Impermeabilização de Um Comodismo Banal

setembro 24, 2007 at 2:44 pm 25 comentários

Impermeabilização de Um Comodismo Banal Ele sabia que precisava dizer algo, só não sabia o quê. Arriscou um bocejar sorrateiro e suspirou com um ar de quem vive exilado na rotina. Cansado do cômodo amarelado, acomodado e meio puto com aquela infiltração no teto, pisou cuidadosamente no azulejo turquesa entre o prato com resto de pizza portuguesa e uma taça com resto de vinho chileno. Ainda olhou para o rosto dela antes de coçar os olhos retirando a remela. Havia baba seca na fronha do travesseiro.

– Olha só o sol que está lá fora
– … fecha a cortina…
– Anda, levanta! Vamos dar uma volta…
– Cala a boca e volta pra cama. Vamos dormir até tarde
– Mas já são 10h, pára com essa preguiça.
– Xiiii! Cala a boca!
– Cala a boca?
– Me deixa dormir.
– Te deixo pra sempre
– Vá, mas eu fico com o lençol.

E com o pouco carinho e a sensação repugnante de não receber sequer um ‘bom dia’, fechou a cortina e foi fumar um cigarro só e sozinho na solidão do banheiro. Abandonado. Por entre o reflexo do espelho e a fumaça cinza daquele início de dia ranzinza. Olhou sua imagem e jogou um pouco d’água no rosto e no cabelo. Coçou a barba fecunda e deixou a raiva escoar pelo ralo, com o escarro de nicotina e pasta de dente. Tudo por culpa daquele comodismo banal. E a resposta para se permitir ser tratado como lixo, isso ele não sabia perguntar. O sexo até que é bom, agradável. Isso ele sabia responder. Mas o carinho, o amor e o companheirismo estavam atrás da cortina, longe daquele lençol. Sol. Precisava de um pouco mais de brilho e um pouco menos das drogas etílicas que o faziam se levantar com uma enxaqueca desgraçada. Ressaca, um mar de ressaca mexido e gelado. Pronto para um mergulho. Mexido, um ovo na frigideira como consolo de um café da manhã vazio.

Sonolenta preguiça. Olhou para ela e sua indolência permanecia imóvel Queria dormir, queria simplesmente padecer um pouco mais para a vida. Um último gole na caixinha do Toddynho e a língua passando entre os dentes com resquício de gema. Clara era a resignação intrínseca ao desejo sobre tudo o que ele sabia que precisava dizer. Algo que não sabia o quê. Arriscou um bocejar sorrateiro e suspirou com um ar de quem vive exilado na rotina. E finalmente foi morrer em paz junto dela, naquela cama fria e o ressonar sem sol daquele cômodo incômodo amarelado, com infiltração no teto.

Entry filed under: Ácidos.

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25 Comentários Add your own

  • 1. Diana  |  setembro 24, 2007 às 4:51 pm

    Não chega ser ácido, mas é amargo. Um amargo viciante.
    Ela não te faz um carinho, não te embala à noite, não diz quando menas espera um: eu te amo menino. Você sente falta de amor pq sexo se encontra até na esquina. Belíssimo e inebriante texto.

    Responder
  • 2. Jean  |  setembro 24, 2007 às 6:30 pm

    Eu diria ressequido, inquieto. Mostra com destreza uma percepção angustiante: a paz, embora às vezes pareça uma comodidade sugestiva, nem sempre é uma boa companhia.
    Parabéns pela concepção!

    Responder
  • 3. Tânia  |  setembro 24, 2007 às 9:15 pm

    Bruninho, este texto me fez ficar pensando o quanto somos complicados…e o quanto procuramos…Dizem que esta inquietude é sinal dos tempos; pergunto de que tempo?
    Vou ali tomar um toddynho e pensar…
    Beijo de ótima semana querido…

    Responder
  • 4. Erika  |  setembro 24, 2007 às 9:47 pm

    Venceu a preguiça indolente da falta de sol por dentro.

    Beijos

    Responder
  • 5. Carol  |  setembro 24, 2007 às 10:18 pm

    maravilhoso texto!!!

