Uma História a Menos Que Vou Querer Deslembrar Junto de Tantas Outras Esquecidas

outubro 31, 2007 at 8:53 pm 23 comentários

Vinho Se eu tiver sorte, amanhã acordo com uma amnésia etílica. Esqueço toda essa bobagem de que, até ontem, eu a amei com paixão. Talvez a culpa seja minha, por conta de uma noite de insônia perdida entre as garrafas de vinho e as de água mineral com gás. Mas não consegui fazê-la entender apenas com os gritos vindo dos meus olhares furtivos, ainda sóbrios. Ela também estava muito rouca para berrar sua surdez medíocre. Cega por covardia, medo. Torradas com margarina para saciar a larica não sanaram minha insana fome de porquês. E foi fácil me encontrar silencioso, naquele denso copo sujo com meu pecado covarde e uma gota de decepção alcoólica. Achei que a solução estaria no fundo da minha embriagues barata, ou soterrada entre os pedaços da imagem que eu construí dessa mulher-menina. Traiçoeira, verdade desleal com o sentimento que se renovava a cada dia. Com o abraço-afago e beijo-carinho que ela apenas usou. Aproveitou suas carências até sair pela porta dos fundos, batendo a porta sem dizer um digno adeus. Puto mesmo eu fiquei quando soube que sequer ela deixou o dinheiro para a conta de luz. Ainda bem que eu nunca fico no escuro.

As mudas palavras poderiam até cortar a minha lucidez. Mas eu só rasguei a ponta do dedo quando fui abrir aquele envelope preto, onde ela escreveu com letras cintilantes que era louca por mim. Não vou enfiar o dedo na goela pra forçar um vômito, apenas pela ânsia de me confortar com aquelas mentiras. Apesar de não estar preparado para essa poltronice, não me surpreendi. E as poucas frases que ela ousou pronunciar eram tão vagas, levianas, típica das mulheres que não conhecem o poder contido em cada tom, timbre, letra. Foda-se que ela me chamou de bêbado. Eu aprendi que nem tudo que pensamos, devemos falar. E eu ainda a deixei beber do meu vinho mais caro. O vinho chamado paixão. Também a ensinei que não devemos usar a nossa magia com qualquer um. Mesmo que queiramos pronunciar os sentimentos exaltados, por puro capricho do momento. Mesmo que devamos acolher dentro do peito, os que menos merecem. Por pura libido.

Um pacote de biscoito doce e uma taça rala de vinho seco. Só pra lembrar que eu posso até sentir saudade do nosso bailar, suar, conversar. Ic! Mas ainda tenho novas canções, transpirações e papos pro mês que vem. O desejo não cabe em mim, transborda. Mas tem que ser mútuo, não mudo. Ela poderia encontrar os meus mistérios. Mas sei que já violei seu corpo, desvendei suas fronteiras, provei do cheiro e do gosto. Gozo. Podia deixar que ela descobrisse todo o universo contido em meu olhar. Ainda bem que não deu tempo. Mexi em toda a percepção dela, baguncei-a com minhas taras várias. Só não deixei que ela metesse a mão na minha taça. Taça da vitória em perder algo que nunca ganhou.

Por um momento senti pena de mim. Culpa do maldito rádio, tocando aquela canção que foi melodia em uma de nossas trepadas de motel. Na verdade não. Realmente a culpa é minha. Apenas por guardar impressões erradas dela. O chato mesmo é que, na quinta dose, eu erro o alvo e desperdiço o vinho. Na verdade, nada no mundo que acontece comigo pode ser pior do que a ressaca do dia seguinte. Mas eu sóbrio vivo, mesmo ébrio. Sobrevivo. Outro gole, porre, dose. Tanto faz. O bom mesmo é a ressaca ética do dia seguinte. Um trago longo e pronto! Já não lembro mais dela. O presságio principal se cura. Pelo menos até a próxima fugida ao bar. Para me esquecer de tudo e fazê-la virar uma história a menos que vou querer deslembrar junto de tantas outras esquecidas. Burp!

Entry filed under: Ácidos.

Fotografia Que Não me Revela em nenhuma Imagem Sou Levado Muito mais pela Vontade, que pelo Álcool paraguaio

23 Comentários Add your own

  • 1. gabriel  |  novembro 1, 2007 às 12:02 am

    muito loco o escrito cara…muito loco mesmo….caraio…afiada a escrita…afiada…
    saudações…

    Responder
  • 2. Erika  |  novembro 1, 2007 às 1:45 am

    Quando a gente vê a sua carinha feliz no Orkut, lá com sua querida, sua cã.. rs.. é até difícil encaixar seus textos naquela carinha.. rsrs

    Beijos

    Responder
  • 3. Diana  |  novembro 1, 2007 às 2:36 am

    O amargo hoje deu lugar ao vinho, ao gosto de ressaca. Aquele sabor azedo sobre o paladar. Mas impecável como sempre.
    Ótimo!
    Abração

    Responder
  • 4. alexandre  |  novembro 1, 2007 às 11:25 am

    É rapaz…a vida tem dessas coisas! Belo conto!

