunião atrasada em seus escritórios. Mundinho estranho o nosso. As pessoas só percebem as árvores quando algum passarinho, escondido entre os galhos, caga em seus ternos ou vestidos de grife. Inclusive eu, que estou sem tempo de matar as seis cervejas que estão a um mês no freezer. Ainda não fui alvejado pelas aves e sei que por aqui não cai nenhum floco de neve. Se o ombro estiver branco, culpo a gravidade. Anormal seria se as minhas roupas estivessem limpas após toda semana de chuva. Aproveitei o dia sem sol para colocar algumas no varal. Chegar pingando em casa serve para que as gotas escoem pelo ralo e as idéias escorram pela mente. Um mês e algumas horas sozinho. Agora é só esperar ela chegar do trabalho e, novamente, dividir a mesa do jantar comigo. É verdade que não sei cozinhar, mas aprendi a discar para o restaurante italiano e pedir uma massa. Ela nem vai notar que não é o meu tempero, desde que eu jogue toda a embalagem fora.

Chega desta história de sexo. Eu preciso fazer amor. Necessito parar imediatamente de vagar nessa dúvida. Devagar indagar. Eu ainda sou o homem capaz de fazê-la querer me ter? Ou meter só por prazer? Tudo o que eu posso fazer, por enquanto, é me render. Eu sou apenas um garoto excitado com as coisas que aprendi vendo televisão. Na verdade estou me sentindo um hamster, correndo nesta roda dentro da gaiola chamada relacionamento. Pílulas, drogas e um pouco de ração têm me deixado meio paranóico e inquieto. Nada que a presença dela não cure. Só espero que a macarronada não esfrie, pois o microondas queimou semana passada. Vou deixar um blues rolando e fazer a barba. Ela ainda deve gostar de Clapton e da minha cara de bebê. Aquela camisa que ela me deu de aniversário vai cair bem hoje, melhor do que a decoração ridícula da sala de estar. Eu juro que quero mudar, sair desta prisão para um imenso espaço vazio. De dentro para fora, trilhando novos caminhos, vivendo as sensações que não são as mesmas de ontem. Sem aquela melodia clichê na música que fala de amor, sempre nas madrugadas em que estamos sozinhos. Somos todos escravos desse vício barato.

É a primeira vez que fiquei feliz ao escutar o interfone. Ela estava subindo. Ao vê-la entrar, meu peito se inflamou mais uma vez com alegria. Seu sorriso invadiu, recarregou a minha felicidade. Sem mais perguntas ou necessidades. Apenas o abraço e o beijo bastaram. Escancarou a porta e saciamos as vontades. Mesa posta, massa quente. Minto sobre o molho. Coisa de um dissimulado cozinheiro matreiro. Ela sorriu, degustou a refeição e se fartou do meu contentamento ao revê-la. Até confessou que um dia, algum passarinho cagou em seu terninho. Sinal de sorte. Sabia que a comida era encomendada e que o vinho era presságio para o nosso mergulho no amor. Bom pro nosso estômago, excelente para reatar os laços do coração. Não precisou falar nada, ela apenas assoprou as velas. O alívio da luz apagada escondeu minhas lágrimas pela emoção de sua volta a nossa cama. A sensação era de tudo novo de novo, sem perda de tempo para conhecer a saudade. E, enquanto ela descansa, vou para a sala. Debruço no parapeito, acendo meu cigarro e observo o vai e vem da fumaça. Lá embaixo, um abismo. Talvez a gravidade e o tempo possam me derrubar qualquer dia. Não hoje. Pois a tenho de volta para me segurar. Volto para a nossa cama. Encaixo-me em seu corpo e seguro as suas mãos. Assim me sinto mais seguro. Agarro-me por entre seus dedos para nunca mais largar.