    Responder
  • 6. luana  |  setembro 25, 2007 às 1:06 am

    comodismo banall??? ui ui ui menino..
    texto sempre muito bom e critico e reflexivo neh?
    leitura fácil e agradável (quer dizer, as vezes, meio inquietante..) 😛

    que ele deveria dar um “pontapée” na criatura , deveria! isso é fato..
    vinho chilenoo?? ueepaaa!!
    preciso de sol tbm..

    boa semana!
    namastê!
    x*

    Responder
  • 7. Edna  |  setembro 25, 2007 às 11:23 am

    Aqui tem todo o realismo de algumas relações, o ficar só por ficar, porque o sexo ainda é bom e o comodismo melhor ainda…
    Esse casal precisa literalmente acordar pra vida, né, riso.
    Ótimo!!!!
    Beijo

    Responder
  • 8. cabrita  |  setembro 25, 2007 às 11:51 am

    esse drama todo para acabar voltando pra cama??? se fosse mulher o drama se estenderia mto mais, mas vc é homem… não entende de fazer drama…. te ensino… rasga a cortina, puxa o lençol, quebra o ovo na cabeça dela, chora e diz q não te ama mais, sai de casa e só volta de madrugada….

    humm

    Responder
  • 9. Flá Fuini  |  setembro 25, 2007 às 6:39 pm

    Foi passar frio em São Paulooooooooooooooooooo!!!!!!!!!!!

    hahahahahahaha!

    p.s.: atualizei meu blog!

    Responder
  • 10. Flávia  |  setembro 26, 2007 às 12:28 am

    Morrer na paz ao lado do outro. E qualquer rusga, diante disso, vira banalidade.

    Beijo!

    Responder
  • 11. Acido Cloridrix  |  setembro 26, 2007 às 3:55 am

    Sou um ácido diferente, mas de qq maneira gostei de saber que um meu homonimo tem um blog tão interessante!!! Cumprimentos ácidos, HCL

    Responder
  • 12. Fernanda Passos  |  setembro 26, 2007 às 4:10 pm

    Texto que retrata o comodismo a que muitas vezes nos agarramos só por medo de dar um salto na vida e vislumbrar horizontes desconhecidos. Tudo com escrito com uma precisão que me impressionam. Um linguagem clara.
    Muito bom moço.
    Parabéns.
    Bj.

    Responder
  • 13. Bárbara P  |  setembro 26, 2007 às 5:33 pm

    Se ele fosse mais fofinho, ela teria levantado…

    Responder
  • 14. czarina  |  setembro 26, 2007 às 6:04 pm

    bom trabalho com as antiteses polvilhadas no texto….
    bjo!

    Responder
  • 15. Nil Brito  |  setembro 26, 2007 às 6:35 pm

    Gostei muito. Parabéns pelo trabalho.

    Responder
  • 16. camiles  |  setembro 26, 2007 às 9:47 pm

    a vida como ela é… pra maioria das pessoas!
    gostei muito, muito mesmo.

    Responder
  • 17. João Paulo  |  setembro 27, 2007 às 12:25 am

    As delimitações humanas fazem de uma oportunidade um momento propício para se arrebentar…, às vezes, são inteligentes e sabem fazer o jogo da vida.

    Abração!

    Responder
  • 18. alexandre  |  setembro 27, 2007 às 1:34 pm

    É…a vida é feita de rosas negras no café da manhã e arame farpado ao dente no jantar. Belo texto!

    Responder
  • 19. babisoler  |  setembro 27, 2007 às 11:32 pm

    E o retrato estampado do comodismo vem à tona.
    Você fisgou o X da questão.
    Perfeitooooo!!!
    Beijo.

    Responder
  • 20. Carol Montone  |  setembro 29, 2007 às 3:16 pm

    Forte, incômodo, vivo…….mais um exemplar da tua poesia que sobrevive as vielas escuras e ácidas……….
    gosto do teu jeito de dizer até coisas nogentas como ovo entre dentes……
    meu beijo
    saudades
    Carol Montone

    Responder
  • 21. Fina Flor  |  setembro 30, 2007 às 5:34 am

    eu faço de tudo pelos meus desejos…. saudação para quem tem coragem………….

    beijos e bom domingo, querido

    MM.

    Responder
  • 22. Sônia  |  setembro 30, 2007 às 7:52 pm

    Por que não levantou e foi dar uma volta sozinho?
    Essa seria a atitude correta! rs…da próxima vez, ela ia…eu garanto!

    Boa tarde!

    Responder
  • 23. Aline  |  outubro 1, 2007 às 12:49 am

    O problema é que complicamos demais a relação. Talvez se fossemos mais diretos, menos complicado, soubéssemos o que queríamos, tudo seria mais simples… mais fácil!

    Responder
  • 24. Aline  |  outubro 1, 2007 às 12:50 am

    ops… um cheiro!

    Responder
  • 25. Rayanne  |  novembro 26, 2008 às 2:08 pm

    Tristemente áspero.
    Como num mundo que as pessoas deixam ser.

    Em alguns, a vida estagnada parace colorir o corpo
    de equimoses e culpas.

    Sorte daqueles que deixam a vida formigar ainda a ponta dos dedos.

    **Estrelas**

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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