Borrão

outubro 1, 2007 at 9:53 pm 26 comentários

Borrão A tinta se perdeu como as cores do tempo. Bastava virar a chave na porta e girar a maçaneta para que ela percebesse. Algumas frestas com sol escancaravam o pouco colorido que ainda restava na casa e uma poeira rasteira trazia o cheiro de mofo e loção pós-barba da Bozzano. A predileta dele. E cada passo faz ranger uma lembrança nas tábuas ociosas entre a sala e o quarto. E o “Meu Deus, como ele me faz tanta falta” é a única oração em frases soltas naquele vácuo entre o coração e a mente. Ausente, corpo latente. E o perambular pelos cômodos da casa espanta o frio daquele fim de tarde parasita. A presença dele está em tudo. E toda vez que volta pra casa é a mesma coisa.

Ainda existem algumas pontas de cigarro no cinzeiro do escritório. Era notório o tragar da solidão. O copo sujo, com resto de cerveja preta, ainda estava em cima da pia. Ele adorava fazer sexo ali, na cozinha. Sem dar um pio. Trepar ao lado do fogão apetecia os desejos vorazes. Gozo, pra depois rir de todos aqueles hipócritas que só se contentam com o quadrado da cama. Adrenalina pura, como a carreira de cocaína na escrivaninha. Droga volátil, psicotrópica em demasia. Volúvel ao extremo, corroendo prazer, desejo, saudade e angústia. E ali ficava. Caída babada, alucinando sofrimentos de dor ao odor do nada. De fúria, pegou a tesoura e picotou o longo cabelo. Como quem corta o mal pela raiz. Não havia gilete para saciar os pulsos

Ele sempre lhe dizia que adorava aquela borboleta tatuada em sua nuca. Para vê-la, gostava de lhe puxar o comprido cabelo negro na hora do orgasmo. Deixava-a louca. Gostavam tanto um do outro que esqueceram que amanhã já foi outono. E agora só restava a falta daquela voz grave, mesmo que reclamando da conta do telefone. Até sentia saudade da louça suja e das cuecas e meias que ele deixava jogada pelo quarto. Sem contar os porres de ponche em plena terça-feira, pra comemorar não-sei-o-quê, mas ser feliz. Sempre. E mesmo que faltasse o feijão na panela, nunca lhe faltava flores. Nem pela falta de grana, pois as flores também se desenham em qualquer papel de pão.

Borrão. Assim, riscado em vão o sentimento obtuso para torná-lo ininteligível. Foi assim que ele a deixou. Ela e os seus livros de amor, entulhados nas estantes e em todos os instantes em que lhe dizia ‘Eu Te Amo’. Deixou-a largada entre as mobílias espalhadas pelo mal do mundo moderno. O comodismo veio naturalmente, antes de a lua virar sol novamente. E foi naquele cômodo incômodo alvitre, que ela descobriu o porquê daquele adeus. De frente para sua imagem refletida na janela, enxergou o reflexo de suas costas pelo espelho grande no armário do quarto. Enfim, viu a resposta. Em sua nuca a borboleta desbotada. A tinta que se perdeu como as cores do tempo.

Entry filed under: Ácidos.

Impermeabilização de Um Comodismo Banal Esse Meu Esperar de Tudo o Pior

26 Comentários Add your own

  • 1. babisoler  |  outubro 1, 2007 às 10:47 pm

    Algumas marcas são vitais para o fluir dos acontecimetos e algumas ausências deixam marcas profundas.
    beijo.

    Responder
  • 2. Sam  |  outubro 1, 2007 às 11:46 pm

    Corrente, sempre, não? Queria eu ser tão linear quanto digressivo, vomitando. Sempre bom, sempre livre.

    Responder
  • 3. Flávia  |  outubro 2, 2007 às 4:17 am

    Todas as cores desbotam com o tempo. Mas o mesmo tempo traz as tintas para recolorirmos o que desbotou – ou para, quem sabe, nos descobrirmos autores de desenhos outros…

    Beijos!

    Responder
  • 4. Erika  |  outubro 2, 2007 às 10:21 am

    É preciso colorir a borboleta sempre.

    Beijo

    Responder
  • 5. Girassol  |  outubro 2, 2007 às 4:06 pm

    Todos os dias a vida nos dá uma nova chance de colorir a borboleta, depende de cada um de nós aproveitá-la!
    Um dos maiores problemas da humanidade: querer remediar em vez de cuidar sempre.