novembro 16, 2007 at 7:53 pm 26 comentários

Sou Levado Muito mais pela Vontade, que pelo Álcool paraguaio

Paraguaia O meu aconchego ligeiro estava mesmo naquela cama com lençol vermelho. Foi ali que acordei com dor nas costas e com a ponta do meu cigarro apagada, deixando uma cicatriz circular sobre o peito, junto ao crucifixo de prata. Desde que terminou a nossa sessão privê, o conforto ficou encarnado naquele espaço rubro em que eu, condicionado à preguiça desnecessária, me apegava a qualquer Deus capaz de perdoar a minha essência mais estúpida. Se bem que eu jamais denominei o sexo como um pecado, mas eu me agarro em qualquer desculpa nociva, aromatizada com o odor do prazer fácil. Eu precisava usar aquela cama box para exterminar a minha energia motriz. Ela não se importou em me deixar passar aquela noite ali, bebendo seu chá e assistindo ao inútil programa da Hebe. Depois do deleite, não se incomodou ao virar para o lado e descansar, dividindo sua cama e a claridade vinda da televisão. Nada tão normal para quem se acostumou a dormir sozinha.

Com sutileza, retirei a sua perna de cima da minha. Já tivemos uma noite de muitos contatos físicos. Bocejei em silêncio e procurei algum fumo na minha mochila. Nada. Talvez tenha alguma coisa mais densa na geladeira. Ainda estou arrotando a sopa instantânea que ela me ofereceu na janta. O gosto da laranja no suco repleto de conservante passou longe. Parecia água sanitária com açúcar mascavo e pitadas de cansaço. Eu to um bagaço e, mesmo com esse calor infernal que faz aqui no subúrbio, eu sinto tanto frio. Restos de lasanha e uma caixa de leite com prazo de validade vencido. Que sorte eu ter guardado aquela barrinha de cereais no bolso do meu blazer.

Quando voltei ao quarto, sentei sobre a bancada da escrivaninha e observei seu corpo nu em meio ao lençol. A tatuagem da fada medieval em suas costas mostrava toda mística daquela mulher estonteante. O único barulho vinha de o seu ressonar brando misturado ao do ventilador, ligado no exaustor. Não posso reclamar. Falta TV a cabo, mas, pelo menos, tive esse teto pra não tomar banho de lua ou chuva. O chato é o pensamento que fica martelando a minha cabeça. “Safado, piranho, cretino”. Só porque eu sacio minha libido bebendo uísques importados que ela trouxe de Assunção. Eu poderia ficar o dia inteiro olhando pra ela, o problema era o sono. E percebi que sou levado muito mais pela vontade, que pelo álcool paraguaio. Já é hora de voltar pra casa.

Talvez eu lhe escreva algo, um e-mail, uma mensagem via celular. Sei lá. Só para não fazer o papel de mais um amante vagabundo, que entrou e saiu da sua vida. De repente umas palavras num rascunho, dizendo a ela para não criar expectativas nem ficar frustrada por servir como mais uma foda para este moribundo. Sabe como são essas coisas, não é? Nem sempre as pessoas querem amar e basta um bom orgasmo para contentar a felicidade instantânea. Para mim, nem era o trepar. Na verdade eu só estava precisando de uma pausa, um repouso. Não sou muito convencional. Nem consigo ter alívio em lençóis vermelhos. Mesmo nos aconchegos ligeiros. Pode ser uma questão de semântica e o medo de ficar a mercê da dor. Talvez eu precise mesmo adormecer.

novembro 12, 2007 at 4:46 pm 15 comentários


O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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Às vezes balbucio algo no Twitter:

  • Aos trancos e barrancos, isso aqui é @Flamengo! 2 weeks ago
  • O @Flamengo não jogou NADA o ano inteiro. Não tem poder de decisão algum. Mas vamos lá nos iludir com o "ano mágico 2018". 2 weeks ago
  • Vamos torcer pros caras honrarem o polpudo salário em dia e classificar nessa competição pra, ao menos, termos um prêmio de consolação 2 weeks ago
  • Parece que as pessoas se contentam com a porra de um Carioca e acha que o resto vem na sorte, vem no "deixa a vida me levar"... 2 weeks ago
  • Quase não tenho usado o Twitter, porque me torno repetitivo e parece que os meses, os anos, não passam. Tudo a mesma coisa. 2 weeks ago