Fotografia Que Não me Revela em nenhuma Imagem

outubro 22, 2007 at 2:00 pm 26 comentários

Fotografia que não revela Fugiu pela tangente, deliberando ausência. Ela se foi correndo, em busca das fotografias que não me revelam em nenhuma imagem. Já era noite úmida quando escolheu as fotos e me deixou com as gotas de chuva e o vento gelado. Uivava um adeus frio e, sem o guarda-chuva, eu fiquei desprotegido dos pensamentos nublados e sombrios. Decepcionado. Tudo assim, sem agasalho ou palavra que define o adeus sem ser pronunciada numa cena de filme chavão.

Nem um abraço para me acolher, apenas a última poltrona do ônibus para me esconder. Pra aquecer, somente o som do Hendrix, com sua guitarra berrando e queimando alto no meu headphone. E fui gotejando tristeza de ponto em ponto, chacoalhando naquela condução-condição em que eu me encontrava. Vazio. Mesmo sem um final digno de poesia leviana. Chuva branda, tocando o rosto e inundando as perspectivas de um recém eclipse solar.

Tolice mesmo é imaginar que aquilo tudo era sorte. Talvez para que eu me lembrasse de tomar uma ducha quente e um café forte. O cafuné ficaria por conta da minha perspicácia em ser só, mesmo estando junto. Absurdo. Com tanta gente querendo compartilhar de afeto, eu solitário naquele deserto insólito da cama, na posição de um feto protegido pela placenta-edredom.

Posso sentir o amargo gosto da sua falta, mas tenho bastante adoçante na prateleira da cozinha. Aspartame para consolar essa falta de açúcar no sangue, na alma. Quem sabe no dia vindouro eu sinta uma saudade sua. Levemente doce, como o acre daquele seu perfume. Queria poder guardar o odor num frasco ou talvez numa moldura embalada a vácuo. Somente para colocar na estante, ou na parede da sala. Assim, sem pose. Como na fotografia que não me revela em nenhuma imagem. Para não esquecer jamais que você fugiu pela tangente. Pois, sei que café adoçado com gotas de chuva não dura para sempre.

Entry filed under: Ácidos.

Essência Meretriz Uma História a Menos Que Vou Querer Deslembrar Junto de Tantas Outras Esquecidas

26 Comentários Add your own

  • 1. cabrita  |  outubro 22, 2007 às 2:56 pm

    meu Acre é com letra maiúscula!

    mto bonita…

    Responder
  • 2. Nil Brito  |  outubro 22, 2007 às 3:33 pm

    Condução-condição e placenta-edredon, duas expressões que revelam a imagem do seu talento! Parabéns!

    abs do nil

    Responder
  • 3. Alexandre Costa  |  outubro 22, 2007 às 3:59 pm

    Indiquei você lá no meu blog! Dá uma olhada!
    Abraços.

    Responder
  • 4. Lizzie  |  outubro 22, 2007 às 5:11 pm

    Eu sinto o amargo da falta, o ácido da ausência de quem eu queria que estivesse perto. E não tenho adoçante, ou açúcar que sobreponha esse amargor.
    Mas hei de ter 😉

    Beijos

    Responder
  • 5. Fabiana  |  outubro 22, 2007 às 9:13 pm

    Te encontrei por outro blog que surpresa boa…

    Quanta sensibilidade!!!

    Lindo!!!

    Responder
  • 6. Erika  |  outubro 22, 2007 às 9:48 pm

    mas haverá de saber tbm que a chuva sempre voltar para adoçar outro café.

    beijos e ótima semana

    Responder
  • 7. camiles  |  outubro 23, 2007 às 3:59 am

    xícaras não irão faltar pela vida…

    Responder
  • 8. Tânia  |  outubro 23, 2007 às 1:13 pm

    Bruno este acre é contagioso, mas o desejo de compartilhar às vezes o café é unânime…
    Saudades de você querido…
    Beijão

    Responder
  • 9. luana  |  outubro 23, 2007 às 11:36 pm

    não dura mesmo! 😉
    olhee, são tão articuladas as palavras, que fica facil ser conduzida por imagens, sons e vibrações de cada flesh ou nota ou silaba..

    ainn, ninguem merece uma cama vazia numa noite chuvosa, pelo menos, é o que eu imagino..uhuhuh x)

    sempre bom te ler! x**
    namastê!

