Poesia Cretina, Feita de Café Aguado e Leite Desnatado

setembro 17, 2007 at 2:16 pm 26 comentários

café Padaria cheia nessa manhã quente. São só 8h da manhã e eu já peço apenas um café com leite urgente, sem fazer média com meu estômago de avestruz. Pessoas passando velozes, terno, rostos, blazer e negócios. Meus olhos espiam os passos largos e vagos dos maltrapilhos rumo ao trabalho em plena manhã ensolarada de segunda-feira, neste dia qualquer de setembro. Eu pensando em ontem, naquele espaço estreito em frente à Joana Angélica, Posto 9 em Ipanema. Praia, queijo coalho e cerveja gelada. Deixei o astro-rei marcar meu corpo com seus raios e estampar a marca da sunga na minha coxa alva. Cheiro de mar, sundown, maconha, areia fofa e o perfume moribundo de algum subalterno aos prazeres cariocas escondido entre as cadeiras, kangas e guarda-sóis. Tudo isso misturado ao som dub do reggae, funk, pagode, axé e rock vindo das barracas que vendem suco suspeito, coco com pouca carne, sanduíche natural seco e sonhos molhados, que saem sinuosos entre as espumas do mar. Eu preciso da melodia da praia, ondas quebrando graves e brisa cantarolando agudo.

A música intermitente, ditada pelas buzinas e apitos dos guardas buscando uma multa certeira, me traz de volta à realidade. De raiva, tomo um gole rápido e queimo língua, garganta e humor. Vontade de entoar um “puta-que-pariu” e fugir disso tudo. Uns pingos ralos do adoçante e algumas assopradas longas se fazem necessárias para este pobre-nobre desejum. Remédio a curto prazo contra os males de uma semana que acaba de começar. Desejo estar longe de toda essa gente mecânica e tola, pagando o café no balcão e saindo apressada para agradar o patrão.

Já foi difícil encarar a condução lotada e, meu único alento, foi o decote da loira falsa sentada ao meu lado. Seus belos seios me fizeram lembrar dos sonhos oriundos de adolescente. Memórias covardes dos anos noventa, onde eu juntava mesada pra comprar revista de mulher pelada. Ainda me recordo da minha curiosidade, mas o tempo mostrou que todas têm pentelho preto. Exceto as ruivas.
Peço à atendente do balcão, que tem mechas rubras no cabelo encaracolado, para ligar o ventilador de teto. Mal humoradamente, ela me responde que está quebrado. Imagine no verão, neguinho deve cozinhar aqui dentro dessa padaria. Daqui a pouco começo a suar e chego ao trabalho pingando. Eu e minha mochila companheira, que é acessório obrigatório para representar a minha vontade de ir pra outro lugar.

Último gole. Café com leite é o melhor remédio contra o tédio matinal. Conforta minha garganta seca a cada sorvo vagaroso num copo de vidro sincero e me norteia na hora de me levantar, pagar a conta e sair rumo ao meu destino. Muito sol lá fora e um céu azul tamanho infinito. No verão não venho tomar café aqui. Vou evadir dessas coisas que só me fazem mal. Principalmente dessa poesia cretina feita de café aguado e leite desnatado. Tudo sem dor ou pão na chapa.

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26 Comentários Add your own

  • 1. alexandre  |  setembro 17, 2007 às 3:59 pm

    Uma versão dantesca de poesia grotesca e necessária nesta segunda-feira. Perfeito meu amigo!
    Abraços

    Responder
  • 2. Natasha  |  setembro 17, 2007 às 6:37 pm

    Aff…vc não se cansa mesmo de me surpreender. Toda seg, um texto melhor que o outro. Acredite; é por meio”..dessa poesia cretina feita de café aguado e leite desnatado…” que vc alegra todos os leitores que “provam” do seu ácido.
    Um beijo maior que o seu talento! : )

    Responder
  • 3. cabrita  |  setembro 17, 2007 às 6:50 pm

    tomo café no trabalho.. sentadinha, no ar condicionado, em frente ao micro.. a copeira chama meu nome logo no primeiro horário: “quer café?” “ah! sim, obrigada, num copo grande com três gotinhas”… mas nunca tá bom.. talvez o café da padaria seja mais gostoso… queria trabalhar na cidade, onde tem cafés pingados.

    Responder
  • 4. Diana  |  setembro 17, 2007 às 7:47 pm

    Segunda feira geralmente precisa de uma boa dose de café com leite, mas tem que ser café forte. Apesar disso tudo o dia está lindo nesse friozinho e seu texto bela como chocolate amargo.
    Um abraço
    Diana

    Responder
  • 5. Alê Quites  |  setembro 17, 2007 às 8:05 pm

    É por viver tantos sentimentos assim, que quando estou de folga, de união com o ócio, tomo cerveja na segunda-feira pela manhã.
    Hoje, não tive tempo pro café com leite, nem pra poesia de revolta e muito menos para perceber o lindo sol. Cara! Achocolatado em caixinha e pão de queijo foram pescados meio ao caminho, brigando com meus passos apressados.
    Amanhã tomo um café quente.
    Boa semana!

    Responder
  • 6. Hélder  |  setembro 17, 2007 às 9:49 pm

    Cara, muito bom!
    Um dos melhores textos que eu já li!

    Sentir assim nesses momentos tão ralos algo tão profundo é sensacional!

    muito legal por aqui.

    Responder
  • 7. Sônia  |  setembro 17, 2007 às 11:12 pm

    Adoro café com leite!!!! É a melhor coisa pra começar o dia! rs…

    Abraço sumido!