    Beijo.

    Responder
  • 6. alexandre  |  outubro 2, 2007 às 4:17 pm

    Bruno…eu apenas copiei a imagem e colei no post!
    Abraços.

    Responder
  • 7. Diana  |  outubro 2, 2007 às 5:52 pm

    Palavras com gosto de pão passado, velho, mas que traz lembranças de uma janela aberta. Com cheiro de café logo depois de um longo sono.
    Ah, se disser que adorei vai ser óbvio demais?
    Um abraço
    Diana

    Responder
  • 8. Lucio  |  outubro 2, 2007 às 6:24 pm

    Ola Bruno.

    Estava eu em meu trabalho, procurando na internet coisas de trabalho para o trabalho…vida de Sampa, quando topei com seu link no google, coisa tão fora de lugar! Li este texto e fui tirado do escritório, do lugar comum. A beleza me pegou! Essas palavras tão belas, esses sentimentos despretensiosos e quentes, essa narrativa sem pressa, só podia ser coisa de carioca. Não pare nunca de escrever, por favor. Mais que nunca nosso mundo precisa de artistas do que engenheiros, mais de estética que técnica. Preze sempre pelo seu talento e sua sensibilidade. Seu ofício é valioso. Muito obrigado.

    Responder
  • 9. Christiani Rodrigues  |  outubro 2, 2007 às 9:40 pm

    C´est la vie!!! Fazer o quê? Ainda bem que podemos tingir com a tinta comprada em supermercado…rs…
    Bjkas
    Chris

    Responder
  • 10. Ly  |  outubro 3, 2007 às 10:35 am

    Nem sempre a falta de cor ofusca o brilho do que se vive…..Até no preto e branco há angulo e perspectiva sempre…..

    Seja bem vindo a sampa!!!

    beijos

    Ly

    Responder
  • 11. Ana M.  |  outubro 3, 2007 às 1:14 pm

    http://apto32.blogspot.com/2007/09/quatro-pessoas-num-mesmo-dia-me-dizem.html

    depois de postar me lembrei de sua apresentação aqui, os quase 30… depois volto pra ler os textos que ainda não. bisou.

    Responder
  • 12. (EC)2  |  outubro 3, 2007 às 3:28 pm

    Muito bom. Como é dificíl sentir saudades, sentir falta de alguém.
    De uma literariedade ímpar seus textos.
    Uma verdadeira prata-da-casa!!!

    Responder
  • 13. Marcelo e Aline  |  outubro 3, 2007 às 6:26 pm

    Por isso devemos cuidar das cores de nossos amores.
    Traçar novas linhas, tingir novos tons, regar as plantas que nasceram.
    Assim, jamais uma borboleta desbotaria, e nem um amor morreria.

    Responder
  • 14. Fernanda Passos  |  outubro 3, 2007 às 6:53 pm

    Bruno, Talento devia ser teu nome. Quando lia o texto, pensei nos que escrevo. Os meus sempre tem essa melancolia, essa saudade e esse nada ausente que é tudo. Não reflete, necessariamente, meu estado de espírito, mas a inspiração rola mais por essa veia que por qualquer outra.

    Lindo moço, lindo.
    Bj.

    Responder
  • 15. Carol  |  outubro 3, 2007 às 9:11 pm

    Muito bom texto Bruno, como sempre. Vc tem muito talento pra escrever!
    adoro vir ler seus textos.

    beijão

    Responder
  • 16. elisabetecunha  |  outubro 4, 2007 às 1:36 am

    Bruno

    muito legal esse texto!
    aparece

    Responder
  • 17. luana  |  outubro 4, 2007 às 8:57 pm

    brunooo, thans pelos parabens e energia positiva kraa!!! :D:D

    olhe se eu considerasse esse lance de ser fã, seria sua fã viu? porque adoroo a maneria como você escreve, nos leva longe com seus contos e casos!!! adoro :D:D
    o livro sai quando mesmo? hoho x)
    mas que saibam que o tempo passa para todos e que nesse “tempo” há perdas e ganhos para todos 🙂
    somos borrões de um passado e rascunhos de um possivel futuro..apenas!

    beijoss!
    namastê!