    Responder
  • 10. Fina Flor  |  outubro 24, 2007 às 12:06 am

    desejo que essa ressaca chamada falta seja curada, querido!!!

    beijocas,

    MM.

    ps: qto ao yôga, ele não é zen como as pessoas pensam, ele é para dar energia, poder…… se quiser conhecer melhor um dia, posso te apresentar minha unidade :o)

    Responder
  • 11. Manu  |  outubro 24, 2007 às 2:43 am

    Olá… sempre que leio teu blog me admiro com a tua forma de escrever…

    Sentimentos sendo traduzidos em palavras… queria ter esse dom…

    Bjus pra ti…

    Responder
  • 12. Lucia  |  outubro 24, 2007 às 5:17 am

    Olá moço!
    Adorei seu jeito de escrever, que bom que me encontrou por acaso!
    Infelizmente as palavras (minhas) não têm bailado mais do que o corpo, o que é uma pena.
    Escrever me desintoxica. Mas por alguma razão abandono às vezes essa prática que me faz tão bem. E me sinto tóxica outra vez. Talvez seja o tempo. Talvez sejam os tempos… E vendo seu blog entendo que, definitivamente, ando precisando de mais prática! ;D
    Deixo outro par de beijos, apareça sempre!

    Responder
  • 13. Carol  |  outubro 24, 2007 às 3:47 pm

    Noossa Bruno , que lindo texto!
    Um dia aprendo a escrever assim!

    beijão, adoro te ler!

    Responder
  • 14. elisabetecunha  |  outubro 24, 2007 às 11:37 pm

    Sempre DEZ!!

    BEIJOS!

    Responder
  • 15. christiani.rodrigues  |  outubro 25, 2007 às 1:44 am

    Se estivesses por perto, lhe ofereceria um café quente e conversariamos sobre micos…rs…

    Responder
  • 16. Flávia  |  outubro 25, 2007 às 2:19 pm

    Não dura nem o café nem o deserto insólito de cama, querido. Ai de nós se não fosse o cíclico da vida.

    Beijos mil.

    Responder
  • 17. Girassol  |  outubro 25, 2007 às 2:32 pm

    Precisamos acabar-nos, sorver uma história até a última gota, para que dela possamos renascer com esperança para um novo café, um cafuné com presença, dois lugares ocupadas na mesma cama.

    Beijo.

    Responder
  • 18. Edna  |  outubro 25, 2007 às 6:09 pm

    Li 3 vezes….isso mostra que gostei? sorriso
    Beijão

    Responder
  • 19. Ana Carolina  |  outubro 25, 2007 às 6:25 pm

    Navegando por entre sites, planei no seu… Há um bom tempo eu não lia um texto que me tocasse tanto quanto este seu… Parabéns!

    Responder
  • 20. Ly  |  outubro 25, 2007 às 11:16 pm

    concordo com a Mônica…….que Deus lhe conceda mais e mais amores pra se curar da resseca e que possa renová-la mtas vezes……afinal este é o propósito……Amar até dói, mas é bommmmmmmmmmmm

    bjs

    Ly

    Responder
  • 21. Diana  |  outubro 27, 2007 às 1:09 pm

    Embriagando-me em suas palavras com sabor de adoçante. Senti a dor de estar só em meio a multidão apressada.
    “Já estou cheio de me sentir vazio
    Meu corpo é quente estou sentindo frio” (Legião Urbana)
    Abraço Bruno

    Responder
  • 22. João Paulo  |  outubro 28, 2007 às 1:29 am

    Imagem, seria mesmo uma imagem construída, trazendo a paz às pessoas, talvez fosse solução para muita gente.

    Enquanto isso não chega, suas palavras são suporte para construirmos solidez da verdade.

    Abração!

    Responder
  • 23. Alê Namastê  |  outubro 29, 2007 às 11:03 am

    Adoçante ao cúmulo também é amargo.
    Existem noites que volto a ser feto entre o colchão e o edredom…É o preço que pagamos por crescer e nos envolver com os prazeres.
    Boa semana!
    Muitos beijos, meu lindo!

    Responder
  • 24. alexandre  |  outubro 29, 2007 às 12:01 pm

    Cara…teu blog tava com problema??? Só consegui ler hoje.
    Abraços!

    Responder
  • 25. Daniel Henrique  |  outubro 29, 2007 às 5:48 pm

    Virei seu fã cara.
    Bom demais seu texto.
    Abraço.

    Responder
  • 26. babisoler  |  outubro 30, 2007 às 9:15 pm

    A ausência machuca e todo café adocado com gosto de chuva tem o tempo certo de permanecer.
    beijo

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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