    Responder
  • 8. Erika  |  setembro 18, 2007 às 11:09 am

    detesto leite…

    pode ser café puro? ou um toddynho… prá tomar de canudinho?

    beijos

    Responder
  • 9. Christiani Rodrigues  |  setembro 18, 2007 às 12:45 pm

    “Eu preciso da melodia da praia, ondas quebrando graves e brisa cantarolando agudo.”
    Poesia cretina nada!!!

    Bjo

    Responder
  • 10. Flávia  |  setembro 18, 2007 às 1:23 pm

    Olha, Cazonatti… impressionante como vc consegue transformar o simples, o trivial, o blasé, em um material tão lapidado.

    Vc é um perigo, garoto.

    Beijo!

    Responder
  • 11. Tânia  |  setembro 18, 2007 às 2:16 pm

    Bruno querido…um café sem áçucar por favor…após tomar quero caminhar pelas areias, sentir esta brisa e pegando emprestado este seu olhar vislumbrar o cotidiano nosso de cada dia…
    Beijão

    Responder
  • 12. Fernanda Passos  |  setembro 18, 2007 às 7:12 pm

    É………na segunda levantamos e deixamos os sonhos ainda na cama. Não resta nada a fazer que não seja se inspirar(mesmo sem dor ou pão na chapa) em uma padaria infernal de qualquer esquina e acabar construindo um texto fantástico como esse teu.
    Talentoso moço. muito.
    Bj.

    Responder
  • 13. Edna  |  setembro 18, 2007 às 7:34 pm

    Bem cara de segundona mesmo…você escreve a realidade como ninguém!
    Beijos

    Responder
  • 14. Lubi  |  setembro 18, 2007 às 8:43 pm

    Ai, ai, ai que saudade de você.
    Vontade imensa de entoar um “puta que pariu” aqui! rs. Não tem café.

    =P

    Responder
  • 15. Flá Fuini  |  setembro 18, 2007 às 9:23 pm

    “Deixei o astro-rei marcar meu corpo com seus raios e estampar a marca da sunga na minha coxa alva”

    Que bregaaaaaaaaa!!! rsrsrsrsrs

    Mas adorei o texto…
    …e segunda de manhã, ou melhor, madrugada, só café forte e sempre amargo!!!

    Responder
  • 16. Kiara Guedes  |  setembro 18, 2007 às 11:58 pm

    Sua poesia cretina nada cretina! Gostei daqui… voltarei mais vezes! Abraços

    Responder
  • 17. Marcelo Cantalice  |  setembro 19, 2007 às 12:40 am

    Maldita seja…Segunda-feira…Café aguado, ressaqueado…desnorteado, perdido.
    O pior…em uma esquina de padaria calorenta e sem cerveja….
    Brincadeiras a parte, é fantástico ver como podemos criar um texto através de imagens “cretinas” em nosso cotidiano!
    Adorei seu espaço…Sua “Poesia Cretina” adoçou meu café!
    Parabéns!

    Responder
  • 18. Mary  |  setembro 19, 2007 às 6:26 am

    O café e o sabor da rotina na boca… Adorei o texto!

    Eu tô precisando é de uma praia, queijo coalho e cerveja gelada! =P

    Beijos!

    Responder
  • 19. Girassol  |  setembro 19, 2007 às 3:56 pm

    Para encarar um novo dia na amálgama de gente, e esquecer o bem bom de praia e cerveja gelada, só café simples e forte.

    Beijo

    Responder
  • 20. Fina Flor  |  setembro 20, 2007 às 5:11 am

    sabe que tô aprendendo a gostar de café somente agora? rsrsr*

    seguinte, moço, se não foi à Bienal, ainda, fica a dica: estarei me apresentando na sexta 21/09, no Jirau de Poesia, às 18h. Seria uma ótima oportunidade para nos conhecermos pessoalmente, né? Se já foi, ótimo dia para um repeteco, rsrsr*

    beijos e até,

    MM.

    Responder
  • 21. elisabetecunha  |  setembro 22, 2007 às 1:36 am

    Cara, ta escrevendo maravilhosamente!!
    beijos!

    Responder
  • 22. babisoler  |  setembro 22, 2007 às 1:40 am

    Impressionante o poder do café…além de tudo é fonte de inspiração.
    Bom final de semana
    Beijo!

    Responder
  • 23. milah  |  setembro 22, 2007 às 2:47 pm

    muito bom!!

    pena que o café me pareceu tá ruim, ou talvez você tivesse mesmo pensando na cerveja.

    Responder
  • 24. Rubina  |  setembro 23, 2007 às 8:09 pm

    E a padaria era portuguesa? Sim, pq não há melhor pequeno-almoço, ou café da manhã, do que uma meia de leite e um pãozinho com queijo português…lol…

    Responder
  • 25. Aline  |  setembro 24, 2007 às 1:06 pm

    Nossa, o primeiro dia da semana é de fato um droga. E ainda mais começar a segunda tomando café… eca!
    Odeio café! São uma das pouquíssimas coisas que consigo odiar, de verdade.
    Para mim, tem café na área, tá tudo arruinado. Inclusive a semana!
    Um cheiro!!!!

    Responder
  • 26. João Paulo  |  setembro 27, 2007 às 12:21 am

    Esse é um relato que deveria ser lido por todos esses personagens que vc citou, pena que a pressa impede de que façam boas leituras.

    Estava um pouco sumido, isso é comum, já que estou em fase de elaboração de dissertação.

    Abraços!

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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