    Responder
  • 18. João Paulo  |  outubro 5, 2007 às 1:31 am

    Esse texto, de início me fez voltar no tempo, ainda na época do colegial que tinha que fazer “borrão”, ou seja, ter dois trabalhos; copiar no colégio e passar tudo para outro em casa.
    Em outras linguagens, retrata o borrão que somos, buscando identificação com os elementos reais ou imaginário, fortalendo ou destruindo personalidade.

    Abração!

    Responder
  • 19. Nil Brito  |  outubro 5, 2007 às 2:16 am

    As vezes as respostas que a gente procura e quer do lado de fora, começam a ser respondidas do lado de dentro… Sua praia tb é muito boa, com a beleza e a descontração cariocas…

    abs

    nil

    Responder
  • 20. dan  |  outubro 5, 2007 às 9:04 am

    vc escreve maravilhosamente bem. amei teu espaço. posso deixar um beijo? ok… beijo! rs… obrigada pelo comentário lá no meu blog. vamos trocar links?

    Responder
  • 21. Daniella Living  |  outubro 5, 2007 às 1:09 pm

    Costumo conversar com minha irmã sobre sentimentos, visualizando o coração personificado, e justamente na noite anterior estavámos divagando sobre a situação de alguns corações desajustados afetivamente, imaginando uma cena onde o coração estaria sentado num canto escuro da sala, olhando fixamente para fotos e cartas antigas entre lágrimas e soluços… mas no dia seguinte, depois de adormecer chorando, acordaria um pouco melhor, tentando levar a vida a diante. Eis que me deparo com este texto emocional, descritivo, interessante… mais uma vez, parabéns, vc escreve muito bem.
    Ótimo FDS, bjs!

    Responder
  • 22. André, um Jerico  |  outubro 5, 2007 às 8:40 pm

    Que delícia de texto. A citação do Alexandre é mais que merecida.
    Sou da milícia da poesia e prosa como vc. Apareça na minha roça.

    André, um Jerico
    http://www.ideiadejerico.com

    PS: vou linkar seu blog… não reclame, Jerico é manso e folgado mesmo.

    Responder
  • 23. Edna  |  outubro 7, 2007 às 1:45 pm

    Se as cores vãos e perdendo com o passar do tempo e não nos damos conta, um dia acordamos e vemos que é tarde demais.
    Muito bonito seu texto.
    Beijo

    Responder
  • 24. Wandecy Medeiros - Patos - PB  |  outubro 7, 2007 às 8:39 pm

    Urubu reflexivo

    Abri a janela, olhei o mundão,
    Vi violência, miséria, invejei o meu cão.
    Imaginei um padre com o sacristão e a freira
    No cubículo contando o apanhado da feira.
    Lágrimas acumuladas em um cemitério,
    Mães apavoradas em um necrotério,
    Tenho buscado desculpas para o meu estado inativo
    E tenho dormido muito para esquecer que estou vivo.
    Tanta bagatela arruinando virtudes,
    Tanta doença para curar a saúde.
    Se revestirmos de carne uma pedra,
    A rocha evolui, mas o homem não medra.
    A política é a tentativa da natureza melhorar,
    Mas o fraco quer o éden e o forte oprime sem notar.
    Ao problema dessas almas alquebradas,
    Ofereço a solução: um anzol e uma enxada.
    Esse mundo é delirante, o real é um assombro,
    Derrubamos nossas casas e choramos nos escombros.
    Animal contra animal, natureza que se atrita,
    Mas sei que cada leão atrai cem mil parasitas.

    Wandecy Medeiros: Urubu Reflexivo

    Responder
  • 25. Fernanda Passos  |  outubro 7, 2007 às 8:48 pm

    Vim ler teus texto, mas como o que está postado já comentei, deixo um grande abraço.
    E obrigada pela ida ao meu blog. Pode linkar sim. Eu tb vou linkar vc. rsrsrsrs.
    beijo.

    Responder
  • 26. Lívia  |  outubro 7, 2007 às 9:31 pm

    Bruno, nada é eterno como julgamos (mesmo conhecendo a verdade) é preciso cuidar sempre pra q não desbote e se perca no tempo e mesmo q por ventura isso venha acontecer sempre há tempo de reavivar as cores.
    bjos

    http://nocentrodemim.blogs.sapo.pt (tbm me encontra aqui)

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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