    Responder
  • 5. Lais  |  novembro 1, 2007 às 12:21 pm

    Seu blog é demais!!! Milhares de parabéns! Voltarei sempre! E claro, obrigada pelas visitas no Mundo de Lá. E outra coisinha, leia hoje meu post no blog mais feminino e perfumado da internet! http://versosdefalopio.blogspot.com

    Responder
  • 6. Miguel Barroso  |  novembro 1, 2007 às 4:54 pm

    belo blog!!!

    Responder
  • 7. Lubi  |  novembro 1, 2007 às 5:43 pm

    O tempo passa, a saudade aumenta. E você continua bom!

    Beijo.

    Responder
  • 8. Nil Brito  |  novembro 1, 2007 às 6:32 pm

    Como eu não bebo, só de ler um texto desse já fico de fogo. burp!

    abs do nil

    Responder
  • 9. João Paulo  |  novembro 1, 2007 às 10:46 pm

    Parece que o vinho citado é Santa Felicidade… pela ressaca deixada é provável. O principal você consegue deixar explícito, isso é importante. Falando nisso, vi ao filme “O segredo da Magia” bem parecida com seu texto.

    Valeu!

    Abração!

    Responder
  • 10. christiani.rodrigues  |  novembro 3, 2007 às 12:25 pm

    Cuidado com a cirrose, hein?? rs….bjos

    Responder
  • 11. Aline  |  novembro 5, 2007 às 12:19 am

    e eu com a minha mania de trocar de endereço…

    bjos

    sds

    Responder
  • 12. Lubi  |  novembro 5, 2007 às 1:08 pm

    Um beijo!!!

    Responder
  • 13. Girassol  |  novembro 5, 2007 às 3:02 pm

    Por vezes lendo os teus textos só sinto vontade de dizer:
    “Cara, tu escreve muitooooooooooo”… =)

    Beijos, uma óptima semana.

    Responder
  • 14. Ly  |  novembro 5, 2007 às 11:59 pm

    Todo mundo concorda que tu escreve demais……mas eu fiquei aqui pensando numa coisa…..esquecer as coisas……meu a pior coisa do ser humano é isso……a gente paga pelo mesmo erro dezena de vezes pq a nossa memória é monstruosa……penso q esquecer além desta ética é uma verdadeira benção.

    bjs

    Ly

    amo teus textos

    Responder
  • 15. Fabiola  |  novembro 6, 2007 às 1:03 am

    Muito bonito mesmobjocas

    Responder
  • 16. Sônia  |  novembro 6, 2007 às 11:30 am

    Então, enquanto tiver vinho vai ficar tudo bem…rs

    Abraço!

    Responder
  • 17. Cau  |  novembro 6, 2007 às 2:07 pm

    (Aproveitando a aminésia etílica… )
    Oi? Lembra de mim? risosss
    Beijos… adorei o texto (como sempre)

    😛

    Responder
  • 18. Késia Maximiano  |  novembro 6, 2007 às 4:33 pm

    Ahhhh como eu adoro o teu cantinho
    nem sei se vc ainda lembra de mim,t anto tempo q não passeio pelo blogosfera… rsrsr
    mas seu cantinho continua perfeito…

    bjão…

    Responder
  • 19. luana  |  novembro 6, 2007 às 11:22 pm

    uau meninoo, eu costumava (costumo?) achar que a pior ressaca pra se ter eh a moral, afs” que cruel viu? muito momentos quanto mais tentamos esquecer, mas nos vem a memoria!

    mais um texto excelente! descrição massa..
    e mais uma vez eu fico sem palavras.. só me recorrendo as recordações bestiais mesmo.. Oo
    x*
    namastê!

    mais uma dose?
    😉

    Responder
  • 20. babisoler  |  novembro 7, 2007 às 12:08 am

    essa é a parte boa do apoio etilico, rs

    Responder
  • 21. leonardo barros  |  novembro 7, 2007 às 5:00 pm

    Tem mulheres que nem mereçem uma dor de cabeça!
    aguardo visitas!
    abcs

    Responder
  • 22. lunna  |  novembro 9, 2007 às 5:17 am

    E quanto mais se esquece, mais e mais há para se esquecer no dia seguinte. Um horror. Beijos.

    Ps. Mais uma vez o seu texto está ótimo. Ah! Esse não era aquele vinho que você ficou de levar pra mim, era? Hummmmmmmmmmm……………

    Responder
  • 23. alice  |  novembro 9, 2007 às 10:58 am

    eu ja te disse que adoro ler vc ???…. suas palavras me tocam a alma .
    beijos pra ti

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
----------------------------

Os textos deste blog estão protegidos pela lei nº. 9.610 de 19-02-1998.
Não copie sem permissão.
[Ácido Poético® - Todos os direitos reservados]

http://www.twitter.com/cazonatti

ø Textos Protegidos por Direito Autoral ø

Creative Commons License
Ácido Poético by Bruno Cazonatti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.
Based on a work at Ácido Poético ®.
Permissions beyond the scope of this license may be available by: cazonatti@gmail.com

Às vezes balbucio algo no Twitter:


%d blogueiros gostam disto: